Sobre os discursos dos políticos profissionais
Os discursos ou manifestam a vontade dos políticos ou são Lorenin para adormecer e entediar. Já vi muitos discursos entediantes, e muitos mais chatos e mesmo horríveis, do ponto de vista do ouvinte. A Psicologia Social já se fartou de ensinar o que um discurso deve conter para agradar, mas os políticos não devem conhecer o manual e, portanto, não estão à altura de produzir discursos naquela onda. Reúnem uma quantidade apreciável de assessores, mas nada indica que saibam algo da matéria, porque se compreendessem as coisas dos homens, a condição humana segundo Malraux, isso reflectir-se-ia em discursos diferentes proferidos pela mesma pessoa.
O discurso do Presidente da República revela que ele não dispõe de qualquer poder de facto. No fundo, é um observador menos operante que um Monarca Constitucional. Isso não o dispensa de receber um ordenado, como os outros Presidentes ainda vivos que desfrutam de notáveis mordomias em vida, como se fossem algo de importante para a vida da Republica, que infelizmente não são.
O discurso revela ainda a perene peregrinação do algarvio ao Muro das Lamentações. Se não podia fazer e sabia, porque andou a prometer ao eleitorado mundos e fundos? Pela simples razão de que queria ganhar o posto de trabalho e vestir o fato-macaco de Presidente. Não serei eu a criticá-lo por essa ambição de tecnólogo imprevidente, de homem que se fez a si mesmo a partir de uma bomba algarvia de gasolina, mas sou crítico pelo fundo cínico da sua perspectiva: o curto prazo, a sobrevivência, o Sistema, o legalismo impante. Só a esquerda da esquerda, ou seja, os loucos do Sistema, o criticaram, porque os outros só teceram louvores arrinconados nas profundas qualidades de isenção. E de que é que isso vale, se estamos a morrer?
O herói e a sua colocação
Quer-nos adormecer com as cantigas da cigarra ou com a aguardente ilegal de medronho? Ele não percebe que desempenha uma triste figura de Presidente Obó (Ubu) na sua mais baixa actuação política? Mas encontra-se bem classificado pelo barómetro de avaliação dos mass media? Pois, que se esperava dos portugueses analfabetos e incultos, e dos que são objecto de anedotas do quotidiano e votam apesar de tudo? Melhor? São masoquistas e gostam de sofrer. Eu não gosto, não estou para dar uma de Sado-Masoc.
É curioso notar que o Presidente não é Obama, não tem mais que 10 milhões de almas para negociar com o Inferno, nem controla nada, mas tem um vasto pessoal a fazer nada, como acontece no Banco de Portugal e em geral em todas as grandes firmas com presença do Estado, que como uma sombra vela para que os boys e girls do apetite dos poderosos políticos encartados, estejam nos lugares onde encham os bolsos.
Já se sabia há muito tempo que o Parlamentarismo em Portugal dava isto, e para cúmulo das coisas havia prova histórica. Por que razão havia de apoiar o Presidente-Rei Sidónio Pais, a consciência mais acordada de Portugal, Fernando Pessoa? Ele percebeu (antes dos imbecis professores da Faculdade de Direito de Lisboa, que tiveram dores de parto, antes dos demais, para parir esta porcaria de leis constitucionais, que são um aborto) que só um Presidente cheio de poder poderia governar e ser responsabilizado, como em França, que imitamos mal, como nos Estados Unidos, de quem copiamos mal, e uma infinidade de países com êxito que perceberam, com Cromwell, que esta coisa do parlamentarismo passado, passou, a não ser para os atrasado mentais. Mesmo Angola, depois de experiências curtas e de violência sistemática e erosão de populações, optou conscientemente pelo Presidencialismo; e aí pensa-se, como eu já vi, que o povo colonizador está atrasado e eles vão comprar isto a patacas, que são dólares agora.
E vem o Presidente, que não é presidente de coisa nenhuma, que é um observador do comportamento dos políticos, querer dar-nos lições e vender o seu peixe podre? Bom, é uma presunção. E essa observação etológica seria boa para escrever um manual didáctico e estabelecer o modo de relacionamento com essa cáfila de "malfeitores" que liquidou o poder militar ao ascender, porque deste modo seriam classificados em 1974 e levados para o forte de Caxias, onde muita boa gente, desse tempo, bateu com os costados Não por me dizerem. Eu vi, testemunhei. E sei quem lá esteve e hoje faz boa vida: uma passagem discreta por esses corredores e celas e interrogatórios do COPCON, pode fazer bem à vida.
O Tempo
Não foram heróis, mas não era esse o tempo para tal. E no Tempo do Pântano (como referiu, na sua teoria da revolução, o velho autor, professor esquecido, Crane Brington) é sempre necessário perceber que ciclo não pára em nós, aqui e agora. Veja-se a revolução de Cuba em outro tempo e neste tempo. Não se conhecem ainda os tempos que separam os tempos, mas sabemos, contudo, que ao Pântano ou sucede uma estabilidade periclitante em que se disputa o poder (o que está a acontecer) ou um outro tempo revolucionário por desespero, que é o tempo maduro para outra Revolução, nem melhor nem pior que as outras, mas baseada num material barato: fé e esperança. A Grécia está madura para isso, mas faltam-lhe os quadros e o Partido Comunista é incapaz de os fornecer para uma tarefa dessa monta, nem os Estados Unidos iriam deixar.
Deixem-nos sair da União Europeia, neguem-nos o baguinho para aguentar isto, e já verão: as capacidades dos quadros em Portugal não são os da Grécia e ninguém sabe, de facto, o que pode acontecer, aos botadores de discursos como os do Rei Ubu, num país que se endivida a um ritmo superior a um milhão de euros/hora. Deveria ser por aí que Ubu deveria começar. Pelas notícias más. Já perceberam o que significa vender bens ou participações do Estado para arrecadar uns magros milhões para pagar horas de existência? Mas porque é que não dizem isto exactamente? Têm medo. Não querem incomodar. São delicados? Claro: defendem o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Muito delicados. Delicadíssimos.
O grave problema é que, para lá destes episódios degradantes e grotescos, o problema inominável permanece. Tem que se dar resposta a uma pergunta que não admite rodeios: como pagar o que se deve? Hipotecam-se as almas ("Almas Mortas", Gogol), hipoteca-se o País e vende-se a um banqueiro ("Pátria", Guerra Junqueiro), vamos todos embora ("Jangada de Pedra", Saramago), combatemos contra fantasmas ("Nó Cego", Carlos Vaz Ferraz), mudamos o Regime (Gray, "Modern Strategy"), vamos todos para um Estado mafioso ("Corrupção", filme de Breiner), mudamos para outra dimensão (Rod Serling, "Twilight Zone"), esperamos por uma invasão alienígena (Windham, "The Day of the Tryfids"), batemo-nos em duelo uns com os outros ("Tombstone", de Cosmatos), vamos cooperar para defender o que nos resta ("Forte Apache", de John Ford) e assim por diante.
Vivemos, como diria Jorge Luis Borges, no Jardim em que os caminhos se dividem. Todos os cobardes querem evitar essa opção. Jünger tomou-a. A Floresta, pois então. Não quis estar nas estatísticas. Não quis ser palhaço. A farsa chegou longe demais, não sua concepção. E morreu muito bem enquanto tambores tocavam para apresentação dos palhaços habituais, comuns e duma variedade de parasitas que infesta a Europa. Talvez os árabes acabem com eles, no seu limite de tolerância, como em Cartago.