Quarta-feira, 31 de Março de 2010

QUINTA COLUNA: por Fra Diavolo

Bilderberg


Não passou despercebida, na quinta-feira passada, à beira das eleições internas no PSD, a notícia de que Francisco Pinto Balsemão tinha convidado Paulo Rangel para participar na reunião deste ano do famoso Clube de Bilderberg. Rangel acabou por perder para Passos Coelhos, mas a mensagem estava dada: “os poderosos do mundo” viam nele o “homem do futuro”. Viu-se. Em torno de Bilderberg criou-se em Portugal uma mitologia provinciana e deslumbrada, segundo a qual “quem vai ao Clube está na calha para o Poder”. Esta fama deve-se, sem dúvida, ao facto de Durão Barroso, Santana Lopes e José Sócrates (numa longa lista de notáveis da política portuguesa) terem recebido idênticos convites antes de acederem à chefia do Governo. Ora, por mais que a ilusão do “super-poder” do Clube de Bilderberg se encaixe, como uma luva, numa das alíneas contemporâneas da teoria da conspiração, convém que não nos deixemos embaciar excessivamente. O Clube não é secreto: as suas reuniões, a sua agenda e o seu rol de participantes são divulgados com abundância na Comunicação Social – e relatos pormenorizados do que lá se passa são anualmente publicados por jornalistas de relevo internacional convidados para assistir. O Clube nada decide, politicamente: por mais que alguns dos seus participantes gostassem, não é o “governo-sombra do mundo” nem de lá sai qualquer “plano oculto de dominação”. Desconfiemos sempre do “secretismo” e do “ocultismo” de quem se auto-apregoa na praça pública: se fosse realmente “secreto”, nem sonharíamos com a sua existência. O que é, então, o Clube de Bilderberg? É, isso sim, um poderoso “lobby” onde banqueiros e financeiros vão comunicar o que lhes convinha para o próximo ano, envolvendo à mistura uma dúzia de políticos e barões da Imprensa, para que ouçam o que é preciso ouvirem. Depois, em cada país, Balsemões e Espíritos Santos tratam de ampliar a sua própria “importância internacional”, fazendo divulgar a ideia de que são eles quem decide políticas e escolhe políticos. Cair nesta patranha é fazer o que eles esperam que façamos. E assim nos esquecemos de perguntar onde é que, realmente, tudo se decide…

FOGO AMIGO: por António Marques Bessa

O mito do Primeiro de Maio

É um mito perigoso, porque em vez de reforçar a unidade da comunidade, força a separação, cria o conflito, infunde expectativas nocivas e utópicas e toma todas as tonalidades do vermelho comunista, do vermelho trotskista, do vermelho socialista.

Os mitos políticos e o seu papel tiveram como grande teorizador George Sorel (1847-1922), que num livro que influenciaria muitos pensadores, chamado “Refléxions sur la violence” e publicado em França, define o mito da greve geral proletária. O mito da greve geral dava, segundo Sorel, autonomia à classe operária e, portanto, o mito não era absolutamente intelectual. De Barrès a Maurras, os franceses fizeram incursões nesta matéria, mas quem a devassou mais foi Alfred Rosenberg (1893-1946), que escreveu o polémico “Der Mythus des 20 Yharunderts” (1930), isto é, “O Mito do Século XX”. Aí defende que o mito é o sangue que desencadeia a revolução e a afirmação da raça. Atrás dele marcharam H.S. Chamberlain, P. de Lagarde, R. Wagner e Walter Darré, que escreveu “A Nova Nobreza do Sangue e do Solo”.
Reflectindo sobre este modelo, Ernest Cassirer (1874-1945), em “The Myth of the State”, volta novamente à autonomia do mito, analisando a ambivalência política do mesmo. De então para cá, os americanos de linha sociológica pretendem criar mitos ou orientar mitos, como pequenos feiticeiros de província. E não é de outra coisa que tratam pensadores como Carl Friedrich e Brzezinski em “Totalitarian dictatorship and autocracy”.
Mas o mito, como compreendeu Pessoa, é “o nada que é tudo” e não se deixa prender nas malhas congeladas do tempo de análise. Em Portugal tem interesse analisar o segundo mito de importância para o colectivo e que vem ao encontro do que Sorel magicamente descobriu: o Primeiro de Maio, também chamado May Day.
Trata-se de um mito fundacional para a Internacional Socialista. Ganha profundidade com o acompanhamento político das organizações sindicais e é o mito da divisão entre pobres e ricos, o mito que explica que há incompatibilidade de interesses entre empregadores e operários. O mito inicia os seus primeiros passos na cidade de Chicago em 1886. Os operários fabris, por razões de trabalho, foram conduzidos pelos seus líderes a uma greve geral contra o patronato. A Polícia da Cidade interveio e, depois de alguns confrontos, os polícias dispararam e mataram alguns operários, tendo morrido alguns polícias. Este acontecimento americano reflectiu-se no agitado meio europeu. Em 1889, no primeiro Congresso da Segunda Internacional, em Paris, a organização aprovou a proposta de René Lavigne que apelava a que em 1890, para lembrar os mártires de Chicago, se fizessem manifestações operárias em todo o lugar onde os sindicatos tivessem força. O sucesso deste evento em 1990 levou a que a Internacional Socialista, reunida em 1891, no seu segundo Congresso, reconhecesse formalmente este novo evento, inserindo-o no calendário. Logo no Congresso de Amesterdão, em 1904, a Internacional Socialista apelou para todos os sindicatos no sentido de fazer no 1º de Maio uma greve geral para obter a meta das 8 horas de trabalho por dia.
O mito do May Day começou, assim, modestamente, furando pelos sindicatos (e metendo-se na mente do povo trabalhador), que se apropriaram dele como uma arma. Era disso que falava Georges Sorel.


O mito instalou-se na União Soviética e as comemorações na Praça Vermelha e nas Praças Vermelhas doutros países começavam por uma parada militar para depois exibir as armas letais e finais do proletariado liberto e desejoso de paz. O mito adaptou-se e serviu o sovietismo, o comunismo, o maoismo, o castrismo e todos os regimes ditos populares. Mas o mito não fica por aqui. É o dia do trabalhador, do proletário, da sua libertação e promoção a ser humano visível e poderoso.
Em Portugal teve posição proeminente depois da revolução de 1974 e em diversos sectores políticos fundamenta a posição desconfiada dos operários, motivando-os para uma prova de força com os empresários. O mito instala a divisão ente classes sociais, senão mesmo numa ameaça directa ao governo da burguesia e a quem lhe dá apoio. Nasceu em Chicago sob o signo do confronto e prossegue a sua marcha espalhando reivindicações como pretendia quem o alentou e trouxe ao colo. É um mito perigoso, porque em vez de reforçar a unidade da comunidade, força a separação, cria o conflito, infunde expectativas nocivas e utópicas e toma todas as tonalidades do vermelho comunista, do vermelho trotskista, do vermelho socialista. Como competia ao seu desenvolvimento normal, assumiu para si a identidade das ideologias do fim da história e da luta de classes como motor de progresso social.
Aqui também a Igreja tentou a substituição. Superar a memória do dia com a dedicação dele a São José Operário, judeu diligente da linhagem de David e imagem de virtudes totais para todo o Universo conhecido. Os pontífices trataram de insistir neste tese e comemorar com Missas e outras manifestações eclesiais o momento, tendo presente que havia operários católicos em abundância, tentando que o mundo do trabalho enveredasse pelas estradas da vida eterna, fugindo às bandeiras vermelhas que acenavam nos cantos das veredas da vida. Tudo hoje nos indica que foi trabalho em vão, porque o mundo recebeu com frieza a dádiva de José, tido como um simplório carpinteiro, e parece que não compreende a vida que levou este ilustre varão, celebrado com propriedade na Boa Nova. Mas muitos dos responsáveis pelos cristãos e pela sua chefia alegraram-se secretamente com esta recusa e juntam as suas vozes à maré de revolta de massas inconformadas e desenraizadas, que clamam por melhor vida sem querer trabalhar. Eles, cristão, sabem perfeitamente a quem adoram ao seguir as bandeiras vindicativas, mas estes são os frutos amargos de uma experiência em que o mito vence os que, por itinerário íntimo, teriam a obrigação de saber o valor dos mitos.
Vai ver-se com o tempo a resistência deste mito soreliano do proletariado à rotina, à formalização e à aclamação generalizada.
Há um mau sinal para o mito em questão: o dia, em lugar de ser celebrado com uma greve geral, tornou-se, por decisão política, um feriado nacional. Os mártires do Haymarket de Chicago agradecem.

Terça-feira, 30 de Março de 2010

OUTROS DESTAQUES DA EDIÇÃO

Já começou a campanha para derrubar Sócrates no PS:
Tozé Seguro (motivado pela eleição de Passos Coelho), Manuel Alegre, João Cravinho e Alfredo Barroso puseram em marcha a campanha contra o líder socialista.

Os 12 trabalhos do novo líder:
A maioria dos militantes escolheu Pedro Passos Coelho para novo líder do PSD. O Diabo prevê os dois anos do mandato do futuro líder e seus principais desafios.

Já devemos 30 mil euros a Inês de Medeiros...
A deputada socialista candidatou-se com a morada de Lisboa mas inscreveu-se na Assembleia com a morada de Paris. A lei deixa, mas o Parlamento, envergonhado, ainda nada pagou.

Gregos estamos nós!
Devemos mais do que produzimos e a Europa avisou-nos na última semana que vamos crescer abaixo de todos os países do Euro – até da Grécia. Saiba o que lhe vai custar, a si, a política socialista do PEC e como as privatizações de José Sócrates estão à beira de aumentar o desemprego. Um retrato da economia a olhar para a vida diária de cada português

ENSAIO - James D. Tabor
Seria a Última Ceia de Jesus um Seder da Páscoa judaica?
Os Sinópticos (Marco, Mateus e Lucas) e João relatam os factos de maneira diferente:
a refeição teve lugar na noite de Páscoa judaica ou na anterior?

Touros:
As corridas de gala à antiga portuguesa recriam as corridas reais do fim do século XVIII. A indumentária é de rigor e na arena desfilam coches puxados por cavalos, luxuosamente aparelhados.

Sexta-feira, 26 de Março de 2010

ALGUNS DESTAQUES DA EDIÇÃO

Forças Armadas sem dinheiro para defender o País:
Governo socialista manda parar renovação das G3, corta 750 milhões na defesa da soberania, abre estaleiros e empresas militares ao capital privado e nem sequer fica com dinheiro para as pensões.

FREEPORT: Luvas seriam de 5 milhões:
A investigação portuguesa está à procura de três contas em off-shore preparadas para pagar subornos. Valor em causa vai dos dois aos cinco milhões.

Mais de 50 mulheres abortam todos os dias:
O número de abortos praticados em Portugal continua a aumentar. Cerca de meia centena de mulheres pratica-o todos os dias em estabelecimentos do Estado. As clínicas privadas não revelam números. O contribuinte tem de pagar cinco milhões de euros por ano para que se respeite a lei que, em 2007, autorizou o aborto.

Eleições internas aconchegam cofres do PSD:
Numa semana foram pagas perto de 30 mil quotas – perto de 360 mil euros a mais nos cofres do partido, a dias de eleger novo líder e a braços com uma rolha indigesta.

Bento XVI trava descrédito católico:
O Santo Padre pediu desculpa pelos actos pecaminosos de alguns prelados e deu ordens a toda a Igreja para que debele tentações pedófilas e entregue à justiça dos homens o que a esta pertence.

Largadas de toiros, uma tradição que se mantém:
As largadas de toiros em Portugal são já um cartaz turístico do Alentejo e Ribatejo. Apesar de nunca terem atingido o “escalafon” das de Pamplona, imortalizadas por Ernest Hemingway, as realizadas no nosso País conquistam, cada ano que passa, mais Adeptos e contribuem para colocar algumas vilas e aldeias no “mapa”.

Terça-feira, 23 de Março de 2010

Um homem do Norte!



O protagonista do vídeo é Rui Pedro Soares, administrador executivo da "holding" Portugal Telecom desde 2006.
Tem 36 anos e é do Porto. Era um dos gestores nomeados pela "golden share" do Estado na PT quando renunciou ao cargo na sequência do "caso" das escutas, no âmbito do processo "Face Oculta", publicado pelo jornal O Sol.
Segundo o relatório e contas de 2009 da Portugal Telecom, Rui Pedro Soares, um ex-militante muito activo da Juventude Socialista, recebeu de salários, entre 2006 e 2008, 586.863 euros. Em 2009 esse valor foi de 1,533 milhões de euros.
Os contactos com os clubes de futebol patrocinados pela PT eram da sua responsabilidade.
Muito provavelmente, ou talvez não, a parte mais hilariante ocorre quase no final, quando o deputado do PSD Luís Marques Guedes, presidente da Comissão de Ética, Sociedade e Cultura, trata Rui Pedro Soares por "sr. Presidente".
Será premonição?

QUINTA COLUNA: por Fra Diavolo



Macacos

O deputado socialista José Lelo acha que a Assembleia da República “não é a aldeia dos macacos”. E tem razão. A aldeia dos macacos a que se referiu para compor a sua curiosa analogia, a verdadeira Aldeia dos Macacos do Jardim Zoológico de Lisboa, não tem comparação com o Parlamento da República. Lelo usou a expressão em pleno hemiciclo, apontando o dedo a um fotógrafo do ‘Correio da Manhã’ que em si fixara a objectiva. E explicou o motivo da indignação: é que “os repórteres andam aqui debruçados a tirar fotografias aos nossos computadores, aos decotes das deputadas…”. Confesse, José Lelo: o que, verdadeiramente, o incomodava (porventura mais do que a propagação fotográfica dos decotes) era a possibilidade de as câmaras dos jornalistas registarem para a posteridade os ‘sites’ que os senhores deputados visitam enquanto fazem horas nos cadeirões de couro de São Bento. Mas que mal isso teria? Toda a gente sabe que os ilustres representantes dos partidos só têm de apresentar-se a mostrar serviço quando se trata de votar o que já está decidido – e que, entretanto, enfastiados, são obrigados a entreter-se com o nobre exercício de actualizar conhecimentos através da Internet. Dada esta evidência, a súbita indignação de Lelo não conquistou adeptos, e o deputado do PS teve mesmo de ouvir o presidente da Assembleia lembrar-lhe que os computadores usados no hemiciclo não são pessoais, mas sim de serviço público. Seja como for, manda a verdade que se concorde com o remate do seu protesto: o Parlamento, de facto, “não é a aldeia dos macacos”. Qualquer um pode confirmá-lo no ‘site’ do Zoo: os símios que ali vivem não recebem qualquer pagamento para além da frugal alimentação, não têm direito a reforma, a gabinete, a viatura, a assessores ou a despesas de representação. E, em troca de um simples bilhete de ingresso, ainda divertem genuinamente quem os visita.

FOGO AMIGO: por António Marques Bessa

Os inimigos do Sistema

O mito do 25 de Abril sustenta a classe política e obriga-a a lançar uma maldição sobre tudo o que se passou antes.

Está mais que provado que os homens não podem viver sem mitos. E as sociedades são incapazes de avançar sem aquele acervo de mitos fundamentais que lhes dão segurança e transformam o seu passado em glória presente. A legitimidade da existência pessoal e a certeza da vivência colectiva ganham um tom forte e esperançoso nos factos tidos por gloriosos que abriram novos caminhos e apontaram a novas metas.
Todos os grandes Impérios tiveram esses fundamentos irracionais que enchiam o seu povo de orgulho e desprezo pelos vizinhos, a quem olhavam como desprezíveis bárbaros. Os bizantinos, muito cultivados, do Império Romano do Oriente, andaram sempre convencidos de que os bárbaros do Ocidente não tinham progredido desde o fim do Império Romano. Quando Veneza conquistou parte do Império Oriental, já era tarde para meditar sobre esta questão dos bárbaros e não-bárbaros.
Os castelhanos dos anos Seiscentos andavam convencidos que a agricultura, o espírito cruzadista, a guerra e a conquista eram suficientes para alimentar o Império onde o Sol nunca se punha. Os holandeses provaram que era preciso saber de negócios, da banca, ter espírito inventivo e pelo menos ser especialista em construção naval. Os japoneses pensavam que o seu esplendoroso isolamento, cultivando a arte da espada e vivendo um período medieval tardio, era bom para o Estado. Os americanos provaram o contrário, invadindo o Japão; e com navios e canhões modernos abriram as ilhas ao comércio, liquidando os mitos dos samurai. Na verdade, os mitos fundacionais que ajudaram as sociedades a sobreviver na História do Mundo, acabam por se tornar barreiras à modernização e ao avanço tecnológico, promovendo a estagnação intelectual. Estas estruturas do imaginário colectivo, sustentadas pela História narrada, podem vir a ser um empecilho para a mudança necessária e mostrar-se contrárias ao avanço do saber.
Confrontados com a novidade e o desenvolvimento, os países fecham-se sobre os seus mitos mais acarinhados, as actividades que lhes deram glória e hegemonia há quinhentos anos, alheios ao que se passa no Mundo que se adianta com outros mitos. Às vezes cedem a mitos que deram glória a outros ou a mitos importados que se tomam por grandes novidades sem se perceber se são adequados ou não.
Os mitos têm quase o mesmo efeito sobre as pessoas, mesmo quando acautelados para a sua terrível acção sobre a mente, que é uma acção de captura do domínio pensante. Por isso é que Vilfredo Pareto referiu estes elementos irracionais como “entidades não-lógicas”, que encantam e conquistam enquanto justificações da acção com intenção. Note-se que Pareto nunca disse que eram irracionais, porque pensava que se inseriam num sistema de justificação da acção. E, por isso, os mitos mais aceites governam a cabeça do eleitorado e governam também a cabeça dos políticos da classe dirigente e não dirigente.

O mito imediato: o 25 de Abril

Este é o mito que sustenta a classe política e a obriga a lançar um anátema, uma maldição sobre tudo o que se passou antes desse período em que se entrou num caminho pavimentado a ouro para a utopia marxista.
A Grandiosidade da Epopeia, cultivada como mito, gerou logicamente um sub-mito adaptado às circunstâncias. O mito quinhentista revigora-se, de certo modo básico, na derivação do 25 de Abril, ele também de ruptura com o velho, abrindo as portas de um país aprisionado pela sua circunstância. O tema é velho e consta da mitogénese circular. Nada foi mais glorioso até ao julgamento final. Este país apontado, pelos próprios, como exemplo à Europa. E nada é tão consequente como os agentes do mito imporem aos outros descrentes a fé em tal coisa, enriquecendo a gesta com anos que passam e dotando a história desse momento com novas e inesperadas consequências positivas para a Europa e arredores. As comemorações só servem para enaltecer esse momento irrepetível na história do país: desfiles, paradas, atribuição de medalhas, concursos de dança entre o povo miúdo, foguetes e por fim a televisão para difundir a imagem.

O mito do 25 de Abril é muito publicitário e assenta mais na conivência do que na convicção dos próprios agentes, mais na cumplicidade do que na camaradagem das tropas, mais na destruição de riqueza do que na construção, mais no direito à preguiça do que no dever de trabalhar.
É um mito que todos os anos, porque é novo, se pretende revigorar, com festas e comemorações mortas à nascença, como mito final, grandioso e circular, que se deve ligar agora à abertura de um novo campo de afirmação (a Europa) e a novos horizontes abertos pelos que salvaram o país do opróbrio antigo, tirando-o das masmorras do olvido.
O País que se pretende avassalar com este mito está dotado de outros mitos antigos que não toleram esta intrusão no seu campo de afirmação. O mito base é o do “Destino Manifesto” e responde ao problema que procura as razões pelas quais Portugal existe, soberano, independente, com tão pouca gente, nesta faixa atlântica do planalto castelhano. Nesse Destino Manifesto, enquanto mito, cabem os personagens importantes que estão na História definitiva das Raízes e que viraram o Estado para situações progressivamente melhores, ganhando mais poder de negociação e maior riqueza: Afonso I e o Milagre de Ourique e a sua acção conformadora do território, o Santo Condestável e Aljubarrota ou a defesa da independência, o Príncipe Dom Henrique e a campanha das Descobertas, a poesia de Camões, Dom Manuel e o Império no auge, o retorno de Dom Sebastião e o Novo Império, Dom João IV e a Restauração, as Guerras Peninsulares e seus heróis esquecidos, o Marquês do Pombal e a sua visão, a reorganização do Estado Novo e a Guerra, que é um manancial de romances depois de se carpirem as lágrimas e de se deglutir o abandono velhaco. Tudo numa linha consecutiva de construtores do Destino Manifesto de Portugal, que espalhou a sua língua, cultura e arte por toda a parte, quando havia engenho e arte.
O mito de 25 de Abril copia, como não podia deixar de ser, todos os anti-mitos. De facto, tal como a Igreja Católica capturou os mitos pagãos, assim hoje se pretende revalorizar o anti-mito moderno. A 25 de Abril, curiosamente, em Roma, fazia-se anualmente uma procissão pagã e fora dos muros da urbe imolava-se um cordeiro a Robigus, deus do gelo. A Igreja Católica assentou em cima desta cerimónia antiga e profana a Solenidade das Ladainhas Maiores.
Torna-se extremamente curioso verificar que, depois do facto brutal da revolução que se sucedeu ao golpe de Estado militar de 25, surgiu também esse momento das ladainhas menores, em que se aplica àquele evento político todo o disparate parabólico que as mentes menos fecundas e coniventes são capazes de declamar por inteiro. Assim, o 25 de Abril recebe no dia da praxe uma fiada de louvores, exaltações e honras, que se parecem notavelmente com antigas rogações e que além disso apresentam a mesma estrutura de praxis.
O mito tem feito uma caminhada para se inscrever nos periclitantes mitos fundacionais da República de 1910, que pode muito bem colocar uns quadros alusivos a esse momento, num corredor da Assembleia, mesmo com os figurantes transfigurados, alcançando então o mito o acolhimento público, mas atingindo ao mesmo tempo aquela representação subtil e diáfana que o tornará totalmente inatacável. É o mito institucionalizado do Sistema que instaurou. A razão da sua existência, mas não de Portugal. Por isso é que é uma síndroma de insuficiência, suficientemente próxima para ser analisada e gerar outro contra-mito. E a verdade é que esta dinâmica, associada aos fundamentos da ideologia, da visão do mundo e da política, nunca pára. A realidade é a mudança para se ficar na mesma.
As comemorações passadas, associadas às declarações de todos os quadrantes políticos nessas alturas, mostra a aceitação generalizada dos políticos deste mito e a sua oficialização, tóteme altaneiro das cabeças vazias e mirradas que vivem à sua sombra. A oficialização, como se sabe, pela análise da mitogénese de Gilbert Durand, é a morte do mito enquanto agente de mudança e que, pela repetição, só suscita rejeição.
O seu caminho na sociedade está ainda em avaliação quanto à sua capacidade de mobilizar pessoas, e é isso que conta nos mitos. A mobilização de vontades.

Terça-feira, 16 de Março de 2010

QUINTA COLUNA: por Fra Diavolo

O grande vencedor

Quem foi (para usar a linguagem futebolística tão cara à Política) "o grande vencedor" do Congresso do PSD? Não foi Manuela Ferreira Leite, que saiu a repisar as suas boas causas sem consequência. Não foi Passos Coelho, cujas fragilidades ficaram à vista dos congressistas e do país. Não foi Aguiar Branco, que se deixou enredar na lógica dualista tão do agrado das multidões. Não foi Paulo Rangel, cuja tendência para confiar em operações de bastidores ficou confirmada. Não foi Castanheira de Barros, que provou viver noutro planeta ao declarar que "a crise é uma invenção de políticos medíocres". Não foi Marcelo Rebelo de Sousa, que mais uma vez frustrou as expectativas do "povão laranja" e de novo falhou o seu encontro com a História. Não foi Pedro Santana Lopes, que se embrulhou em vinganças pessoais sobre "más moedas" e teve a triste ideia de impor ao partido uma desnecessária (e, de resto, ineficaz) "lei da rolha". Não foi Rui Machete, o deslocado presidente da Mesa do Congresso que começou por querer despachá-lo num único dia de discursos "à la minute". Não foi a unidade do PSD, que aos olhos dos portugueses continua tão escavacada como até sexta-feira. Não foi o debate de ideias, que não houve. Não foi o relançamento de uma esperança, que falhou. O grande e único vencedor do Congresso do PSD foi o Presidente (de cargo) Engenheiro (de formação) Ministro (de nome) dos Santos, o autarca de Mafra que atraiu ao pavilhão gimnodesportivo que ostenta o seu glorioso nome as centenas de congressistas do último fim-de-semana, encheu os restaurantes do concelho e lotou os hotéis da Ericeira. Só ele, realmente, ganhou alguma coisa com o negócio.

FOGO AMIGO: por António Marques Bessa


Sobre os discursos dos políticos profissionais

Os discursos ou manifestam a vontade dos políticos ou são Lorenin para adormecer e entediar. Já vi muitos discursos entediantes, e muitos mais chatos e mesmo horríveis, do ponto de vista do ouvinte. A Psicologia Social já se fartou de ensinar o que um discurso deve conter para agradar, mas os políticos não devem conhecer o manual e, portanto, não estão à altura de produzir discursos naquela onda. Reúnem uma quantidade apreciável de assessores, mas nada indica que saibam algo da matéria, porque se compreendessem as coisas dos homens, a condição humana segundo Malraux, isso reflectir-se-ia em discursos diferentes proferidos pela mesma pessoa.
O discurso do Presidente da República revela que ele não dispõe de qualquer poder de facto. No fundo, é um observador menos operante que um Monarca Constitucional. Isso não o dispensa de receber um ordenado, como os outros Presidentes ainda vivos que desfrutam de notáveis mordomias em vida, como se fossem algo de importante para a vida da Republica, que infelizmente não são.
O discurso revela ainda a perene peregrinação do algarvio ao Muro das Lamentações. Se não podia fazer e sabia, porque andou a prometer ao eleitorado mundos e fundos? Pela simples razão de que queria ganhar o posto de trabalho e vestir o fato-macaco de Presidente. Não serei eu a criticá-lo por essa ambição de tecnólogo imprevidente, de homem que se fez a si mesmo a partir de uma bomba algarvia de gasolina, mas sou crítico pelo fundo cínico da sua perspectiva: o curto prazo, a sobrevivência, o Sistema, o legalismo impante. Só a esquerda da esquerda, ou seja, os loucos do Sistema, o criticaram, porque os outros só teceram louvores arrinconados nas profundas qualidades de isenção. E de que é que isso vale, se estamos a morrer?

O herói e a sua colocação

Quer-nos adormecer com as cantigas da cigarra ou com a aguardente ilegal de medronho? Ele não percebe que desempenha uma triste figura de Presidente Obó (Ubu) na sua mais baixa actuação política? Mas encontra-se bem classificado pelo barómetro de avaliação dos mass media? Pois, que se esperava dos portugueses analfabetos e incultos, e dos que são objecto de anedotas do quotidiano e votam apesar de tudo? Melhor? São masoquistas e gostam de sofrer. Eu não gosto, não estou para dar uma de Sado-Masoc.
É curioso notar que o Presidente não é Obama, não tem mais que 10 milhões de almas para negociar com o Inferno, nem controla nada, mas tem um vasto pessoal a fazer nada, como acontece no Banco de Portugal e em geral em todas as grandes firmas com presença do Estado, que como uma sombra vela para que os boys e girls do apetite dos poderosos políticos encartados, estejam nos lugares onde encham os bolsos.
Já se sabia há muito tempo que o Parlamentarismo em Portugal dava isto, e para cúmulo das coisas havia prova histórica. Por que razão havia de apoiar o Presidente-Rei Sidónio Pais, a consciência mais acordada de Portugal, Fernando Pessoa? Ele percebeu (antes dos imbecis professores da Faculdade de Direito de Lisboa, que tiveram dores de parto, antes dos demais, para parir esta porcaria de leis constitucionais, que são um aborto) que só um Presidente cheio de poder poderia governar e ser responsabilizado, como em França, que imitamos mal, como nos Estados Unidos, de quem copiamos mal, e uma infinidade de países com êxito que perceberam, com Cromwell, que esta coisa do parlamentarismo passado, passou, a não ser para os atrasado mentais. Mesmo Angola, depois de experiências curtas e de violência sistemática e erosão de populações, optou conscientemente pelo Presidencialismo; e aí pensa-se, como eu já vi, que o povo colonizador está atrasado e eles vão comprar isto a patacas, que são dólares agora.
E vem o Presidente, que não é presidente de coisa nenhuma, que é um observador do comportamento dos políticos, querer dar-nos lições e vender o seu peixe podre? Bom, é uma presunção. E essa observação etológica seria boa para escrever um manual didáctico e estabelecer o modo de relacionamento com essa cáfila de "malfeitores" que liquidou o poder militar ao ascender, porque deste modo seriam classificados em 1974 e levados para o forte de Caxias, onde muita boa gente, desse tempo, bateu com os costados Não por me dizerem. Eu vi, testemunhei. E sei quem lá esteve e hoje faz boa vida: uma passagem discreta por esses corredores e celas e interrogatórios do COPCON, pode fazer bem à vida.

O Tempo

Não foram heróis, mas não era esse o tempo para tal. E no Tempo do Pântano (como referiu, na sua teoria da revolução, o velho autor, professor esquecido, Crane Brington) é sempre necessário perceber que ciclo não pára em nós, aqui e agora. Veja-se a revolução de Cuba em outro tempo e neste tempo. Não se conhecem ainda os tempos que separam os tempos, mas sabemos, contudo, que ao Pântano ou sucede uma estabilidade periclitante em que se disputa o poder (o que está a acontecer) ou um outro tempo revolucionário por desespero, que é o tempo maduro para outra Revolução, nem melhor nem pior que as outras, mas baseada num material barato: fé e esperança. A Grécia está madura para isso, mas faltam-lhe os quadros e o Partido Comunista é incapaz de os fornecer para uma tarefa dessa monta, nem os Estados Unidos iriam deixar.
Deixem-nos sair da União Europeia, neguem-nos o baguinho para aguentar isto, e já verão: as capacidades dos quadros em Portugal não são os da Grécia e ninguém sabe, de facto, o que pode acontecer, aos botadores de discursos como os do Rei Ubu, num país que se endivida a um ritmo superior a um milhão de euros/hora. Deveria ser por aí que Ubu deveria começar. Pelas notícias más. Já perceberam o que significa vender bens ou participações do Estado para arrecadar uns magros milhões para pagar horas de existência? Mas porque é que não dizem isto exactamente? Têm medo. Não querem incomodar. São delicados? Claro: defendem o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Muito delicados. Delicadíssimos.
O grave problema é que, para lá destes episódios degradantes e grotescos, o problema inominável permanece. Tem que se dar resposta a uma pergunta que não admite rodeios: como pagar o que se deve? Hipotecam-se as almas ("Almas Mortas", Gogol), hipoteca-se o País e vende-se a um banqueiro ("Pátria", Guerra Junqueiro), vamos todos embora ("Jangada de Pedra", Saramago), combatemos contra fantasmas ("Nó Cego", Carlos Vaz Ferraz), mudamos o Regime (Gray, "Modern Strategy"), vamos todos para um Estado mafioso ("Corrupção", filme de Breiner), mudamos para outra dimensão (Rod Serling, "Twilight Zone"), esperamos por uma invasão alienígena (Windham, "The Day of the Tryfids"), batemo-nos em duelo uns com os outros ("Tombstone", de Cosmatos), vamos cooperar para defender o que nos resta ("Forte Apache", de John Ford) e assim por diante.
Vivemos, como diria Jorge Luis Borges, no Jardim em que os caminhos se dividem. Todos os cobardes querem evitar essa opção. Jünger tomou-a. A Floresta, pois então. Não quis estar nas estatísticas. Não quis ser palhaço. A farsa chegou longe demais, não sua concepção. E morreu muito bem enquanto tambores tocavam para apresentação dos palhaços habituais, comuns e duma variedade de parasitas que infesta a Europa. Talvez os árabes acabem com eles, no seu limite de tolerância, como em Cartago.

Terça-feira, 9 de Março de 2010

QUINTA COLUNA: por Fra Diavolo

Privatizar


Descobriu-se, finalmente, de que maneira o Governo vai tentar reduzir a brutal dívida pública: alienando empresas e participações financeiras. Isto é, privatizando. A receita é simples e pode ser comparada com o que se faz nas casas mal governadas. Como se gasta mais do que aquilo que se tem e os credores batem à porta, começa-se por vender o ouro, depois as pratas, depois os móveis, e por fim a própria casa. Pelo pouco que se vai sabendo do projectado PEC (o Programa de Estabilidade e Crescimento em que Sócrates agora quer envolver e comprometer o PSD e o CDS, para não ficar sozinho na desgraça), da lista de empresas a ir à hasta fazem parte os CTT, a ANA, a TAP, o BPN, a REN e, numa fase posterior, a GALP e a EDP. Neste saco há gatos de várias raças e feitios – e só o desespero poderia levar o Governo a juntá-los num esgatanhanço de que alguns sairão inevitavelmente maltratados. Se a pesada herança do BPN e o incompreensível estatismo das gasolineiras seriam talvez bem resolvidos com um leilão, já em relação às outras se coloca o velho problema de saber o que deve, em última análise, ser mantido na esfera do Estado. A venda da ANA e da TAP, por exemplo, levaria a perguntar se a garantia última de independência no tráfego aéreo pode ser alienada por um Estado soberano (eram consideradas “empresas de bandeira”, lembram-se?). Quanto aos Correios, às Redes Energéticas e à EDP, poucas dúvidas restam: privatizá-los, sem garantir um controlo público mínimo, seria deixar o cidadão nas mãos dos privados, cuja gula desconhece, por natureza, o significado da expressão “serviço público”. Ou, então, vale tudo. E em tal caso seria mais prático vender por grosso: os hospitais, as escolas, as câmaras municipais, as estradas e os rios, as montanhas – e (porque não?) o Conselho de Estado, o Tribunal de Contas e o Governo! Depois, só faltava mesmo vender Portugal pela melhor oferta…

FOGO AMIGO: por António Marques Bessa


O Dilema da Social-Democracia

Ouviu-se muitas vezes dizer que o PSD é um partido sem ideologia e que está fixado na prática da governação. Sem o poder político, envolve-se em cismas internos de personalidades ambiciosas, velhas raposas da política e novos barões que ascendem por entre a massa apoiante ou que proliferam na máquina partidária. Ouviu-se dizer que se passa o contrário com o PS, que se dá bem na oposição, que se reformula na contradição com o Governo do PSD e que das trincheiras que são as Fundações, as Universidades, a Comunicação Social, a Banca, as Alianças insuspeitas, avança a triturar os governos não socialistas. Porque eles têm uma ideologia e sabem lidar com ela e pô-la ao serviço das suas ambições políticas pessoais.

Que se passou?

É que todos esqueceram as suas origens e os aspectos teóricos da sua fundação e mesmo as suas raízes. Nada nasceu em Portugal e os indígenas receberam as ideologias importadas da Alemanha, sem discussão e sem debate próprio de contradição. Sem entender que a sua identidade não vinha dali e que as ideologias importadas eram uma moda.
A social-democracia tem uma história alemã, o socialismo tem uma história inglesa e alemã e o comunismo tem uma história russa. O bolchevismo é claramente russo e inspirado na prática totalitária dos czares Pedro, o Grande, e Alexandre II, que reformulou a estrutura russa depois de perder a guerra da Crimeia, deixando tudo na mesma.
Enfim, começando pela dita social-democracia, ela é uma via não bolchevista de chegar ao poder progressivamente, por fases, para aplicar a receita comunista. Os teóricos da social-democracia foram invectivados por Lenine, que defendia a revolução para impor o comunismo e lhes chamava nomes feios. Que queriam os social-democratas? O chamado socialismo evolucionário. Com o tempo e o esforço da luta do partido, imporiam leis que se revelariam úteis para as classes operárias e desqualificadas, de modo a torná-las progressistas e dominantes no aparelho do Estado, através, obviamente, da tomada de poder pelos seus chefes mobilizadores. Nomes como Rosa Luxemburgo (1871-1919), que nasceu na Polónia e fundou o partido social-democrata da Polónia, e que veio para Berlim chefiar o movimento esquerdista, não se podem esquecer e meter no baú a favor da memória de Sá Carneiro. Com Karl Liebkneckt (1826-1900), fundou a Liga Espartaquista (Spartakusbund) e acabou assassinada depois de longos tempos na prisão durante a Guerra Mundial e ainda depois de tentar vários levantamentos populares. O Karl foi metido na prisão com base no seu anti-militarismo perante a Guerra e militância social-democrata. Mas as memórias incómodas apagam-se, quando a social-democracia é de fachada. É o revisionismo social-democrata a funcionar que culmina no alemão Eduard Bernstein ( 1850-1932), um socialista germânico, que acabou exilado na Inglaterra em associação com Engels, mas que diferentemente entendeu que o socialismo não era imediato: seria levado a cabo por fases para uma sociedade igualitária. Inventa o socialismo evolucionário, escreve sobre isso, e em 1921 dá à estampa o seu livro “My Years of Exile” (“Os meus anos de exílio”) . Na verdade, todos eles eram revisionistas em relação à linha ideológica do bolchevismo, metidos num aparente reformismo político, trocando por fases de conquista política o que os bolcheviques de Lenine queriam fazer imediatamente, seguindo o método da revolução.
Em contrapartida, a herança socialista entronca nos franceses, nos alemães e nos ingleses, que pensaram que era possível criar sociedades igualitaristas. Tal ilusão foi desmontado por um militante socialista germânico, Robert Michels, que desvendou que o partido socialista germânico mais não era que uma oligarquia férrea e pouco mutável que mandava nos militantes. E publicou um livro que fez furor até aos dias de hoje motivando estudos não despiciendos sobre o seu conteúdo, mas que nunca puseram em causa a veracidade do que se atestava. Foi ele que inventou a “Lei de ferro da Oligarquia”.
Só os comunistas são fiéis às suas raízes ideológicas: a dupla Marx-Engels, a revisão inteligente de práticos como Lenine e Estaline, pondo de lado revisionistas utópicos como Trotsky ou Mao Tse-tung. Os comunistas, que duvido que saibam muito sobre os fundamentos do bolchevismo teórico e do comunismo utópico, são contudo verdadeiros ideologicamente. Afirmam e não revêem o que receberam da sua herança pensada pelos russos e entendem o esquerdismo, com Lenine, como a manifestação de “uma doença infantil do comunismo”.

Que pensar?

Pouco. Tem que se concluir, sem ajuda de ninguém, que o PSD e o PS são capitalistas, que o socialismo é de boca, que a social-democracia nunca foi pensada nem digerida, que o trotskismo, para lá de uma doença, é infantil e raivoso entre nós, que os comunistas preservam a sua herança periclitante num mundo globalizado no capitalismo.
O trunfo pertence aos porcos, feios e maus. O republicanismo que se prepara para festejar o centenário de 1910 é de um grupo de bandidos, como provou bem Jorge Morais no seu livro “Os últimos dias da Monarquia”, que é um estudo rigoroso com muito a acrescentar ao ouro dos tolos da fazenda da República. Mas o Monarquismo é uma balela de fachada, também ele afastado de Portugal e das raízes do pensamento português, bebendo tudo quanto lhe vendem os ingleses, herdeiros de uma revolução política parlamentar em 1640, no tempo em que Dom João IV andava a tentar ser Rei de Portugal em revoluções de nobres. Os outros sugam o pensamento comunista russo, o pensamento alemão e sobretudo o pensamento francês que é deletério porque só em 1789 conseguiu levar a cabo o que os ingleses já tinham feito com muito êxito um século antes.
Aqui, pobres imitadores dos feiticeiros, pategos, continuamos pategos com gosto, celebrando os heróis do mar. E isso há-de valer-nos de muito para a o futuro que aí vem. O que temos é uma vergonha; e envergonhamo-nos, a qualquer país a que vamos, daquilo que temos. Homens sérios, de Rui Mateus (“Contos Proibidos”, 1996, que são de facto memórias de um PS desconhecido de desavergonhados e vendidos a fazer a sua vidinha) a Medina Carreira (“Portugal que Futuro?”, 2009), que é um homem esforçado, patriota e de facto rigoroso, passando por historiadores estrangeiros da nossa economia como o escocês Doutor Corkhill ou Michel Drain, todos nos avisaram e avisam para o perigo da dissolução da infraestrutura produtiva. Que restará? Nada. Por isso preferimos a História das grandezas do passado. Em vez de tratarmos do momento presente, antes que o navio se afunde, como parece acontecer já na Grécia com o seu partido socialista e conservador, ou seja, a sua partidocracia no poder. Não nos tinha avisado já há muito o académico espanhol Gonzalez de la Mora? Que guerras de cavalos são estas no PSD senão as do dilema que enfrenta? Não representar nenhuma, a não ser a sua própria oligarquia.

Quarta-feira, 3 de Março de 2010

QUINTA COLUNA: por Fra Diavolo

Elementar, meu caro Passos!


Pedro Passos Coelho, candidato à liderança do PSD, defendeu há dias que, perante a sucessão de escândalos que vêm fragilizando a Justiça, o primeiro-ministro teria o dever de promover a substituição do Procurador-Geral da República. Aparentemente, a calinada passou despercebida a dezenas de deputados "laranja" e a centenas de dirigentes nacionais, regionais e locais do partido. Ninguém abriu a boca de espanto. E, contudo, a calinada estava bem à vista: perante o inexplicável comportamento do Procurador num caso que lança as mais pertinentes suspeitas sobre o primeiro-ministro, pede-se então ao alvo dessas suspeitas que demita o homem que em relação a elas fez vista grossa? Mal comparado, era como pedir ao suspeito de um crime que demitisse o juiz que não soube investigá-lo devidamente! Foi preciso que Paulo Rangel, também candidato à liderança do PSD, pusesse ontem os pontos nos is. "Não se deve desviar as atenções do que é essencial: o primeiro-ministro prestar esclarecimentos" - lembrou Rangel, com uma imbatível limpidez de raciocínio. "Desviar as atenções para o poder judicial é estar a ajudar o Governo" e o PSD "não deve fazer esse favor" a Sócrates. Pois não. E isto é tão elementar, meu caro Passos Coelho, que uma pessoa se questiona: será com este tipo de "oposição" que se candidata à liderança do seu partido? É que, com "inimigos" destes, bem pode Sócrates suspirar de alívio...