Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2010

Crónica semanal de Alberto João Jardim (*)

Reconstrução

Uma catástrofe desabou sobre a Madeira.
É hora de luto, mas também de apelo às forças íntimas de cada um, as quais, ao longo de gerações e da História, fizeram e sustentaram a gesta do Povo Madeirense.
O nosso passado é construído de confrontos cíclicos entre Povo e Natureza.
Em todos os momentos que a fúria Desta parecia nos derrotar de vez, a Alma possante dos Madeirenses revestiu a couraça para enfrentar o Destino, feriu as mãos no basalto e reconstruiu.
RECONSTRUÇÃO é a palavra de ordem.
Todos os braços serão poucos.
Depende muito dos apoios que se materializarem. Mas a solidariedade que logo recebemos de todo o lado, dá-nos fé para crer que não se trata de palavras vãs.
Não é a hora da Política.
É a hora de muito TRABALHO SOLIDÁRIO E ORGANIZADO.
O Turismo e a Economia têm de assumir o seu funcionamento, custe o que custar e estão já a fazê-lo.
Eu próprio substituí por este, o escrito que aqui hoje iria ser publicado, bem como suspendi outros já preparados. E só continuarei a escrever, quando for possível.
A vida mudou por estes próximos tempos, e de que maneira!
Não há espaço sequer, para distracção com aqueles de comportamento canalha, que logo se aproveitaram desta tragédia sem precedente.
A catástrofe também mostrou o sempre denunciado analfabetismo de alguns. "Não se tira pedra da ribeira", porém ela veio sobre nós. Não se robustece o litoral, como na expansão territorial de alguns países, e eis o mar em cima de nós. Não se canaliza as ribeiras, e se não o fizéssemos, hoje o Funchal, como cidade, teria desaparecido, tal como a Ribeira Brava.
Basta de institucionalizar a asneira!
E não percamos mais tempo com eles.
RECONSTRUÇÃO
O mais célere e correctamente possível. Não é tempo para burocracias e positivismos jurídicos.
Não é tempo para rivalidades e confrontos mesquinhos.
Estamos em ESTADO DE NECESSIDADE.
Um grande MUITO OBRIGADO a todos os que nos estão a ajudar. Desde Instituições do Estado e todas as outras, através dos seus Titulares, até ao Cidadão mais anónimo.
Que pessoas fantásticas!
E como esta Nação Portuguesa é fantástica, quando toca a reunir!
Obrigado, muito obrigado.

(*) Presidente do Governo Regional da Madeira

Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2010

QUINTA COLUNA: por Fra Diavolo


Consternação

E, subitamente, quando as nuvens se carregavam de tons negros, anunciando a maior borrasca da sua carreira política, eis que no regaço de José Sócrates cai, como dádiva dos céus, a sublime oportunidade de passar de lobo a cordeiro. "Adeus, vou para a Madeira!", disse ele aos camaradas, mal conseguindo conter a satisfação por poder dar de si a imagem do primeiro-ministro desolado com a tragédia alheia. Quem somos nós para duvidarmos dos seus sentimentos, ou até mesmo das suas boas-intenções? O certo é que, aos olhos da impressionável opinião pública, num dia era o acossado protagonista das escutas da sinistra "Face Oculta" – e no dia seguinte já tinha passado a "governante solidário". O que são as coisas!
De uma assentada, o ainda primeiro-ministro ensaia um "bom papel", transforma-se em anjo da magnanimidade, faz-se filmar nos escombros e regressa a Lisboa com o ar de "business as usual". E isto sem mexer um dedo, sem precisar de assessores, sem contratar sequer uma empresa de comunicação. E sem ter de gastar um tostão em fundos de emergência não-programados, já que, de Bruxelas, José Manuel Porreiro Pá Durão Barroso se apressou a anunciar que a Europa estava connosco. A Europa e não só. Pois também o empresário 'Joe' Berardo se mostrou muito consternado com a desgraça que nos últimos dias se abateu sobre o arquipélago que o viu nascer. Fica-lhe bem a consternação. Resta apenas saber com quantos euros, dos muitos milhões que o regime socratino lhe tem dado a ganhar, irá o empresário contribuir para minorar o sofrimento dos madeirenses. Ele e outros milionários das Ilhas que, de jeito em jeito, se transformaram em cromos do socialismo nacional.

FOGO AMIGO: por António Marques Bessa

Sexo e Demografia

Neste momento em que uma catástrofe natural se abateu sobre a Madeira, seria tempo de reflectir sobre sexo. Parece o contrário, mas não é.

Portugal tem aquelas características de país subdesenvolvido e pobre que o almirante Rosa Coutinho tanto prezava no meu tempo de rapaz. "Sexo e a Cidade" parece um filme de Nova Iorque onde a Medeiros e outros gostariam de estar no elenco, todavia o sexo é uma coisa que foi estudada desde os gregos da ilha de Lesbos até aos dias de hoje, passando pelo crivo dos etólogos onde se devem normalmente destacar investigadores da craveira de Desmond Morris, Konrad Lorenz, Niko Tinbergen e Irenaus Eibesfeldt, que interpretaram o sexo num sentido que nem Freud, Reich e outros malucos alcançaram. De facto, o sexo não serve para a revolução. Não é por fazer centenas de cópulas junto da Assembleia de Deputados ou no Rossio que se derruba o regime. Permanece um acto isolado ou público mas com restrições devido à sua própria natureza.
Na realidade, a recompensa sexual dos parceiros provém de um programa genético de multiplicação. Se fosse um acto desagradável ninguém queria praticá-lo. A Natureza prova abundantemente este facto mesmo com aranhas em que a fêmea devora o macho mais lento. Os homens e as mulheres, a espécie humana tem cio permanente; e este dado é muito importante, porque a maior parte do animais encontra-se regulado pelo tempos de cio. Só nesses momentos pensam nisso. O nosso caso é diferente: estamos sempre, graças ao programa, disponíveis. Mas para fazer o quê?

Que fazer?

Lenine colocou esta questão num tempo em que queria conquistar o Estado russo. A sua resposta foi fatal porque concebeu novas condições para agir fora das normas de Karl Marx e, na realidade, a resposta foi boa.
Nós temos que fazer a mesma pergunta ao programa com que nascemos, que é uma mistura aleatória do programa do nosso pai e da nossa mãe. Que hei-de eu fazer com o meu programa? Bom, os programas não vêm todos avariados, só os das mulheres que engravidam muito tarde e que apresentam erros comuns que não podem ser eliminados por elas. O que sucede é que os programas são bons e oferecem todas as possibilidades à reprodução da nossa espécie. Todavia, nem todos os que nascem com programas bons estão dispostos a obedecer ao seu programa: querem inventar prazeres que não vêm no cardápio do genoma humano. E isso significa procurar fora do limite, fazer sexo com animais, fazer sexo com pessoas do mesmo sexo e eventualmente, para desenjoar, procurar uma luz ao fundo do túnel.
O programa é bom, mas os humanos souberam separar definitivamente o prazer do fim para que ele está no programa: ter bebés humanos, multiplicar a descendência. Mas abdicar do prazer colateral, isso nunca, por isso vale tudo, mesmo tirar olhos. Do sadismo ao masoquismo, do cansaço à exuberância, o prazer puro de ter dor e de infligir dor, tudo se procura como num armazém de alquimista antigo. Só que o armazém não tem alma, nem espírito: toma-se e leva-se o que precisa a mente contaminada.

O Continuum

Há que entender ainda que o Programa humano do genoma é um continuum. Desde o momento de fecundação, em que surge o ovo humano, até que este se desenvolve num velho, é só a concretização do programa que está em interacção com o ambiente, depois de ter interagido com útero materno e o seu tecido celular. O bebé humano é um milagre, pelos milhares que são eliminados no útero através do filtro da fêmea humana. Tem-se calculado que centenas ou mesmo milhares de ovos humanos são eliminados pelos organismos jovens que rejeitam na mulher a combinação genética que está errada. A grande máquina de aborto encontra-se, não nas clínicas, mas na própria mulher jovem cujo corpo distingue a má combinação da boa combinação genética. Então porque dar tanta importância a desviantes do programa e ao aborto provocado? Todos estão a cavar a sua própria sepultura cultural. Avisemo-los, nestes tempos difíceis e contíguos ao mal indiferenciado, mas nós próprios mantenhamos o que é nosso por herança genética e que vem da noite dos tempos.
Todos nós somos, como escreveu o saudoso antropólogo Robert Ardrey, um "acidente na noite" ("Social Contract") ou no dia, porém o que nos une é muito mais do que aquilo que nos separa. O nosso genoma, cada vez melhor identificado, vai dar, se não for manipulado por loucos, ao segredo das origens não confessadas. Fomos feitos.

Genes bons

E que tem isto com a Madeira? Muito. Fiéis ao genoma, multiplicando-se, não cabiam nas duas ilhas. Saíram para a Venezuela, para os Estados Unidos, para o Canadá, para a África do Sul e alguns para o Continente. Uma gente que sempre soube o que queria no meio daquele mar imenso, domando a terra e cavalgando os açudes e subindo pelas montanhas.
Nada os deitará abaixo porque muito baixo voaram eles nos tempos duros. É com esperança que digo ao meu colega de coluna, presidente do governo regional, que agora é que é preciso ter coragem para colocar tudo como estava antes, mas melhor. Não acredite que há erros de planeamento, Dr. Jardim. Eu vi como as coisas se faziam e desenvolviam e como o povo estava entusiasmado. Provavelmente era impensável travar a urbanização do Curral das Freiras e isso eu entendo, porque também estive lá.
Lamento o que se passou, mas o Haiti foi muito mais terrível e felizmente vai ter muita ajuda. Temos aí dos melhores portugueses, é impensável que não trabalhem. E temos aí as terras mais caras por metro quadrado. Nem nos campos baixos de arroz do Rio Mondego. Como não iriam aproveitar à revelia qualquer parcela? Os portugueses podem ser pobres, mas são culturalmente informados e têm nas ilhas ainda genes bons – o que não parece ser o comum aqui no Continente.

Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2010

Não ouvem, não vêem, não falam


O coma político-partidário em que o País mergulhou nas últimas semanas teve, entre outras, a enorme vantagem de patentear, com provas e exemplos nominais, aquilo que o povo há muito sabia: a política dos partidos tornou-se inimiga dos interesses de Portugal.
A denúncia dos últimos escândalos em que se envolveu o ainda primeiro-ministro, para além de revelarem um carácter incompatível com a dignidade do cargo, puseram a nu uma rede de interesses e conveniências em que a generalidade dos intervenientes se mostram dispostos a engolir todas as ignomínias. É sintomático que o principal comentador político português, e um dos mais eminentes catedráticos de Direito da nossa Universidade, tenha dito isto na televisão do Estado: “É muito difícil manter um mentiroso como primeiro-ministro, mas a situação do País impõe-no”.
“A situação do País” é, sabemo-lo todos, um desastre anunciado. O que não sabíamos era que a necessidade de fazer aprovar o Orçamento e concluir a negociação do Programa de Estabilidade e Crescimento com Bruxelas (isto é, os remendos esfarrapados das contas públicas e o rol de endividamentos para os próximos anos) pudessem constituir razão para manter no cargo quem – já todos o dizem – não tem condições para tal. Por este “arranjinho global”, não é apenas Sócrates que está em causa: é ele e tudo à volta.

Interesses trasversais

Sobre Sócrates já pouco há a dizer: sobrevive na chefia do Governo graças à complacência geral, à “ausência de alternativa” e a uma estranha “entente cordiale” que envolve a generalidade da classe política e as mais altas instâncias da Justiça. Sabemos hoje que o que Sócrates fez não é admissível a um governante – mas a classe política que elegemos prepara-se para deixar tudo como estava. Porquê?
O PS, em pânico face à perspectiva de perder o comando dos “tachos” em que assenta o seu poder, ficou em estado de choque com a imprudência do “patrão” e a sua exposição pública; mas nada pode fazer, sob pena de prescindir de uma situação de privilégio que dificilmente recuperaria nos tempos mais próximos.
Ao PSD, perdido ainda no seu labirinto, com uma líder de saída e três candidatos a uma alternativa a médio prazo, não convém correr agora para eleições antecipadas. Prefere, por isso, fingir que “cozinha Sócrates em lume brando”, como se se tivesse já visto que ele está mais que esturricado.
O CDS, que se vinha insinuando como “parceiro sério” na resolução das “grandes questões nacionais”, tão-pouco está interessado numa imediata consulta nas urnas: antes de reforçar a sua base eleitoral, continuaria irremediavelmente condenado a competir como força secundária, e não como Portas deseja – como “alternativa” de Direita.
O Bloco de Esquerda, embaraçado pelos desastrosos resultados nas últimas legislativas e consciente do risco do seu esvaziamento eleitoral, encolheu as garras e abandonou o seu histriónico estilo “mata-esfola”. Louçã, o trotskista amansado, chegou nos últimos dias ao ponto de declarar, como um menino bem comportado: “As escutas consideradas sem relevância por decisões do sistema judiciário regressam imediatamente ao foro privado e não devem ser utilizadas”.
Neste extraordinário quadro, em que não estão sequer consideradas as possíveis “ligações perigosas” de interesses e negócios transversais à Nomenklatura da classe política, só o Partido Comunista parece estar de mãos livres para ir a votos. Triste sina!

A palavra que falta

Por fim, os olhos do País voltam-se para o Presidente da República, como garante último da dignidade do Estado. Dele se esperaria, ao menos, uma palavra. Um sinal de que, apesar de tudo, ainda é possível ter confiança em alguém. O penhor de que, nem que seja num futuro previsível, Portugal voltará a ter um primeiro-ministro que não seja (como já ouvimos na televisão oficial) “um mentiroso”. Mas o Chefe do Estado não nos deu ainda essa palavra. Apreciam-se, sem dúvida, a prudência e o comedimento de Cavaco Silva. Mas o homem que um dia condenou a “má moeda” haveria agora de questionar, tanto ou mais, a “má nota”.
E, assim, uns não querem ouvir; outros preferem não ver; e outros teimam em não falar.
Só o povo os percebe, ao ouvi-los; só o povo viu já, à transparência, o que eles são; e só o povo poderá dar-lhes o correctivo quando, nos ‘timings’ e nas condições que eles próprios ditarão, for chamado a julgá-los.

QUINTA COLUNA: por Fra Diavolo

Circo sem pão

Ora aqui está uma verdadeira medida de austeridade, digna do período de crise que o País atravessa: por decisão da Direcção dos Serviços do IVA, de Lisboa, as associações organizadoras das festas de Carnaval ficaram isentas de impostos. Um esforçado inspector do Fisco em Aveiro, pelos vistos mais socrático que Sócrates, ainda esboçou um gesto para fiscalizar e tributar os organizadores dos “corsos” da Bairrada, Estarreja e Ovar. Mas logo da capital o chamaram à pedra: deixe lá os homens em paz! E assim, independentemente de se tratar de uma actividade comercial como qualquer outra, a folia carnavalesca livrou-se completamente do IVA (e, virtualmente, do IRC). Para tornar tudo mais democrático, a directiva acabou por aplicar-se aos Carnavais do país inteiro. Ninguém paga, minha gente! Esta boa notícia, que para ser verdadeiramente socialista devia abranger o pobre cidadão comum, não deixa de nos recordar as velhas “Sátiras” de Juvenal, em que pela primeira vez se usou a expressão “panem et circenses”. Felizmente para os romanos do Império, esses “pão e circo” do tempo dos gladiadores do Coliseu de Roma eram mesmo comida e divertimento: Carnavais a sério, em que a folia do espectáculo vinha acompanhada de bodo aos pobres, com comida verdadeira e vinho a rodos. As razões imperiais (romanas) de então e as razões fiscais (portuguesas) de hoje apresentam, curiosamente, uma grande semelhança: Estado em falência, corrupção generalizada, desemprego galopante, receio de uma revolta das massas miseráveis. Por cá, ficamo-nos pela despenalização tributária. Em Roma, apesar de tudo, ainda davam pão, tornando mais potentes os efeitos entorpecentes do “ópio do povo”. E nem mesmo assim o Império escapou à triste sina…

(*) ilustração retirada do blog wehavekaosinthegarden.blogspot.com, com o devido agradecimento

FOGO AMIGO: por António Marques Bessa


Quando é que vamos aprender com as experiências de Afonso de Albuquerque? Quem não tem poder não tem vícios. Quem tem vícios tem que arranjar dinheiro para os manter, não à custa de impostos sobre o seu povo, mas com despojos. Em Portugal, a classe política não percebeu a dicotomia.


Para uma Estratégia Portuguesa

Tendo já feito uma abordagem sumária à degradação da estrutura social portuguesa nestes anos que decorrem desde 1990 a 2010, é nas capacidades adquiridas que se pode basear uma política externa, porque esta não se ergue sobre o vazio ou sobre o vento que passa, como cantavam os baladeiros como Adriano Rodrigues a que a TV1 dá tempo de antena à nossa custa, com derivados como o Godinho, o Zé Branco e o Fausto, que melhor fariam, face ao que vêm, em pôr as violas no saco. Seriam inconsequentes, utópicos e imbecis, sobretudo ao dar corpo a nada daquilo que ainda não são capazes de explicar. É uma dó vê-los, já carecas e face à realidade que se enfrenta com as mesmas mezinhas enfuscadas em sons de 1970. Vão beber uísque, se não sabem cantar. E convidem o chefe dos Bandemónios, esse horrível homem que me fez tirar todas as contas dos Bancos a que fez publicidade. A publicidade paga-se, no meu mercado. E as bandas dão no mesmo.
Não é assim que se explica o que aconteceu a este paisguês, não é assim com violas que se fizeram revoluções de bandidos, não foi assim que se assassinaram moralmente pessoas. Com violas. Também não é assim que se faz política externa consequente, eficaz e adequada a um país com tradições e totalmente nas lonas, graças aos pensadores da violas.

As posições adquiridas

As posições adquiridas pela política portuguesa ao longo de vários governos indiciam por si só que a primeira posição a ter em linha de conta são as obrigações do Estado com a NATO. É um tratado de Salazar que condiciona tudo em que nos encontramos metidos até aos ossos e que já praticamente engloba o velho e nefasto tratado bilateral com a Grã-Bretanha. Este alinhamento dos países do Atlântico, segundo a teoria geopolítica de Mackinder, valeu para fazer a contenção da URSS nos seus tempos mais bélicos, mas nunca se alargou ao sul para defender as colónias de Portugal, sendo que os seus competidores, dentro e fora da NATO, rapidamente fizeram uma marcha para o vazio da descolonização imposta, aonde já tinham os seus peões e os seus jogos.
Esta linha de aliança não pôde ser revista nem no tempo do bolchevismo activo de Cunhal, porque se referia ao superpoder e aos seus desígnios na Europa e no Atlântico, onde parece que Portugal ainda tem interesses, chamem-se eles ilhas, como arquipélagos de Madeira e Açores, ou plataforma continental. E esta é uma linha que leva ao Afeganistão, ao Iraque, levou aos Balcãs e aonde mais? Vê-se que o superpoder define a aliança: não quis alargar à África Portuguesa com o álibi de era do Atlântico Norte. E agora, porque razões a Ucrânia, os Balcãs e o Afeganistão são preocupações comuns da NATO 'et al'?
É o Mar Vermelho? Percebe-se facilmente que quem manda imponha regras aos liliputianos como nós? As grandes facilidades nos Açores, nas Lages, não levam os serventuários do Império Americano ao regozijo, ou não serão eles Presidentes de várias instituições, e doutorados por outras, como a Washington University? Gostava mais de os ver correr com carros de cavalos em Roma pelo “triunfo” no Circo, depois de uma corrida bem disputada. Ou então obterem outro triunfo, o daqueles que não têm apego aos bens da terra, enfrentando leões no circo de mãos vazias como os primitivos cristãos no tempo de Nero. Assim é que era divertido o triunfo dos desapegados, na ética republicana, como nos foi explicado pelo inefável ministro do Deus do Triângulo.
A segunda linha de grandes interesses insinua-se na criação de uma Federação Europeia de diversos Países com línguas diferentes e com culturas contrastantes. Da União Europeia à Federação é um caminho longo, mas a diplomacia de Lisboa nunca escondeu que era essa continentalização que desejava. Uma experiência que nunca teve, a que é estranha, que nunca viu e de que não conhece as consequências, com povos no Centro Europeu tão poderosos como os germânicos e os franceses, que mesmo Júlio Cesar temia e identificou como o grande desafio da SPQR (“De Bello Galico”). Continua aqui a valer a regra dos dez milhões sem recursos naturais e sem tecnologia média, sem estratégia e endividados até à medula dos ossos e que só sabem curvar a espinha e sorrir com aquele sorriso mesquinho de vendidos.
Mas foi para esse espaço que nos movemos com Soares (outro) e quisemos estar por entusiasmo popular de cretinos, mas esquecendo que tudo era um seguro de vida da classe política do tempo da adesão contra o golpe de estado militar interno. A UE nunca teve o costume de dar nada, para lá de criar uma burocracia de rigores financeiros, fiscalizada pelos melhores funcionários alemães e nórdicos.
Em Lisboa, se andaram este tempo todo a atirar foguetes, vão também andar a apanhar as canas. Milhões delas. Não é brincadeira entrarem biliões de euros, desaparecerem, esvaírem-se, não serem notados pelos destinatários e depois parecer que diminuímos o nosso poder competitivo, que não temos agricultura ou pescas e que o comércio e a indústria vão pelo mesmo caminho. Ou seja: tirado o betão, cada um está mais pobre e miserável. Na realidade, esta via entusiasmante para os que ganham a vida dela, não parece tão atractiva a outros povos e mesmo ao nosso, que já viu o que paga por estar nela. Esta é a segunda via de negociação para espertos.

“Sea Power”

Os USA encontram-se nesta definição porque são ainda a superpotência, o Império deste mundo, por causa do mar, da ligação transatlântica, mas isso interessa mais a uns que a outros. Menos à Alemanha e França do que à Grã-Bretanha, sempre entendida como o “porta-aviões europeu” da superpotência transatlântica. Deste dois espaços, o país obteve pouco pelos seus encartados embaixadores e Comissões de um Ministério gigantesco que fazia bem se não existisse. Isso indicia bem a classe dos indivíduos escolhidos para esta tarefa: em vez de explorar a UE, fomos explorados, repusémos capital doado, fomos reduzidos a um lugar vigiado de “melhor aluno” e, finalmente, remetidos na escala, destacados pelos índices de horror e de pavor nos últimos do pelotão. Fomos colocados num estatuto neocolonial e com uma forçada política de porta aberta provável e definitivamente remetidos a um estatuto colonial: ser o abrigo dos indigentes da Terra. A desconfiança continental sobre estes 10 milhões de pessoas não descolou da carapaça antiga: berberes, seminegros, arraçados, povo de segunda, 'pied noir', mal educados, semi-analfabetos, somos suspeitos, para todos os lados para aonde nos movamos na Civilização Europeia, daquilo que eu chamo agora o complexo do Novo Eixo Europeu (New European Ax Complex). E eu já vi, infelizmente, isso. A porta TAP percebe-se logo onde está, em qualquer aeroporto europeu. Infelizmente. Nem é precisa indicação. Lá estão eles, os “portugas”, como sempre. E quando se encontram na porta TAP é de rir à gargalhada e não vou dizer aqui quem já vi em Bruxelas portar-se como um animal na sala de embarque. Será que temos sangue de Balantas e Fulas da Guiné?
A terceira orientação poderia concretizar-se no mar, explorando o triângulo estratégico, em matéria de pescas e em recursos minerais. Se Lisboa fosse forte, o mar até aos Açores daria trabalho a toda a gente, peixe, e uma frota moderna e tecnologicamente avançada. Mas essa parece que ainda não é a via compreendida pela tal elite política do betão, betão que fez as delícias do Haiti, cuja contabilidade de mortos ainda não terminou.
Na realidade, trata-se de um espaço marítimo desguarnecido que vale várias vezes o território emerso aqui deste lado e nas ilhas. O peixe passa por baixo das nossas redes não existentes, mas cai nas dos outros. É bom abater navios. Recebe-se algum dinheiro a curto prazo e os velhos armadores de bateiras enriquecem. Mas, depois, quem pesca? Não é bom pensar a curto prazo, porque os países e as gerações têm uma vida longa, e têm que pensar a longo prazo e acautelar o futura das crianças (e não com a treta do computador Magalhães). São precisas tretas mais desenvolvidas: uma frota pesqueira nova, tecnologicamente avançada, e pessoas adequadas a essa tarefa. E isso não pode ser feito pela marinha de guerra. Leiam o Almirante Mahan e aprendam o que é o “sea power”.

Geopolítica da Língua

A terceira orientação inclinar-se-ia para onde o país conta com o peso linguístico: o Brasil. Isso significa passar das palavras aos actos: negócios. O Brasil não nos vai dar nada e nós não devemos dar nada ao Brasil. Negócios devem interessar a ambos: ao Planalto e a Lisboa. Mas teremos gente que compreenda isto? Que os encontros não se vão resumir a cachaça e a conversa mole? E a tratar do que se anda a tratar há mais de cem anos – da festa, do linguarejar em português, mas de fazer negócios reais em tempo útil para ambos, sem saber das estratégias e das armas? É difícil perceber que os homens do poder entendam o que representam Brasília e São Paulo. Estão habituados a ir ao Rio de Janeiro e isso não é nada para o Planalto. Torna-se necessário perceber a questão. Porque é que a Universidade de Salamanca tem o melhor Centro de Estudos Hispano-Brasileiros? Porque é que, paulatinamente, o espanhol (castellano) se está a transformar na segunda língua no Brasil, depois de ter tomado os territórios do sul dos Estados Unidos? Ninguém pensa uma geopolítica da língua entregue a impreparados implantados nesses institutos fantasmáticos dedicados ao tema, como o Instituto Camões e quejandos, criações sem dinheiro, sem projecto, sem indicação e sem fundos. Pois bem: assim não há pais que aguente. Deixem passar a banda, mas esta não vem do Rio.
E os Palop dirão. É uma última atenção, porque o espaço está a ser ocupado por chineses e brasileiros. Enquanto o portuga se martiriza com a guerra, os outros fazem bons negócios, o que era um assunto esperado, dado o carácter da elite governante. Os recursos principais são explorados por companhias estrangeiras que eu vi nas diversas capitais das ex-colónias. O amorzinho é dos portugueses, que acorrem nas catástrofes como moscas verdes. Era bom rever isto. Quando é que vamos aprender com as experiências de Afonso de Albuquerque? Quem não tem poder não tem vícios. Quem tem vícios tem que arranjar dinheiro para os manter, não à custa de impostos sobre o seu povo, mas com despojos. Em Portugal, a classe política não percebeu a dicotomia. Não espanta: pertencem à parvónia donde vieram. E é pena terem a alma tão pequena. Mas a maior pena é esta gente não ter ficado lá, como amanuenses, na Câmara a mamar um pouco, na Secundária a ensinar o que não sabem, enfim terem ido à vidinha saloia que lhes convém.

Quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2010

QUINTA COLUNA: por Fra Diavolo

 
Nível zero

Que mais nos faltará ver? Que escândalo público, que malfeitoria política ainda estaremos para sofrer? A imaginação humana não tem limites, é certo, mas não deveremos estar muito longe do nível zero, abaixo do qual o próprio Estado perde todo o vestígio de dignidade. O mais recente "caso" envolvendo o primeiro-ministro José Sócrates levaria qualquer homem com o sentido das responsabilidades a enfiar-se pelo chão abaixo, de pura vergonha. Pela Imprensa, pela Internet e pela rua correm versões, não desmentidas, de um plano contra o Estado, protagonizado pelo chefe do Governo em pessoa, visando o controlo da Comunicação Social, o uso de recursos públicos para fins privados, o condicionamento político do Chefe do Estado e o que mais ainda nos falta saber. Perante a gravidade deste quadro, reconhecida e sublinhada por figuras públicas de todos os quadrantes, dois dos mais altos responsáveis da Justiça em Portugal entendem não haver razão para agir. Invocando minudências formais que mais ninguém consegue compreender, o Procurador-Geral da República, o presidente do Supremo Tribunal de Justiça e o próprio visado, José Sócrates, eximem-se às suas responsabilidades nacionais sob pretexto de toda a trama ter sido descoberta através de escutas telefónicas "irregulares" ou de "conversas de restaurante". Pergunta-se: são ou não verdadeiros os factos imputados ao primeiro-ministro? Se não fossem, deveriam já ter sido cabalmente desmentidos. Se são, devem todos os envolvidos daí tirar as inevitáveis ilações. No cenário até agora mais plausível, deviam Sócrates, Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento renunciar aos seus cargos. Um, pelo que fez ou tentou fazer; os outros, por não terem permitido a imprescindível investigação. A confiança dos portugueses em todos eles não podia, em qualquer dos casos, ter descido a um patamar mais baixo.

Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

O Diabo faz anos!

O combate de sempre

O DIABO completa esta semana 34 anos de existência. No seu primeiro editorial, a fundadora e directora, Vera Lagoa, punha o jornal ao serviço do povo, como tribuna de combate e de cultura, visando a reparação de injustiças e a denúncia daqueles “que alguma coisa de criminoso escondem, mesmo que sejam todo-poderosos (sobretudo esses)”.
Infelizmente para Portugal, mantêm-se hoje (e agravaram-se) as razões que então levaram Vera Lagoa a fundar O DIABO e a fazer dele uma pedrada certeira num charco de corrupção e abuso.
Situando corajosamente este semanário no campo da Portugalidade e do desassombro, depressa pagou o alto preço que entre nós se cobra à coragem: suspenso durante largos meses por ordem do Conselho da Revolução, só em 16 de Janeiro de 1977 O DIABO pôde retomar o seu contacto com os leitores. Por imperativo legal, o ano de publicação que figura no nosso cabeçalho está contado a partir do arranque da segunda série, e não a partir da verdadeira data de fundação: 10 de Fevereiro de 1976.
Vivia-se então a ressaca de um PREC tumultuoso em que a ditadura ideológica da Esquerda radical se sobrepusera a todo o bom-senso. Mas vivia-se também a esperança de que, partindo do caos, Portugal pudesse desenvolver-se e afirmar-se no Mundo – ainda que amputado de uma diversidade pluri-continental que fizera dele uma grande Nação do Ocidente.
Trinta e quatro anos depois, grande parte dessa esperança desvaneceu-se. A “normalização” do País trouxe-nos uma classe política cada vez mais desqualificada, mais mesquinha, mais corrupta. A economia afundou-se na incapacidade e no fracasso, o Estado tornou-se um glutão insaciável que não olha a meios para esmifrar o pobre cidadão comum do dinheiro que depois esbanja na sua própria luxúria. A vida pública é hoje uma algazarra de escândalos, com o exemplo a vir de cima. Cada vez mais de cima.
Tanto como há mais de três décadas, é hoje vital que vozes independentes como O DIABO se façam ouvir – e elas escasseiam já, no concerto cacofónico da “informação institucional” e do “espectáculo comunicacional”. Portugal mudou, em muitos aspectos para pior. Mas, precisamente por isso, o combate dos nossos dias mantém fidelidade aos princípios que um dia levaram Vera Lagoa a dizer “Basta!”. O combate de ontem é o combate de hoje. É o combate de sempre por Portugal.

FOGO AMIGO: por António Marques Bessa

Para Pensar uma Estratégia

É fácil aos não iniciados falar sobre geopolítica e estratégia portuguesas, mas todavia trata-se de temas recorrentes na literatura militar portuguesa, muito desenvolvidos nos inúmeros debates que se travam nas academias americanas e ainda nas academias portuguesas, onde se revelaram autores de grande importância para entender e discutir um projecto nacional viável, estrategicamente relevante.
Até a editora Sílabo, entre nós, resolveu criar uma antologia a que chamou “Os Grandes Estrategistas Portugueses”, onde esqueceu o saudoso general Silvino Silvério Marques, autor de uma “Estratégia Estrutural Portuguesa”.
A nossa própria escola, no seu mestrado em Estratégia (Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa), sempre se dedicou a este problema com muita atenção e desde há muitos anos arquiva estudos que são os mais antigos das Universidades Portuguesas, mesmo antes de estes temas terem chamado à colação de outros, sempre atentos aos mercados, mas não à procura do saber.
Uma revista serviu em parte este propósito: não se podem esquecer os volumes de “Estratégia”, que têm as contribuições de docentes e mestrandos e mestres, desde a época em que começou a ser publicada sob a direcção do professor Adriano Moreira, ajudado por um conjunto de oficiais que se treinavam nestas matérias, com relevo para almirantes do Instituto Superior Naval de Guerra, em má hora extinto, e de oficiais do Exército como o notável general Cabral Couto e o general Pedro Cardoso.

Uma urgência nacional

É compreensível que querer pensar Portugal como um Estado “situado” geograficamente nestes confins atlânticos, debruçado sobre o mar, não seja deste tempo, mas de outros que lhe foram anteriores, mesmo do Conde Dom Pedro de Coimbra, quando apresenta directamente toda a argumentação estratégica para não ir para o norte de África, aonde o queriam levar a aventurar-se no desconhecido, e que podia apenas ser nefasto para o Reino.
É hoje fácil perceber que ele tinha razão, mas tal confronto aberto de oportunidades raramente foi feito e ainda quem tinha o poder estava obnubilado por uma vã glória de alcançar um espaço de mando, um raum (espaço) que se entendia corresponder, em termos modernos de Ratzel, a um lebensraum do povo de então. Cereais do Norte de África, colocação de soldados, manutenção de cidades. Uma imbecilidade que só terminou com o Marquês de Pombal, que mandou sair de Mazagão. Não admira que Dom Pedro tivesse de morrer em Alfarrobeira e o cadáver condenado pelo menino-rei Afonso V (mais tarde “O Africano”) a ser consumido pelos corvos e outras aves, com o corpo abandonado no campo de batalha. E foi sempre assim que se esteve bem no Portugal das mentalidades conspirativas, e com o país em fragmentos.
Dom Afonso de Coimbra, da Ínclita Geração, viajado e experiente, homem das Sete Partidas, percebeu perfeitamente a problemática das costas africanas, isoladas pelos montes Atlas, e mesmo o problema que materializavam os povos do Atlas. E ainda mais: as condições de sobrevivência de uma tropa ocupante naquele desolado espaço ermado do deserto, sem abastecimentos, certamente sempre cercado.
Exceptuando alguns ilustres pensadores (em que incluo o falecido professor catedrático Políbio Valente de Almeida, o general Cabral Couto, o general Loureiro do Santos, o brigadeiro François Martins, homens raros como o falecido Vice-Almirante António Emílio Sacchetti, e mais algumas promessas de saber como o Doutor Manuel Mendes Dias), as incursões andam pelo domínio do comum, e planam sobre um assunto que vale a pena pensar com coragem, e sem vassalagem aos poderes constituídos, nunca como corvos à espera da recompensa das batalhas perdidas que somam cadáveres para eles desfrutarem.
Enquanto os Estados Unidos desenvolveram uma escola de Geopolítica e Estratégia, como os italianos, os russos, franceses e brasileiros, nós ficámos pela superfície, com observações distanciadas, sem ter a iniciativa de pensar Portugal neste meio global, ainda que se multipliquem as acções formativas e informativas, sempre dominadas pelo lema falso “Pensar Portugal”. Uma ideia roubada a ciclos de debate e a cadernos que se estendem desde 70, publicados e com data e com autores que figuram na lombada dos livros. Mas, aqui, o olho vê e a mão pilha. Do mesmo modo os ciclos sobre o mar, agora tão despertos, ignoram quem os começou. O problema é que há quem se lembre, sempre, apesar das mãos leves e dúbias, dos assuntos que tiveram e têm história e cultivadores natos e os interesses inconfessáveis de quem agora aparece como protagonista nos cenários preparados.
Um “quem é quem”, que trata destes assuntos como devia ter sido feito, com biografia exaustiva, de forma a apurar quem poderia efectivamente discutir estas matérias com propriedade, nunca apareceu. É sempre melhor ter comissões nomeadas e pagas. E isso é que é bom, salutar e patriótico e dá grandes resultados, como se vê, e belas comissões financeiras para “estudos” feitos e coisas já ditas e reditas. Mas na última versão, sempre pior.

O que se deve fazer

Para lá destas anormalidades políticas, na realidade, não só importa sumariar o que se sabe, como explorar as possibilidades que se oferecem na conjuntura em que vivemos, mas com um olhar para trás, para os tempos em que se pensava melhor. Normalmente, as entidades governantes são formadas em disciplinas que nade devem ao pensamento estratégico e geopolítico e, provavelmente, foi isso que ditou a sentença de morte para o país, desde a Grande Armada à I Guerra Mundial, um país vítima do pensamento cultivado na Teologia e no Direito da Universidade reformada de Coimbra, para onde Dom João III, o Piedoso, resolveu interiorizar o saber de experiência feito, que cantara com certa alegria o épico Luís Vaz de Camões e que no século XX imortalizou na tela Lima de Freitas, o pintor, o poeta, o místico do Portograal, no desenho barroco, faustoso, como se nota nas suas capas da colecção Argonauta.
Mas agora predomina um pensamento revanchista insalubre que tem Portugal como inimigo principal a abater, mais os portugueses que o querem ainda como mátria e pátria. Todavia, Portugal é mais que as partes, é uma realidade antiga e a Academia Portuguesa de História fez bem em prová-lo justamente agora, precisamente num tempo em que isso se tornou uma memória sem história. Com a direcção da Prof.ª Maria Manuela Mendonça, diversos autores sumamente qualificados fizeram para o povo comum as biografias e as visões dos nosso Reis, as suas ambições e sufocos, as suas sortes e amarguras, os seus projectos e desgraças. Grande colecção para o Povo, que anda aparvalhado, mas que lhe prova que nunca seria um país de bandidos que poderia dar novos mundos ao mundo. Mas sim de grandes Reis e grandes Aventureiros que se entregaram ao sopro agreste do Olimpo.


Pensar efectivamente Estratégia

Para qualquer governante ou governado reflexivo, a base demográfica de poder é indesmentível: o país tem dez milhões de habitantes, é pobre e é certo no envelhecimento a curto prazo. Mas acabam de aprovar leis contraditórias, em que o bebé necessário e indispensável vai para o crematório. Os poucos milhões de habitantes cabem em São Paulo e sobram casas, para não dizer que uma grande cidade do mundo absorveria toda a população portuguesa sem problema.
A demografia dos dez milhões agrava-se quando percebemos que os nascimentos são poucos, que os velhos são muitos, que o grosso não é a juventude, como um dia foi, mas os “cinzentos” entre os 40 e os 65 anos. É difícil que a juventude se afirme e trabalhe com a mesma esperança que um rapaz como D. Nuno Álvares Pereira, que tinha 18 anos quando travou as batalhas decisivas, e tenha algo a dizer. Ou que o candidato a Rei da Dinastia de Aviz, que só tinha um ano a mais, teria algo a fazer. Seria um tempo de milagres. E passou? Talvez. Hoje não há milagres.
A mania das grandezas e do protagonismo universal devia acabar nesta verificação: não há população para nada, só para ganhar o Guiness em coisas estúpidas. É tão pequena a nossa base demográfica que já não garante o pagamento das reformas aos mais idosos, nem a segurança social, nem as idiotices do governo composto por artistas de circo, que atrevem a dizer que a ética republicana consiste nisto: “desapego aos bens da terra”. Este programa estava nas bem-aventuranças e antes disso no poema em sânscrito do Bavadaghita. Não se pode comentar esta frase sem morrer a rir, dada a corrupção da elite republicana actual com manifesto apego aos bens desta terra, que acontece ser de todos os portugueses. A ética consiste nisto: roubo violento com unhas sujas (ver: “A Arte de Roubar”, da Estampa). É velha arte e é velha a análise. Não há é vergonha, nem nos que são roubados, e menos nos que roubam com unhas de veludo e se apresentam como exemplos sociais a imitar. É um povo a empalidecer, como se agora uma manada de vampiros, como dizia o Zé, se tivesse abatido sobre este resto de gente que já nem sabe que história tem.
Mas também há que entender que esta pequena população é discriminada pela classe política, que é excessivamente grande para 10 milhões de pessoas e que é costumadamente predadora. Aliás, as elites tendem a ser predadoras sobre a classe média, habituada à protecção do Estado e rebanho fácil para os tosquiadores e bebedores de sangue fresco. A manada somos nós. Aqui é que se aplica a canção dos “Vampiros” do Zeca Afonso com toda a propriedade. Mas também sobre o proletariado, mal ensinado, que descansa num poder ridículo de sindicalistas chulos, que têm uma longa carreira a fazer nada, a não ser protagonizar os Sindicatos vergonhosos que levantaram em 74, cujas fileiras diminuem a olho visto, o que por si só já reflecte um tributo à sua esclarecida liderança.

Os novos “devoristas”

Tenham sido ensinados em Argel, em Moscovo ou aqui, o resultado é o mesmo: a atitude predatória, larvar, sobre os bens disponíveis no sistema político (poder, riqueza e deferência, como escreveu Lasswell) de que se sentem proprietários. A importância do pequeno secretário de albergue ou do representante de quem trabalha em enlatados de sardinha é o que não se deve aceitar, a não ser com uma granada na mão.
A teoria do burro e das moscas, bem explicada por Ramalho Ortigão, é muito actual. Não pegou, mas é verdadeira. O burro não quer moscas novas porque as que lá estão encontram-se a abarrotar de sangue novo. Quem não teve uma tradição de combate não a adquire através de uma burocracia oficiosa e de representação como a salazarista. Assim, o proletariado não está treinado, e no seu analfabetismo funcional (não decifra a realidade em que está inserido e funciona facilmente através de slogans e máximas), não consegue criar para si mesmo dirigentes genuínos e tem que se contentar com os ascendidos de classe média que o chefiam há longo tempo e que já abandonaram o trabalho efectivo e duro. Envergaram a gravata e os colarinhos brancos e só comem nas cantinas nos dias de arenga à populaça, obtendo até em certos casos graus académicos que os podem prestigiar junto de quem não os conhecer.
A classe média, apesar das inúmeras provas em contrário, sem experiência de choque, é idiota. Ainda sonha com alguma protecção dos meios legais, enquanto lhe retiram o poder de compra, a roubam e a inviabilizam, não entendendo que só os banqueiros e outras entidades notáveis das instituições do regime beneficiam de tal aparato protector: polícia à porta, corpos especiais de defesa, se for caso disso. Há uns meninos que se apoderaram dos meios legais de repressão e a classe média não percebeu o assunto, porque habitualmente é estúpida. Confundiu-se com eles, ao votar neles. Continua a jogar sem selecção porque não percebe aquilo que conta neste tempo: a violência organizada, calculada, cirúrgica e instrumental. Os corpos da Mafia, da Eta, os Talibãs, os Palestinos, já perceberam isso há muito tempo, tal como o general Nguyenl Van Giap o percebeu face aos bombardeamentos americanos no Vietnam. Façam favor: bombardeiem mais.
Internamente abafados e atontados, os cordões da classe média viram-se para fora. E aí o panorama é desastroso. Os que lhe estendem a mão têm um apetite voraz. Vejam-se os cartões de banco “duo”, a EDP e a taxa de Radiodifusão incluída, o impagável 3º ano de Universidade com Licenciatura, os Mestrados pagos, os doutoramentos a 7.000€, os diversíssimos cartões de crédito, os Bancos de gatunos como o BPP, a que a Caixa deitou a mão, entre tantas coisas que é difícil tratar em artigo curto.
Mas ver-se-á que o país da Alice deve ser aquele que Pulido Valente já descreveu para outro século passado em “Os Devoristas”. Porém, neste tempo, os “devoristas” vêm com a barriga tão vazia e o burro está tão desprevenido, e também tão sugado, que nem sequer terá um sopro de vida para zurrar desesperadamente.

Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

Primeira Página, edição de 9 de Fevereiro

Última Página, edição de 9 de Fevereiro

Excertos da habitual crónica semanal de Alberto João Jardim, amanhã:

A Madeira e o Orçamento de Estado

“Não procuro conflitos políticos, mas sim a Coesão nacional justa. Abstenho-me de insistir, mais, no que lamentavelmente se passou. Nem a Assembleia da República e a comunicação social são locais para tratar obsessões”

“O folclore arruaceiro com que Sócrates/Teixeira dos Santos envolveram este folhetim das finanças regionais, tratou-se de uma manobra de diversão em relação ao OE. Espelha a situação a que principalmente aqueles dois personagens trouxeram Portugal e, daí, toca a distrair os incautos com a Madeira”

“A lei de finanças regionais pode indiciar ser possível o 'compromesso storico' em Portugal e, assim, existir alternativa maioritária de governabilidade a este 'socialismo' minoritário, situacionista, ultra-liberal e maquiavelicamente explorando a titularidade do Poder”

“Portugal vive na mentira e na perseguição institucionalizadas. Portugal vai mandando dinheiro para as ex-colónias e ostraciza Portugueses. Portugal, lentamente e com a demissão de muitos Portugueses, vai se tornando o 'chavismo' da Europa”

Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

FOGO AMIGO: por António Marques Bessa


As lições do Haiti


Os desastres naturais são fenómenos que acontecem e que ninguém pode evitar. Quem tem mais que se queixar dos efeitos dessas convulsões são os dinossauros.


Neste terramoto do Haiti, que devastou uma parte substancial da capital Port-au-Prince, num círculo de efeitos que chegava a Hinche, Gonaïves, Jacmel e Les Cayes, os haitianos são os principais culpados. Sabe-se há longos anos que a ilha de Hispaniola é muito propícia à actividade sísmica e a outros fenómenos naturais desagradáveis como tufões, inundações, desabamento de terras e assim por diante,

Um quadro deste género aconselharia a um planeamento territorial esparso com pequenas localidades. Nunca aglomerações de milhões de pessoas em leitos de rio, com casas frágeis, amontoadas à toa. Na verdade, se a catástrofe natural é inevitável, o seu efeito pode ser reduzido pela aplicação de dispositivos de protecção aos civis e às localidades.

Mas mais que o desregramento da construção na capital e outras aglomerações haitianas, encontra-se como mal geral a desflorestação. Pode-se distinguir a linha fronteiriça com a vizinha República Dominicana pelo espaço desarborizado. O afã de 9,6 milhões de pessoas em 27.750 Km² na produção de inhame, café, banana, cana-de-açúcar e manga, o esforço em alimentar uma indústria agro-alimentar e têxtil, levou à destruição do ambiente. A rica floresta desapareceu, as espécies nativas arderam, e em sua substituição surgiram as quintas não ecológicas e as explorações agrícolas. Fizeram fogo com a floresta nativa para plantar nas cinzas espécies de grande rendimento. O êxito agrícola paga-se com desabamentos que engolem famílias, com precipitações que não são absorvidas pela floresta nem entram na terra e escorrem pelas montanhas para provocar enchentes graves, os tufões são mais mortais porque nada detém o vento e por fim um terramoto brutal, que pela conglomeração de pessoas mata à vontade, ultrapassando todos os efeitos esperados se os haitianos tivessem conservado o bom senso.

E agora o que se vê é os vivos procurarem os mortos nas valas e nos destroços para os saquearem: um fio de ouro, uma pulseira, um dente de ouro ou prata, uma carteira com dinheiro. À medida que são desenterrados dos escombros, uma pequena multidão de abutres paira sobre a escavação e disputa o dente de ouro. Nada que não tenha visto na Bósnia na troca de prisioneiros mortos. Os oficiais da Nato puderam observar que os cadáveres entregues eram imediatamente observados com toda a atenção para lhes saquear a boca, onde os dentes do morto já abanavam.

A somar a este rol de erros deve-se perceber que o analfabetismo está perto dos 50%, que a Ordem pública é residual e a tradição política não tem consistência para lá de garantir a uns poucos a exploração de todos. Os ingredientes do Estado falhado estão todos presentes.


Que podemos aprender?


Em Portugal deviam extrair-se profundas lições. O nosso país praticou grande parte dos erros do Haiti. O planeamento urbano é de rir: casas construídas em talvegues de rios, prédios à beira de precipícios, edifícios empoleirados em terras que podem desabar. Cidades-dormitório a crescer e a criar bairros periféricos que são autênticos "morros". Hotéis em cima do mar, nas arribas, na areia, ao lado de rios poderosos. Quando vier uma catástrofe a sério, que vai suceder?

Hoje, por falta de limpeza dos esgotos, por entupimento culpável, por chuvadas inesperadas, já fica meio mundo de boca aberta. E a floresta, que é o grande investimento contra as catástrofes mais comuns? Essa arde todos os anos com entusiasmo delirante ou é abatida para grandes empreendimentos. Já certamente se percebeu que, exceptuando os poucos bombeiros e o exército, isso da Protecção Civil é uma farsa mal contada.

Se há que criar Gabinetes ousados, criem um para estudar os erros do Haiti, de modo que não os repitamos cegamente num convite a uma grande desgraça natural. Quem vive ao pé de vulcões sabe o que deve fazer nos momentos em que vê um penacho de fumo no cone da montanha. Os romanos viram e não ligaram às fumarolas do Vesúvio. A cidade inteira de Pompeia desapareceu, e com ela os seus habitantes, que se conservaram em lava nas posições em que estavam: a dormir, a beber, a passear. Mas nós já não somos romanos.

Há cidades que se afundaram no mar e os habitantes foram engolidos; e a arqueologia marítima lá vai levantando as paredes das cidades perdidas. Há outras que o fogo e o deserto comeram. Há ainda outras que a obra humana fez desaparecer: os árabes destruíram até aos alicerces a cidade de Cartago, os ingleses e americanos deixaram algumas paredes em Dresden num crime moderno, organizado, pensado.


Podemos talvez sumariar o que se deve fazer:


Não se aglomerar nas cidades conhecidamente perigosas, não desflorestar o que está florestado, florestar correctamente com espécies nativas, planear com preocupação o urbanismo, privilegiar a dispersão da população para evitar uma catástrofe total, tentar evitar por todos os meios a guerra atómica. E esta é tão perigosa no imaginário literário que Lloyd Bigler Jr., num livro intitulado "Um Cântico para Leibowitz", coloca uma congregação religiosa do futuro a rezar sincopadamente a seguinte ladainha: "Da guerra atómica/Livrai-nos Senhor; Da chuva nuclear/Livrai-nos Senhor".

Parece que, dos grandes males que se abatem sobre uma humanidade desvairada naquilo que faz, o grande medo ainda pode vir a ser a nova peste: a chuva radioactiva.

QUINTA COLUNA: por Fra Diavolo

Ética


A charanga saiu à rua para celebrar "o legado do republicanismo". As cerimónias oficiais de comemoração dos 100 anos da República foram inauguradas no último fim-de-semana, no Porto, com louvores aos "altos ideais" dos conspiradores que levaram a cabo o primeiro golpe contra a Monarquia Constitucional portuguesa, em 31 de Janeiro de 1891 – meia-dúzia de sargentos inflamados pelo vermelho dos "amanhãs que cantam" e pelas promoções que lhes tinham sido prometidas. Os políticos botaram discurso, enaltecendo sem excepção a alegada "pureza" dos "primeiros republicanos". É claro que só a vasta ignorância histórica de uns e a patente má-fé de outros permitem que se celebre o funesto regime da I República, marcado a ferro e fogo pela ausência de liberdades, pela coacção e pelo medo, pela penúria e pela instabilidade, pela ditadura e pelo terrorismo de Estado. Se tivesse lido um pouco mais sobre esse triste período, o Presidente da República teria sido mais comedido no elogio daquilo a que se vem chamando "a ética republicana". A que ética se referem eles? À "ética" da Carbonária e da Formiga Branca, que matavam a tiros de carabina e a golpes de navalha, em nome da tal "pureza"? Referir-se-ão ao radicalismo demencial de Afonso Costa, um dos homens mais ricos do Portugal do seu tempo? Às perseguições à Igreja e aos crentes? À violência urbana e à vingança mesquinha? À repressão dos sindicalistas e à miséria do povo trabalhador? É esta a "ética republicana" que pretendem passar o ano a "celebrar", à custa de um orçamento milionário que nos sai do pêlo e envergonha os pobres? Se assim é, não estranhem os mestres-cantores da III República que os identifiquem com aquilo que celebram. E o que celebram é feio.