
Da elite governante
Historicamente, as sucessivas elites que Portugal teve nestas Repúblicas falam sempre de ética, mas limpam os cacos para debaixo do tapete, expõem os seios do Ícone, que são de pedra de calcário, como outras elites por essa Europa fora que fizeram disto um modo de vida.
Popper é certamente um nome desconhecido da elite governante e da classe política dirigente. Mas a elas dedicou muito do seu pensamento. Efectivamente, pensou que na sociedade aberta, concorrente, o melhor limite à corrupção eram eleições competitivas para o aparelho de Estado. A classe política podia ser despedida, destituída, julgada, colocada na prisão por juízes justos, responsabilizada pelo eleitorado, enfim. Trucidada.
Era esperar muito de uma sociedade que ele não viu amadurecer nas suas formas finais. Karl Marx nunca viu uma sociedade verdadeiramente capitalista, mas foi capaz de a teorizar. Se a tivesse visto como Shumpeter, nos Estados Unidos, talvez emendasse o primeiro volume do "Kapital", visto que mesmo assim nunca publicou em vida os outros dois volumes que tinha na gaveta.
Esta classe política de profissionais foi estudada desde Robert Michels, na Alemanha. Prognosticou-se que seria formada por medíocres, que quereria enriquecer e que julgava só ter limites no Céu. Alois Schumpeter fez um diagnóstico semelhante e o russo exilado Moisei Ostrogorski não conseguiu melhor imagem que o americanólogo Lord Bryce, que compara a máquina dos partidos em campo a bandidos comuns.
Esta selecta classe corresponde aos sinais diagnosticados: tem tantas certezas no dinheiro, na fama, na presunção de parolos, que é uma tristeza vê-los nas mesas onde se decide a sorte das pessoas comuns que vivem no território que controlam. Para eles parece que o mundo velho acabou de morrer ontem e na nova aurora do dia emerge, poderoso, o "seu mundo novo". Por entre o sonoro e metálico som das trombetas ergue-se a voz da classe selecta: é a hora da colheita das espigas, é o tempo de ceifar e arrecadar no celeiro.
Popper não percebeu que com dinheiro vivo compram-se consciências que ainda não o são, com a influência distribuem-se cargos excessivamente bem remunerados, com as ligações de conveniência arranjam-se saltos de posição, nas lojas dos arranjos combinam-se as estratégias, na mediação ergue-se o Sistema que a todas massaja. Dizem a palavra-chave: "uma mão lava a outra e as duas lavam a cara". E os doutorzinhos esfregam as mãos de contentes pensando estar na pele do lobo mau e que não há justiça que lhes chegue: são os novos intocáveis da Mafia, foram os vilões no "Miami Vice", estiveram com os maus nos "Gangs of New York", identificaram-se plenamente com os protagonistas de "New York, New York", mas detestam certamente Clint Eastwood no papel de Dirty Harry, porque é um fantasma pesado, odeiam provavelmente Stalone ou Chuck Norris, e isso é compreensível. Rodeados por uma rede de defensores que se estendem dos tribunais às chefias médias, assegurando-se, claro, do silêncio das instituições, só poderiam, como o grande mafioso, ser apanhados pelo IRS se a máquina fosse competente como nos USA (ver: série "IR$", de Vrancken-Desberg, Lombard, banda desenhada, 11 volumes). Talvez se perceba quase tudo através da novela gráfica.
Popper e Sócrates, o grande Grego, deveriam ter pensado erradamente, ao meditar sobre estes problemas. E é provável que o inimigo da sociedade aberta (segundo Popper, Platão) os conhecesse perfeitamente, e talvez por isso tenha feito um esforço adicional e escrito "As Leis", depois de se desembaraçar das questões que criou em "A República".
Porém, os analistas deste futurama presente descobriam que o que afirmavam nos livros não era de consumo fácil para a classe política. Era cicuta. Podem surgir grandes vozes a dizer verdades como o Sol, mas a verdade é odiada e o povo engana-se, como nos ensinou o sabido Jean-Jacques Rousseau. A elite governante e não governante, perante as situações de vida degradada, tem sempre o olho bondoso e a palavra fácil da promessa, cultivando a esperança no bueiro, a rosa no estrume, o dólar no papel. Não é popperiano este discurso de mentira. Historicamente, as sucessivas elites que Portugal teve nestas Repúblicas falam sempre de ética, mas limpam os cacos para debaixo do tapete, expõem os seios do Ícone, que são de pedra de calcário, como outras elites por essa Europa fora que fizeram disto um modo de vida.
Popper foi um grande advogado da tolerância e da verificação. Se pensarmos na tolerância, devemos aplicar o que recomendam na estrada: tolerância zero. Para com as outras culturas, podemos compreendê-las nas suas matrizes religiosas, nas suas ambições, no seu sentido histórico. Com Platão, diríamos que são os vizinhos que nos preocupam e o excessivo grau de tolerância da nossa cultura. Porém, deveríamos aplicar a tolerância a todo o preço à classe política baratinada e ignorante que nos é oferecida nas eleições do povo? Ou usar a refutação como método e a verificação como processo comum? Não estaríamos longe de Popper se fôssemos capazes de iniciar este processo: por em causa o que fazem e o que decidem (verificação), contestar o que põem em prática e que os beneficia e nos prejudica (refutação).
Depois deste processo científico neopositivista, estaremos em condições próprias, neutrais mesmo, para dizer se convêm ou não à nossa sociedade e aos nossos interesses particulares, porque os temos e não nos vale de nada negá-lo.
Para o exercício mental, a recomendação metodológica é usar sempre a refutação. É a hora dela: da refutação da validade e utilidade pública da classe política e das suas invenções caricatas. A refutação do Sistema que dá mostras de querer morrer às mãos da barbárie desorganizada, da contaminação do ambiente, da irresponsabilidade da acção política, da falta de interesse em controlar perigos iminentes, deixando proliferar o crime, os atentados e a insegurança do cidadão. Suspeita-se que talvez seja assim que o Sistema queira morrer para se renovar na barbárie dos fundamentalismos, básicos, determinados e mortíferos. Não estamos habituados, estamos gordos? Eles não se importaram com isso em Cartago, onde cidadãos repimpados bebiam, cercados pela mesma gente que os ia chacinar. Mas quem leva ao açougue, por ínvios caminhos, os cidadãos, é uma elite tão responsável como a de Cartago. Eu, pessoalmente, nunca esquecerei Cartago, nem o "Delenda Cartago", nem a Cartago romanizada destruída pelas hordas invasoras da Península Arábica, nem as ruínas visitadas pelo general Patton, a sonhar que tinha sido um comandante das épocas áureas da Cidade de todos.