Terça-feira, 27 de Abril de 2010

QUINTA COLUNA: por Fra Diavolo

Foguetes


Por razões que os recentes escândalos ajudarão a explicar, os socialistas têm passado os últimos três anos a fugir ao tema “corrupção”. No Parlamento, empataram ou chumbaram incontáveis iniciativas dos partidos à sua direita para que se aprovassem ou reformassem leis de combate aos crimes de colarinho branco e à corrupção no Estado, enquanto era tempo. Portas adentro, apoucaram e ignoraram as tentativas de João Cravinho no mesmo sentido, acabando por neutralizá-lo com uma gaiola dourada com vista para o Tamisa. Agora, como se não fosse nada com eles, fizeram aprovar no hemiciclo 9 medidas legislativas anti-corrupção. E os partidos à sua esquerda, contagiados por esta súbita fúria “moralizadora”, juntaram-se com mais 4 projectos de diploma. São, ao todo, 13 documentos com que a esquerda deseja tapar três anos de incúria (na “melhor” das hipóteses) ou conivência (na pior). As propostas dos inesperados “moralizadores” são coloridas, abarcando a criação de uma base de dados bancária a que os juízes possam ter fácil acesso, normas de detecção do crime urbanístico, suspensão dos mandatos de autarcas incriminados, alargamento da obrigatoriedade de declaração de interesses, reforço de incompatibilidades e criação da figura do “recebimento indevido de vantagem”, entre outras. Mas pouco mais são do que coloridas. Como foguetes em dia de romaria, sobem no ar, estralejam com fragor e exuberância – para depois caírem, canas queimadas, no chão do adro. Algumas das medidas agora propostas vêm tarde demais, outras chegam inquinadas, outras são apenas destinadas a 'épater le bourgeois'. Pouco importa: todas descerão à pomposamente chamada Comissão Eventual para o Acompanhamento do Fenómeno da Corrupção, onde passarão as passas do Algarve antes de verem a luz do dia como uma gloriosa cruzada da esquerda contra a corrupção. E viva o foguetório!

FOGO AMIGO: por António Marques Bessa

Como se avançou na destruição do Ensino

A Universidade tornou-se um forno do padeiro, e não tarda que não seja nada. Se os pais portugueses não tiverem cautela, vão ter os filhos mais ignorantes da Europa – e, ainda por cima, os mais mal-educados…

Como se nada houvesse à face da Lua. Praticamente, para os génios actuais, não havia ensino, provavelmente só repressão. Há que entender que quem chegou ao poder era complexado e tinha más notas. Não eram génios do liceu, nem da Universidade Portuguesa. Eram miúdos abaixo do comum, reprimidos ou mandados para fora por pais ricos.
O plano deveria ter saída de cabeças diversas, mas todas a pensar mal para o rectângulo português. Tudo no fundo a culminar em “licenciaturas” de três anos, as “bolonhesas”, onde os ministros europeus da Deseducação convencionaram que os Estados da União não poderiam pagar, limpinho, mais três anos de estudos superiores aos rapazitos e rapariguitas. Para quem quisesse cinco anos de estudos superiores em assuntos tidos por indispensáveis pelos próprios, os paizinhos iriam desembolsar os custos de um “mestrado” de 2 anos, e assim se voltaria especiosamente aos cinco anos que eu estudei de graça, mas com as famílias a pagar integralmente dois anos de estudos, para a criança ter igualdade no mercado de trabalho, como se ele existisse.
Certas licenciaturas recusaram: a Engenharia, a Medicina, a Arquitectura, o Direito e outras com poder estruturado em Ordens já instituídas e de vastos meandros de poder. As outras licenciaturas, mais recentes aceitaram as normas sem remédio. Três anos, já doutorzinho; mais 2 anos, já mestrezinho; mais 2 a 3 anos, doutorzinho. Assim é o forno do padeiro, que não pergunta pelo fermento nem pelo pão: uns saem torrados, outros mal cozidos e muito poucos no ponto certo. A Universidade tornou-se esse forno do padeiro, e não tarda que não seja nada, senão em algumas instituições privadas da Europa onde o grau de exigência acompanha a exigência comportamental.

De que precisa Portugal?

A pergunta será sempre a mesma: doutorzinhos sem emprego ou gente com capacidades verdadeiras a ganhar dinheiro? Inclino-me para a ideia de que o que importa são os conhecimentos úteis à sociedade e que a fazem progredir. Foi pelo menos para isso que se criaram os Institutos Politécnicos em tudo o que era sítio e tinha Câmara Municipal. Que é que os directores e interesses investidos nos Politécnicos quiseram fazer destas instituições de ensino médio? Universidades.
O falhanço deste movimento politécnico para ridicularizar o ensino industrial, comercial e agrícola, de Veiga Simão, está à vista. A Alemanha ganhou a sua qualificação técnica com politécnicos de diversas especialidades onde se aprendiam e aprendem técnicas que têm emprego imediato. Entre nós é o contrário: predomina a paranóia dos doutorzinhos, que nada sabem a não ser umas certas vacuidades, que entreviram entre bebedeiras de cerveja e ‘shots’, misturas de bebidas alteradas de alta graduação, para se embebedarem mais depressa.
Torna-se urgente, por conseguinte, criar a estrutura de escola que dê lugar à propagada mudança. Os trabalhadores não têm qualificações? Pois: onde estão as escolas secundárias para o efeito? Onde estão bons e certificados electricistas? E bons bate-chapas? Bons e certificados orçamentistas? Bons canalizadores? Bons especialistas de motores? Enfim, para não gastar mais papel, onde estão os que faltam em Portugal – os grandes homens e mulheres especialistas de médio conhecimento, sem doutorzinhos, com empresas, com conhecimento e certificados? E a ganhar dinheiro real? Não os vêem? Pois eu também não, a não ser uns fura-vidas que fogem ao fisco e fazem biscates. É o país dos biscates.
E quanto tempo se perdeu até aqui na sociedade civil? O tempo que medeia entre os Politécnicos e hoje em dia. Entre a destruição do Industrial, Comercial e Agrícola, porque eram do Antigo Regime, e a experiência mais falhada dos Politécnicos, que é do 25 de Abril. O tempo que destruiu os 4 anos gratuitos e necessários de estudos fundamentais em certos cursos de licenciatura até ao dia de hoje. O tempo que degradou o ensino secundário e levou os professores e professoras a um ataque de nervos, o tempo que arrasa e arrasou o próprio primário onde o professor passou a palhaço.
Com base em pequenos estudos parciais e afrancesados, grupos de recomendação incentivaram este declive para a perda de pensamento, oralidade e escrita, o que inclinou a Universidade para o que vemos: uma escola repetitiva e sem criatividade. As Universidades poderiam mudar com rapidez, porque sempre foram estruturas de conhecimento, adaptadas à mudança; mas vir agora com os padrões ingleses de avaliação, como se de uma nova revelação se tratasse, é de autênticos imbecis. Não lhes foi dito que nós e os castelhanos somos a segunda língua do mundo depois do chinês? Não lhes terá sido ensinado que nós e os espanhóis podemos dar cartas e não receber só o ‘dois de paus’ ou o ‘três de espadas’? Não. Não sabem a que cultura pertencem, porque estudaram lá fora. Trazem as luzes e são os novos luzeiros de uma revolução que já não é a francesa, mas da Universidade da CIA, a Washington University.

Em suma

A reforma universitária, ao contrário do que se propala, é um quase fracasso, porque no fim os cursos clássicos não habilitam para nada, senão para o desemprego.
A reforma do tecnológico, que tinha a sua rede montada, foi um desastre, com os politécnicos a desencadear o processo de qualificação para universidade. O processo nem formou doutorzinhos, nem pessoal qualificado para tarefas especializadas, que era o mais necessário. Foram atingidos pela mania da Universidade e criaram empregos para professores que queriam algo mais que ser professores de secundário. Alguns professores universitários deram cobertura a tudo e tornaram-se coniventes com um erro horrível.
Em terceiro lugar apareceu uma trupe de alunos que não quer aprender. Chegam às escolas com o “savoir faire” das ruas e às sextas e sábados conhecem-se pelas ressacas dos ‘shots’. Não sabem o que é vinho tinto e sanduíches de presunto ou de fiambre. Não admira que o aproveitamento seja miserável e que os professores os passem só para não terem de preencher papéis a explicar porque chumbam tanto.
Não tenhamos ilusões: se os pais não tiverem cautela, vão ter os filhos mais ignorantes da Europa, e ainda por cima os mais mal-educados, porque conhecem todos os palavrões da praxe. Lamento ser eu a dar a notícia, que ensino na Universidade há 40 anos e não tenho a mania de que os últimos são sempre os piores. Mas é que estes chegam a copiar a indumentária dos sem-abrigo ou as roupas dos protagonistas infelizes dos “Morangos com Açúcar”, uma das mais miseráveis séries que se colocaram no pequeno ecrã. Não digo que sejam “feios, porcos e maus”, mas digo que fazem por parecer isso.

Terça-feira, 20 de Abril de 2010

QUINTA COLUNA: por Fra Diavolo


Mansidão

No congresso de ranchos folclóricos (sem ofensa para os verdadeiros) em que se transformou o Parlamento português, diz o bailador do "vira" para o bailador do "fandango": "Vejo que de intervenção em intervenção vai ficando mais manso". E responde o do "fandango" ao do "vira": "Manso é a tua tia, pá!". Esta edificante troca de galhardetes, que não chega sequer a alcançar o nível estilístico de uma cena de zaragata no Pátio das Cantigas, teve por protagonistas, respectivamente, o chefe da bancada parlamentar do Bloco de Esquerda e o primeiro-ministro do Governo português. Nós, que não sabemos quem possa ser a tia de Francisco Louçã nem por que razão a Senhora suscitaria uma tão aberrante falta de concordância gramatical por parte de um licenciado com Inglês Técnico no currículo, já não nos admiramos. Portugal todo anda, à imagem dos seus chefes, cada vez mais manso. Tão manso que deixou encerrar o assunto com um sorriso, como se fosse normal o chefe de um Governo servir-se de apartes de 'bas-fond' e tomar poses que geralmente associamos à ordinarice rasca das disputas de taberna. Dando o exemplo supremo desta mansidão pós-moderna que tomou conta do País, também o Presidente Cavaco Silva ouviu há dias o seu homólogo checo puxar-lhe as orelhas em público a propósito do défice das nossas contas – e engoliu em seco, limitando-se a desculpar a grosseria com as "conhecidas" posições "pouco ortodoxas" de Vaklav Klaus. Andamos realmente mansos. E parece que estamos por tudo. Talvez por isso, também não estranhámos que o jornal francês "Libération", que geralmente chega a Portugal sem qualquer problema, falhasse a sua distribuição entre nós, por razões "técnicas", precisamente no dia em que publicava uma reportagem demolidora para José Sócrates. Andamos, realmente, mansos. E a culpa não pode ser da nossa tia.

FOGO AMIGO: por António Marques Bessa

O problema das esquecidas mentiras

Bom, o vulcão serve, como outros fenómenos naturais, para mostrar que somos os habitantes da pele da Terra. Que podemos ser varridos com as nossas grandes construções em segundos, em semanas, em meses, não valendo para nada a tecnologia acumulada.

É sabido que o Sistema vive de mentiras, de jogos de bastidor e de uma coisa que se chama "falta de cultura política das massas votantes". Tudo se esquece, como vivêssemos numa gigantesca Nemesis, e não na Thanatos de Freud. O esquecimento percorre o tecido social débil como um relâmpago e apaga as memórias como o antigo apagador da pedra de ardósia onde as letras estavam escritas a giz. Parece-me que, enquanto novas questões surgem, se esqueceu uma recente, que fez o Estado e os nossos impostos sustentarem as farmacêuticas internacionais. Refiro-me seguramente à nova gripe, que foi erradamente apresentada como uma pandemia certa, devastadora e horrível. Claro que não se verificou nada disso, como seria de esperar, porque os interesses eram conhecidos e quem fabricava eram empresas falidas ou com necessidade de capitalização. Compraram-se milhões de doses, e agora? Sim, agora? Agora verifica-se que não era nada; e os que morreram foram os que tomaram essa porcaria de vacina. Médicos de todo o mundo, especialistas difíceis de ignorar fartaram-se de explicar em todos os tons que as coisas não eram assim e que se tratava de um negócio. Eu não tomei a vacina (e tenho diabetes), mas dei crédito a quem avisava e não tinha interesses investidos na divulgação do remédio miraculoso, que os portugueses sem cultura política faziam fila para receber e sobre o qual a televisão, em vez de informar, desinformava activamente, tomada de uma paranóia difícil de entender. Hoje ninguém fala nisso, nem se pergunta aos dirigentes quanto se gastou para ir atrás de canas de foguetes. Por este simples exemplo estamos aptos a avaliar o que farão as pessoas em tempo de crise verdadeira, e não imaginada, como era esta do HN1. Sabem quanto mata a gripe normal: pois muito mais, infinitamente muito mais do que essa inventada. Mas até na Igreja se sugeriu que se acabasse, nesses terríveis momentos, com a comunhão na mão: na verdade, todos os motivos são bons para alcançar objectivos que não se atrevem ainda a dizer. As escolas invadiram-se com cartazes inúteis. Talvez este paroxismo de estupidez tenha levado a que as pessoas lavassem mais as mãos antes de tomar refeições. E foi onde acabou: na pasmaceira habitual, sem responsáveis e com toda a gente a colaborar numa mentira clamorosa que fez vítimas.

…e o vulcão islandês

Bom, o vulcão serve, como outros fenómenos naturais, para mostrar que somos os habitantes da pele da Terra. Que podemos ser varridos com as nossas grandes construções em segundos, em semanas, em meses, não valendo para nada a tecnologia acumulada. As bombas atómicas são uma brincadeira, comparadas com o que pode fazer a Terra. A impossibilidade de intervir, a incerteza dos cientistas, o medo dos islandeses, a paralisação de uma rede operativa de transporta aéreo, são apenas sinais de incapacidade para lidar com coisas duras: a liquidação do Chile que vive um tempo de cão, a enxurrada na Madeira que não foi tão mal como se esperava, o terramoto no Tibete que destruiu até casas bem leves e enterrou milhares de vítimas, os tsunami que visitam as orlas e devastam ilhas e costas, os tufões que começam a visitar-nos como nova ameaça, os mares que vão subindo de cota, e assim por diante. Mas os homens, as sociedades, para lá de sofrerem, podem fazer alguma coisa? Nada. Apenas esperar pelo inevitável e pôr a salvo o que resta depois dos desastres. Era bom pensar que vivíamos num planeta seguro, com os pés assentes na Terra. Parece que se iniciou uma nova fase na vida do nosso Planeta e não há sítios seguros: se bem que existam uns mais do que outros, todos são inseguros porque não se sabe onde a erupção do próximo vulcão se fará, nem se tem ideia donde virá o próximo terramoto. É um aborrecimento que a Terra esteja a ajustar placas tectónicas no nosso tempo, mas isso iria acontecer em algum momento. Também os dinossauros acabaram e eram muito grandes e pareciam imbatíveis. Não eram. Só deixaram pegadas, que queremos preservar não sei para quê.

Mas foi previsto?

Certamente. As pessoas que não lêem andam distraídas. Desde os anos 70 do século passado, uma enorme quantidade de novelas fez ver que a humanidade tinha um fim, que escusava de andar por aí muito orgulhosa no seu saber. A Terra ocupa-se disso. Provavelmente, o primeiro foi o socialista Robert Wells, com a sua viagem no tempo, de que se fez um filme recente. Mas John Whindam escreveu um romance ('The Day of Tryfids') em que as pessoas ficam cegas, e de onde o inevitável Saramago copiou ideias sem falar na fonte. Também Matthesom escreveu ('I Am a Legend') e desse livro saiu um filme (novo, porque Charlton Heston protagonizou o filme "O Último Homem na Terra" muito antes desta nova versão). Mas o melhor não é a diversidade de mundos apolíticos: temos ainda "Reino do Fogo", com Matthew McConaughey, que se passa numa humanidade devastada, ou seja, um pouco o Mad Max a passear-se pelos restos da civilização. Todavia, o melhor de todos ainda será sempre Pierre Boule com o seu terrível livro "O Planeta dos Macacos", de que se fizeram séries, ou "Londres: Dia do Juízo Final". A Terra sempre foi, para os autores mais despertos, um assunto não encerrado, apesar dos esforços idílicos de Júlio Verne. Eles apresentam um planeta tumultuoso que coloca os seres em extinção, sem que estes tenham nada a dizer ou a fazer face a forças quem nem lhes passa pela mente existirem armazenadas no corpanzil das montanhas ou nas serras do fundo do mar. É da aniquilação da espécie, como um todo, que esses filmes e livros tratam. É pena que não sejam lidos como deviam. Ao menos, forneciam-nos uma certa humildade e a certeza de que, contra tanta força, a sofisticada tecnologia nunca servirá para nada.

Quarta-feira, 14 de Abril de 2010

QUINTA COLUNA: por Fra Diavolo

Abril


E por que razão – expliquem-me – a Madeira haveria de ser obrigada a celebrar o 25 de Abril? Voltam a "indignar-se" as carpideiras do costume contra a decisão da Assembleia Regional de deixar passar a data em claro, argumentando que a "revolução dos cravos" permitiu a Portugal "dar um salto a nível político, social e económico". Um salto, sem dúvida, mas num abismo de incerteza, descrença e corrupção. Há anos que o arraial das comemorações abrilinas se repete na Madeira, com o PCP sempre reclamando que se assinale esta "data marcante da História". Infelizmente para os comunistas, o arquipélago vive em regime parlamentar e os seus eleitos vêm rejeitando, por maioria clara, que se reproduzam na Madeira os lúgubres bombos e trombetas com que em Lisboa se assinala o golpe de Estado de 1974. Os madeirenses preferem antes celebrar o 25 de Novembro de 1975 – a data em que um Portugal aprisionado pela revolução comunista expulsou do poder os radicais que lá se tinham instalado à força e regressou a uma relativa "normalidade" (independentemente da reflexão exigida pelo facto de essa "normalidade" ter permitido que chegássemos à deplorável situação em que o País se encontra). 25 de Abril? Por alma de quem? Celebre-se antes, como também fazem os madeirenses desde 1995, "o dia seguinte". Jardim explicou-o sem meias palavras: "Sou um homem do 26 de Abril, do que está para vir", e não alguém que pactua "com a aldrabice montada institucionalmente em Portugal". Talvez nos falte ainda distância histórica para avaliarmos, em toda a sua dimensão, a mentira do 25 de Abril, um 'putsch' favorável às cobiças capitalistas em África que os extremistas empalmaram na esperança de aqui instaurarem o miserabilismo de uma república soviética. Não se pode, em qualquer dos casos, negar ao povo madeirense a lucidez de dizer não. Não é isso a democracia que os camaradas apregoam?

FOGO AMIGO: por António Marques Bessa


Da elite governante

Historicamente, as sucessivas elites que Portugal teve nestas Repúblicas falam sempre de ética, mas limpam os cacos para debaixo do tapete, expõem os seios do Ícone, que são de pedra de calcário, como outras elites por essa Europa fora que fizeram disto um modo de vida.

Popper é certamente um nome desconhecido da elite governante e da classe política dirigente. Mas a elas dedicou muito do seu pensamento. Efectivamente, pensou que na sociedade aberta, concorrente, o melhor limite à corrupção eram eleições competitivas para o aparelho de Estado. A classe política podia ser despedida, destituída, julgada, colocada na prisão por juízes justos, responsabilizada pelo eleitorado, enfim. Trucidada.
Era esperar muito de uma sociedade que ele não viu amadurecer nas suas formas finais. Karl Marx nunca viu uma sociedade verdadeiramente capitalista, mas foi capaz de a teorizar. Se a tivesse visto como Shumpeter, nos Estados Unidos, talvez emendasse o primeiro volume do "Kapital", visto que mesmo assim nunca publicou em vida os outros dois volumes que tinha na gaveta.
Esta classe política de profissionais foi estudada desde Robert Michels, na Alemanha. Prognosticou-se que seria formada por medíocres, que quereria enriquecer e que julgava só ter limites no Céu. Alois Schumpeter fez um diagnóstico semelhante e o russo exilado Moisei Ostrogorski não conseguiu melhor imagem que o americanólogo Lord Bryce, que compara a máquina dos partidos em campo a bandidos comuns.
Esta selecta classe corresponde aos sinais diagnosticados: tem tantas certezas no dinheiro, na fama, na presunção de parolos, que é uma tristeza vê-los nas mesas onde se decide a sorte das pessoas comuns que vivem no território que controlam. Para eles parece que o mundo velho acabou de morrer ontem e na nova aurora do dia emerge, poderoso, o "seu mundo novo". Por entre o sonoro e metálico som das trombetas ergue-se a voz da classe selecta: é a hora da colheita das espigas, é o tempo de ceifar e arrecadar no celeiro.
Popper não percebeu que com dinheiro vivo compram-se consciências que ainda não o são, com a influência distribuem-se cargos excessivamente bem remunerados, com as ligações de conveniência arranjam-se saltos de posição, nas lojas dos arranjos combinam-se as estratégias, na mediação ergue-se o Sistema que a todas massaja. Dizem a palavra-chave: "uma mão lava a outra e as duas lavam a cara". E os doutorzinhos esfregam as mãos de contentes pensando estar na pele do lobo mau e que não há justiça que lhes chegue: são os novos intocáveis da Mafia, foram os vilões no "Miami Vice", estiveram com os maus nos "Gangs of New York", identificaram-se plenamente com os protagonistas de "New York, New York", mas detestam certamente Clint Eastwood no papel de Dirty Harry, porque é um fantasma pesado, odeiam provavelmente Stalone ou Chuck Norris, e isso é compreensível. Rodeados por uma rede de defensores que se estendem dos tribunais às chefias médias, assegurando-se, claro, do silêncio das instituições, só poderiam, como o grande mafioso, ser apanhados pelo IRS se a máquina fosse competente como nos USA (ver: série "IR$", de Vrancken-Desberg, Lombard, banda desenhada, 11 volumes). Talvez se perceba quase tudo através da novela gráfica.
Popper e Sócrates, o grande Grego, deveriam ter pensado erradamente, ao meditar sobre estes problemas. E é provável que o inimigo da sociedade aberta (segundo Popper, Platão) os conhecesse perfeitamente, e talvez por isso tenha feito um esforço adicional e escrito "As Leis", depois de se desembaraçar das questões que criou em "A República".
Porém, os analistas deste futurama presente descobriam que o que afirmavam nos livros não era de consumo fácil para a classe política. Era cicuta. Podem surgir grandes vozes a dizer verdades como o Sol, mas a verdade é odiada e o povo engana-se, como nos ensinou o sabido Jean-Jacques Rousseau. A elite governante e não governante, perante as situações de vida degradada, tem sempre o olho bondoso e a palavra fácil da promessa, cultivando a esperança no bueiro, a rosa no estrume, o dólar no papel. Não é popperiano este discurso de mentira. Historicamente, as sucessivas elites que Portugal teve nestas Repúblicas falam sempre de ética, mas limpam os cacos para debaixo do tapete, expõem os seios do Ícone, que são de pedra de calcário, como outras elites por essa Europa fora que fizeram disto um modo de vida.
Popper foi um grande advogado da tolerância e da verificação. Se pensarmos na tolerância, devemos aplicar o que recomendam na estrada: tolerância zero. Para com as outras culturas, podemos compreendê-las nas suas matrizes religiosas, nas suas ambições, no seu sentido histórico. Com Platão, diríamos que são os vizinhos que nos preocupam e o excessivo grau de tolerância da nossa cultura. Porém, deveríamos aplicar a tolerância a todo o preço à classe política baratinada e ignorante que nos é oferecida nas eleições do povo? Ou usar a refutação como método e a verificação como processo comum? Não estaríamos longe de Popper se fôssemos capazes de iniciar este processo: por em causa o que fazem e o que decidem (verificação), contestar o que põem em prática e que os beneficia e nos prejudica (refutação).
Depois deste processo científico neopositivista, estaremos em condições próprias, neutrais mesmo, para dizer se convêm ou não à nossa sociedade e aos nossos interesses particulares, porque os temos e não nos vale de nada negá-lo.
Para o exercício mental, a recomendação metodológica é usar sempre a refutação. É a hora dela: da refutação da validade e utilidade pública da classe política e das suas invenções caricatas. A refutação do Sistema que dá mostras de querer morrer às mãos da barbárie desorganizada, da contaminação do ambiente, da irresponsabilidade da acção política, da falta de interesse em controlar perigos iminentes, deixando proliferar o crime, os atentados e a insegurança do cidadão. Suspeita-se que talvez seja assim que o Sistema queira morrer para se renovar na barbárie dos fundamentalismos, básicos, determinados e mortíferos. Não estamos habituados, estamos gordos? Eles não se importaram com isso em Cartago, onde cidadãos repimpados bebiam, cercados pela mesma gente que os ia chacinar. Mas quem leva ao açougue, por ínvios caminhos, os cidadãos, é uma elite tão responsável como a de Cartago. Eu, pessoalmente, nunca esquecerei Cartago, nem o "Delenda Cartago", nem a Cartago romanizada destruída pelas hordas invasoras da Península Arábica, nem as ruínas visitadas pelo general Patton, a sonhar que tinha sido um comandante das épocas áureas da Cidade de todos.

Quarta-feira, 7 de Abril de 2010

Mulher de armas!


Aconteceu no Brasil há poucas semanas. É impressionante o silêncio que se abateu sobre a Câmara enquanto a deputada acusa, a dedo, cada um dos colegas deputados.

Terça-feira, 6 de Abril de 2010

QUINTA COLUNA: por Fra Diavolo


Espírito e matéria


Há em Portugal quase 800 mil católicos que não acreditam na vida para além da morte e, destes, 250 mil até vão regularmente à missa – concluiu um inquérito conduzido por Helena Vilaça, socióloga da Universidade do Porto. O estudo é inquietante e ultrapassa em muito a questão da religiosidade. Ele revela, possivelmente, ignorância, confusão e oportunismo etológico, mas também um vazio espiritual que, de forma agravada, todos os dias cresce à nossa volta. Num quadro de fundo em que 90 por cento dos portugueses se declaram cristãos, impressiona que um tão elevado número de praticantes regulares “se esqueça” daquilo em que diz acreditar. Muitos mantêm-se ligados a um ténue formalismo de espiritualidade por simples hábito irreflectido. Muitos não sabem mesmo o que querem dizer quando se afirmam crentes. Muitos nunca abriram um Livro Sagrado, nunca pensaram duas vezes numa lição moral. Muitos fazem das igrejas ponto de encontro social onde exibem roupas, jóias, automóveis e outras más moedas cujos moedeiros Jesus um dia expulsou do templo. Muitos, ainda, procuram na fé o “milagre instantâneo” que faria deles ricos, belos e radiantes, mediante a prestação de um módico de rezas memorizadas. Ora, se isto é assim entre aqueles que pretendem manter-se vinculados a alguma espiritualidade, como será entre os outros? Domina-nos, a nós humanos deste século, um “deus” mais fácil do que o Deus da fé: o dinheiro, a matéria, aquilo que se apalpa e a que chamamos “nosso”. A ilusão da auto-suficiência cavou um fosso entre nós e a nossa natureza mais profunda, afastando-nos da espiritualidade que faz do homem um ser completo. Quando nos perguntam o que somos, respondemos maquinalmente: “crentes”. Mas depois, fazendo melhor as contas, lá vamos explicando que isso da vida eterna é que já não dá lucro. E assim, de quebra em quebra, sobram cada vez menos razões para nos distinguirmos dos outros bichinhos que com o homem partilham este grande jardim zoológico.

FOGO AMIGO: por António Marques Bessa

Da refutação

Não pode espantar a ninguém que Karl Popper, num acesso de devoção doutrinal, de todo compreensível, chegasse a exercer o mester de carpinteiro, para colocar em prática a teoria do valor, defendida pelos marxistas, e aprender a via do operário mais ou menos qualificado e obviamente explorado.



Afirmava frequentemente o filósofo Karl Popper, também ele um austríaco como o prémio Nobel da Medicina Konrad Lorenz, que ninguém sabia o suficiente para se dar ao luxo de ser intolerante. O pensador vivera num espaço temporal acossado pelo primarismo nacional-socialista e fragilizado pela ambição totalitária do bolchevismo, poderosas formas de discriminação com máquinas amplamente dotadas para matar e constranger. Erguera-se a pulso do facciosismo intelectual da juventude para, com o sua idade madura, pairar acima das cegueiras normais do tempo das ideologias dominantes, totalitárias por natureza intrínseca, e reflectir com lucidez, não isenta de algumas simpatias, sobre a condição humana e a vida social nas sociedades.
O seu amigo Lorenz ocupou-se das sociedades animais, sobre as quais, no fim da vida, tinha obra feita. Os livros publicados tendiam a mostrar que a sociedade humana não era muito diferente, em estrutura, das sociedades de mamíferos superiores. Tais afirmações ganharam-lhe grandes inimigos entre os “humanistas”, mas grande discípulos, a não perder, como Eibl-Eibesfeldt (“Amor e Ódio”) e o antropólogo americano Robert Ardrey (“African Génesis”, “The Territorial Imperative”, “Social Contract”), cujas obras se encontram disponíveis, como as do seu mestre (“A Agressão”, entre outras).
Não pode espantar a ninguém que Karl Popper, num acesso de devoção doutrinal, de todo compreensível, chegasse a exercer o mester de carpinteiro, para colocar em prática a teoria do valor, defendida pelos marxistas, e aprender a via do operário mais ou menos qualificado e obviamente explorado. Porém, pela sua inteligência aguda e trabalhos intelectuais inovadores, vê-se que da praxis da sua investigação não derivou uma teoria consistente sobre o melhor dos mundos. Tornou-se, ao contrário, um neopositivista feroz, crítico dos utopistas, apaixonado pela verdade científica, e investigador cuidadoso da realidade social. O que o tornou uma pessoa inevitável na estima da colectividade pensante, tornando-se um mestre do saber contemporâneo.
Uma referência para quem queria aprender com humildade foi a sua perene teoria da refutação. A verdade científica só o era até ser contestada por uma teoria melhor e deixava de existir a partir da descoberta de um facto contraditório. A verdade era, em si mesma, relativista, e de conjuntura. Encontrava-se a planar nos níveis de conhecimento detido pelos grandes investigadores, mas sempre com a cláusula de provisoriedade afixada. O conhecimento avançaria pela destruição de certezas, coisa que Khun alinhavou como queda de “paradigmas”. O “paradigma”, segundo ele, era o que a sociedade pensava da ciência, ao tempo. Nada de verdadeiro, mas nada de falso. Ao fazer depender o avanço do conhecimento de paradigmas científicos ditados provavelmente pelas ideologias, Khun não faz melhor que o realismo na URSS. Mas Popper faz a diferença.
Na sua memória sempre esteve a experiência pessoal, que de tão convincente o levou a defender com persistência a necessidade de compreender as razões diferentes dos outros. Mas ainda de estabelecer limites funcionais para a autoridade, de criar trincheiras onde as instituições, na sociedade civil, pudessem resistir à arbitrariedade do poder político que ele experimentou na pele. Encaminhou-se, activamente, de uma posição fideísta, em termos ideológicos marxistas, para a compreensão do relativismo político das crenças ideológicas, mas sobretudo deu-se conta, num mundo atacado por formas baixas de pensamento, que reivindicavam o monopólio da verdade, que era necessário iniciar um processo transparente de refutação permanente para procurar a verdade disponível com humildade. E a refutação só se poderia fazer eficientemente na base científica de um realismo positivista.



É possível que este método não pareça heróico a quem cultua a brutalidade das letras do ‘heavy metal’, o entontecimento programado pelas palavras de ordem, a exibição dos últimos chavões do pronto a pensar contemporâneo, enfim, a quem já deixou, insensivelmente, de se preocupar com o sentido da velha máxima socrática: conhece-te a ti mesmo, porquanto já se vendeu de alma e coração ao atordoamento como forma superior de vida ou àquela “Simpathy for the Devil” celebrada pelos Rolling Stones, que não faz mais que criar zombies. Popper recentra o homem na razão, chamando às exigências do método todos os que vivem longe de si mesmos, alienados na realidade virtual. E Sócrates andava cheio de razão ao recomendar aquele difícil caminho de interioridade, pois ele é condição prévia para conhecer e compreender os outros, depois de nos conhecermos a nós próprios. Popper não é profeta, homem santo ou mágico: ele parece dizer lugares comuns esquecidos por quem vê televisão em excesso e lê jornais intragáveis.
O austríaco útil situa-se, neste tempo, e nesta época especial, como uma inteligência fulgurante que incansavelmente apontou à Verdade inacessível na sua complexidade, com a consciência da fragilidade do conhecimento adquirido pelas culturas humanas. Ao lado desta consciência dos limites e da frugalidade e flexibilidade do conhecimento adquirido, ganhou terreno a ideia de Tolerância, com a certeza de que ela era um dos vectores decisivos para o homem viver na plenitude da sua condição. A este propósito, deixou-nos tantos escritos que seria fastidioso enumerá-los, mas não se pode esquecer o seu livro de reflexões, “Em Busca de um Mundo Melhor”. E se conseguíssemos pensar e fazer assim, certamente íamos já, na margem de cá do Paraíso, ter esse mundo tão procurado pelos corações inquietos e sempre tão perdido para lá da névoa ancestral dos nossos ódios, meticulosamente cultivados. Disso falou quem sabia, como Agostinho de Hipona (“Confissões”) depois de anos de devassidão.

Na próxima edição: Da elite governante