Quarta-feira, 28 de Julho de 2010
Terça-feira, 27 de Julho de 2010
Importa-se de repetir?
Zeinal Bava, presidente da PT, na Comissão de Ética da Assembleia da República, em 10 de Março deste ano
QUINTA COLUNA: por Fra Diavolo
O 'show' patético de meia-dúzia de bloquistas de esquerda protestando, há dias, à porta da praça de touros das Caldas da Rainha, contra uma corrida promovida pelo CDS/PP, sugere algumas reflexões. Registe-se, antes de mais, o "libelo acusatório" dos manifestantes do Bloco: a tourada era "vergonhosa", o CDS tinha "as mãos manchadas de sangue" e era cúmplice de "tortura". Dir-se-ia que tanto empenho na defesa dos "direitos dos animais" corresponderia a uma posição global, nacional, dos bloquistas contra as corridas de touros – e que os jovens protestantes das Caldas se limitavam a reflectir uma linha partidária "de princípio". Mas não: aparentemente, o Bloco de Esquerda tem uma opinião nas Caldas da Rainha e outra (ou outras) no resto do País. Pois só uma extraordinária pluralidade criativa de pontos de vista pode explicar que a única presidente de Câmara eleita pelo Bloco (Ana Cristina Ribeiro, autarca de Salvaterra de Magos) tenha confessado, numa entrevista, em Outubro de 2009, este horrível 'crime': "Sou uma aficionada, sou uma defensora dos touros de morte". Interrogada sobre a óbvia incongruência de posições, respondeu candidamente: "Isto só revela o enorme respeito que existe entre nós, dirigentes do Bloco de Esquerda". Também confrontado, há dias, com a contradição, o deputado bloquista Heitor Sousa disse: "Tal como nos outros partidos, há pessoas com opiniões diferentes sobre um mesmo assunto". O que o episódio da praça de touros das Caldas revela, porém, é algo mais sério do que simples "diferenças de opinião": revela o oportunismo intrínseco do Bloco, que se faz "amigo dos animais" para aparecer nos noticiários – e ao mesmo tempo engole em seco uma autarca que, pela sua popularidade pessoal, lhe ofereceu numa bandeja a Câmara de Salvaterra. Grande coerência!
FOGO AMIGO: por António Marques Bessa
Porque não o Presidencialismo?
As Assembleias soberanas são uma treta e funcionaram sempre mal e manifestamente contra o interesse dos portugueses. Os tais “eleitos”, uma vez sentados, fazem o que lhes apetece e sobra-lhes tempo para viajar por tudo o que é sítio com os nossos impostos.
Há coisas que não se conseguem entender neste pequeno formigueiro de interesses baralhados em que se tornou Portugal. Não há acordo sobre nada, excepto partilhar os despojos do dia. Creio que todos vieram da pobreza, de empregos sem interesse e, instalados à Mesa Grande, acham que é o seu momento, do Futebol à Política, da Banca às Grandes Companhias, das Universidades aos Centros de pedinchice que são as Fundações de dinheiro dos contribuintes.
Na verdade, num exame histórico da República, que se impunha fazer agora, ressalta uma evidência gritante. As Assembleias soberanas são uma treta e funcionaram sempre mal e manifestamente contra o interesse dos portugueses. Os tais “eleitos”, uma vez sentados, fazem o que lhes apetece e sobra-lhes tempo para viajar por tudo o que é sítio com os nossos impostos. A I República foi uma vergonha completa que ninguém pode dourar. A II foi qualquer coisa de indescritível e sem discernimento para entender o que interessava ao país e separar o acidental do perene. A III República foi o que não podia deixar de ser: uma ditadura militar e uma presidência de primeiro-ministro. A IV, de tão má que é, devia reflectir que está na trajectória: veio de um golpe de Estado militar, viveu sob a ameaça de uma ditadura comunista, e por fim lá instalou uma classe política civil que não se mostra melhor que os primeiros militares que governaram o rectângulo à custa de decisões avulsas. É claro que as pessoas lembram Sidónio Pais, um militar sadio que quis colocar ordem nas coisas políticas. Resolveram matá-lo. Fernando Pessoa chamou-lhe, num opúsculo muito empenhado, o “Presidente-Rei”, e pensava que ele seria capaz de conter as forças de decadência que ele sentia estarem a cavar a sepultura do pobre povo. Mas enquanto teve poder e vivia, Sidónio fez alguma coisa de moralizante e importante. Criou esperança e motivação numa nação desleixada e desinteressada, envolvida em quezílias baratas e ódios de estimação.
As Assembleias soberanas são uma treta e funcionaram sempre mal e manifestamente contra o interesse dos portugueses. Os tais “eleitos”, uma vez sentados, fazem o que lhes apetece e sobra-lhes tempo para viajar por tudo o que é sítio com os nossos impostos.
Há coisas que não se conseguem entender neste pequeno formigueiro de interesses baralhados em que se tornou Portugal. Não há acordo sobre nada, excepto partilhar os despojos do dia. Creio que todos vieram da pobreza, de empregos sem interesse e, instalados à Mesa Grande, acham que é o seu momento, do Futebol à Política, da Banca às Grandes Companhias, das Universidades aos Centros de pedinchice que são as Fundações de dinheiro dos contribuintes.
Na verdade, num exame histórico da República, que se impunha fazer agora, ressalta uma evidência gritante. As Assembleias soberanas são uma treta e funcionaram sempre mal e manifestamente contra o interesse dos portugueses. Os tais “eleitos”, uma vez sentados, fazem o que lhes apetece e sobra-lhes tempo para viajar por tudo o que é sítio com os nossos impostos. A I República foi uma vergonha completa que ninguém pode dourar. A II foi qualquer coisa de indescritível e sem discernimento para entender o que interessava ao país e separar o acidental do perene. A III República foi o que não podia deixar de ser: uma ditadura militar e uma presidência de primeiro-ministro. A IV, de tão má que é, devia reflectir que está na trajectória: veio de um golpe de Estado militar, viveu sob a ameaça de uma ditadura comunista, e por fim lá instalou uma classe política civil que não se mostra melhor que os primeiros militares que governaram o rectângulo à custa de decisões avulsas. É claro que as pessoas lembram Sidónio Pais, um militar sadio que quis colocar ordem nas coisas políticas. Resolveram matá-lo. Fernando Pessoa chamou-lhe, num opúsculo muito empenhado, o “Presidente-Rei”, e pensava que ele seria capaz de conter as forças de decadência que ele sentia estarem a cavar a sepultura do pobre povo. Mas enquanto teve poder e vivia, Sidónio fez alguma coisa de moralizante e importante. Criou esperança e motivação numa nação desleixada e desinteressada, envolvida em quezílias baratas e ódios de estimação.
Tanto se fala em mexer numa Constituição que expressava somente a relação de forças sentidas em 1976, que era bom pensar agora a outra possibilidade sempre posta de lado na História da República teimosamente suicida. Verificar, por exemplo, que os Estados mais progressistas acabaram com as Assembleias soberanas porque verificaram que não servem para nada, a não ser para a oratória barata e sem substância. Todos a fingir que são povo e todos a saber que não são de forma nenhuma. Mesmo Angola entendeu que o Presidencialismo lhe convinha, mas o mesmo entenderam a França, a Rússia e uma quantidade de países que eram desorganizados por excelência e encontraram neste sistema político uma saída mais interessante.
Se não há Rei, que falta faz quem faça de “reizinho” sempre a queixar-se dos seus limites constitucionais e da impossibilidade de fazer seja o que for? Então para que prometem nas Campanhas mundos e fundos que sabem que não podem tornar realidade? Porque são mentirosos e continuarão sempre a sê-lo, mesmo quando têm uma cara dura ou bolachuda. E o povo venera o seu venerando Chefe de Estado como se estivéssemos na China, à volta da cadeira de um mandarim insignificante.
Seria bom dotar a Presidência de instrumentos políticos adequados para intervir activamente na vida política a dar rosto às decisões. As indeterminações fantásticas que permitem a diluição, entre os deputados, das culpas e das vitórias, e a confusão entre os que falam e se reformaram sempre calados, desapareciam.
Governos preparados pelo Presidente vimo-los com Eanes, e não me parece que não tenham sido sempre melhores do que aqueles que lhes sucederam. A decisão do Presidente, então com uma ampla capacidade de manobra na democracia vigiada existente, dá-nos a ideia de uma chave para a modernidade do país; a instituição de um Presidencialismo esclarecido, responsável, capaz e sobretudo apostado em colocar os portugueses a trabalhar com uma finalidade conhecida.
Se insistir neste Parlamentarismo estéril desde o dia sua invenção, aqui em Portugal, podemos perfeitamente assentar numa coisa: os quadros vão-se embora, a imigração será a grande solução, como já se começa a esboçar, e os novos vampiros continuarão a sugar o sangue fresco da manada.
Segunda-feira, 26 de Julho de 2010
Sexta-feira, 23 de Julho de 2010
Quarta-feira, 21 de Julho de 2010
Terça-feira, 20 de Julho de 2010
QUINTA COLUNA: por Fra Diavolo
Plástico
Os superintendentes da Polícia de Segurança Pública declararam-se chocados com uma inovação imposta pelo Governo socialista: a partir de agora, as divisas de posto que ostentam nos ombros vão ser feitas em plástico, e não em metal. Os distintivos em PVC "fazem parte de um fardamento mais novo, mais dinâmico, maleável e operacional", justificou um porta-voz policial. "Não faz sentido", ripostou um representante dos oficiais da PSP, invocando "a dimensão simbólica do poder". Ora, é precisamente aqui que bate a questão. Os senhores oficiais vêem a missão de polícia como uma função de Estado, dignificada por um código de defesa da ordem, do bem público e dos cidadãos. Para eles, ser polícia é usar a autoridade do Estado para fazer respeitar a legalidade e garantir a paz social. Nesta perspectiva, "ser polícia" implica estar-se investido de um poder moralmente fundamentado, ao serviço da Nação. Aqui cabem o sentido de responsabilidade no exercício da missão, o aprumo na apresentação, o garbo no desfile, o metal nas divisas. Não é este, contudo, o Estado de quem hoje nos governa. Desacreditado e sem palavra, já nem é bem um Estado, mas uma mera máquina. Perdeu os princípios fundadores, desvirtuou a missão, demitiu-se de responsabilidades, desistiu de ser. Nesta perspectiva, o que importa é ser "novo" e "maleável". Como o PVC. De plástico é a "filosofia" do poder, de plástico os governantes – e até, mais frequentemente do que seria desejável, de plástico se revelam os governados. Compreende-se a revolta dos superintendentes. Mas as novas divisas não são mais do que um reflexo do que está aí. E o que está aí é muito mau.
FOGO AMIGO: por António Marques Bessa
Na verdade, o que é a Nação?
De facto o que é a Nação? Na realidade tal facto histórico-social só conheceu tardiamente a sua incorporação no mito do sistema. Compreenda-se que os Reis dispensavam as nações ou as nações estavam ao seu serviço. O problema que vai ser colocado, muito mais tarde, é numa questão atípica na história da Europa.
Fartos de escutar discursos em que se invocam apenas “slogans” sobre “ a Nação”, os famosos “Discursos sobre a Nação”, logo depois os heróis da Nação, os traidores da Nação e mesmos novos heróis desportivos erguidos ao nível de um Cabral de um Camões.
Sendo um facto isto, nestes tempos do ciclo do povo, em que a memória é vaga, tremeluzente a ilusão, inseguro o destino, pouco provável o futuro, falar ainda no “discurso da Nação” parece-me não um abuso mas gozar com a cara dos portugueses, saloios como sempre. Só uns espertos, depois da implantação da República, é que se fizeram com aquilo que era deles, desde os baldios de aldeia até aos Conventos riquíssimos. O Alentejo é o que sabe graças a essas eminências pardas republicanas que se especializaram em exploração.
Mas, de facto o que é a Nação? Na realidade tal facto histórico-social só conheceu tardiamente a sua incorporação no mito do sistema. Compreenda-se que os Reis dispensavam as nações ou as nações estavam ao seu serviço. O problema que vai ser colocado, muito mais tarde, é numa questão atípica na história da Europa, dominada por Impérios que governavam vários povos, fazendo com que a sua convergência se acentuasse para o centro. Nestes casos está certamente Império Austro-Húngaro, notável, e da família Habsburg, o império Russo dos Romanov, o ascendeste da Prússia que iria criar uma notável besta, o Império Germânico, e, no mesmo sítio desde há muito tempo, o Império Britânico. Nas periferias vivia a França derrotada, a Espanha que desde a Armada só lambia feridas, Portugal que nunca teve nada a dizer, a Suécia, que tinha desistido de grandes empreendimentos para Sul, e a Itália, que se debatia entre um multitude de Estados e que só no século XIX conheceu a unidade.
Esse conceito obscuro de que Nação só depois foi teorizado pelo padre Syaes, mas principalmente por Renan, que encontrou em Malraux um homem que lhe deu um dimensão maior, é claro que sem esquecer os franceses que pensaram o problema como Maurice Barrès, o romancista do sangue e dos mortos, Maurice Bardèche, o homem que fez o processo de Nuremberga, Robert Brasillach, o grande poeta que foi fuzilado participando de certo modo no destino de Ezra Pound, o grande poeta estado-unidense, que eles mesmo encerraram numa gaiola como insano. Pound viu longe demais e escreveu poemas conta a usura.
A concepção de Nação, que já tinha sido estratificada como numa comunidade de mortos, vivos e por nascer, todos ligados por um elo, à maneira da marca céltica, deveria vir a ser assumida por Salazar, como documenta o autor francês da sua biografia, Ploncard d’Assac. Todavia André Malraux, autor de La Tentatation de L’Occident, ministro de De Gaulle, escreveu também a este respeito que a sua interpretação da Nação era a “comunidade de sonhos”, aquilo que se estava a fazer empenhadamente e o que se queria fazer no futuro. Apontava aqui para os vivos com herança, mas para o futuro nos sonhos sonhados por todos.
Então que Nação é esta. Um projecto de engenheiros, um acontecimento estratégico dos monges de Cluny, uma ambição de altos barões e Riba Minho, uma solução encontrada pelos homens de extrema Durii que mobilizaram os grandes senhores? Serão possibilidades deste leque de perguntas, mas o certo é que ratificações posteriores vieram dar consistência às escolhas iniciais por quem morreu muita gente, entre senhores e homens comuns. Mas quem não morreu na Batalha de Alfarrobeira, onde o cadáver de Dom Pedro ficou a apodrecer por causa do vigorar de intrigas na Corte que levaram ao confronto armado? E depois, em guerra contra Castela, quem se levanta? Lembro-me de Dom Nuno, de um Dom João, rapazes com poucas possibilidades que podiam cair num poço, como diz Fernão Lopes. Mas arriscaram. E o País está aí, dado por homens que morreriam e triunfaram.
Mas o Primeiro de Dezembro, hoje tão incómodo, é um desafio melhor: ao Império castelhano espalhado por toda a parte. Sabiam que com o povo estavam dispostos a oferecer a vida pela sua nação. Já se identificavam com a bandeira, com a Intenção, com o projecto de nos governarmos.
Depois disso só houve outro desafio à nossa fronteira e perdêmo-lo em 1975, depois de uma guerra em que o Exército, parece segundo P. Cann, fez o que lhe competia.
Remetidos ao nosso solo original, a tal nação de mortos-vivos, crianças e não nascidos, quem se atreve a falar hoje em nome da Nação?
Quem a traiu fortemente, quem pretende vendê-la depois de tudo?
Quem quer parecer o que não é? Quem não entende que a nação se modificou no processo de descolonização ao perder território, população e recursos?
Será que isso não se percebe?
Bom. É altura de devolver a elite a umas boas aulas de poder dos grandes poderes para perceberem onde estão: na posição de criados. Dispensáveis.
De facto o que é a Nação? Na realidade tal facto histórico-social só conheceu tardiamente a sua incorporação no mito do sistema. Compreenda-se que os Reis dispensavam as nações ou as nações estavam ao seu serviço. O problema que vai ser colocado, muito mais tarde, é numa questão atípica na história da Europa.
Fartos de escutar discursos em que se invocam apenas “slogans” sobre “ a Nação”, os famosos “Discursos sobre a Nação”, logo depois os heróis da Nação, os traidores da Nação e mesmos novos heróis desportivos erguidos ao nível de um Cabral de um Camões.
Sendo um facto isto, nestes tempos do ciclo do povo, em que a memória é vaga, tremeluzente a ilusão, inseguro o destino, pouco provável o futuro, falar ainda no “discurso da Nação” parece-me não um abuso mas gozar com a cara dos portugueses, saloios como sempre. Só uns espertos, depois da implantação da República, é que se fizeram com aquilo que era deles, desde os baldios de aldeia até aos Conventos riquíssimos. O Alentejo é o que sabe graças a essas eminências pardas republicanas que se especializaram em exploração.
Mas, de facto o que é a Nação? Na realidade tal facto histórico-social só conheceu tardiamente a sua incorporação no mito do sistema. Compreenda-se que os Reis dispensavam as nações ou as nações estavam ao seu serviço. O problema que vai ser colocado, muito mais tarde, é numa questão atípica na história da Europa, dominada por Impérios que governavam vários povos, fazendo com que a sua convergência se acentuasse para o centro. Nestes casos está certamente Império Austro-Húngaro, notável, e da família Habsburg, o império Russo dos Romanov, o ascendeste da Prússia que iria criar uma notável besta, o Império Germânico, e, no mesmo sítio desde há muito tempo, o Império Britânico. Nas periferias vivia a França derrotada, a Espanha que desde a Armada só lambia feridas, Portugal que nunca teve nada a dizer, a Suécia, que tinha desistido de grandes empreendimentos para Sul, e a Itália, que se debatia entre um multitude de Estados e que só no século XIX conheceu a unidade.
Que buscavam
Esse conceito obscuro de que Nação só depois foi teorizado pelo padre Syaes, mas principalmente por Renan, que encontrou em Malraux um homem que lhe deu um dimensão maior, é claro que sem esquecer os franceses que pensaram o problema como Maurice Barrès, o romancista do sangue e dos mortos, Maurice Bardèche, o homem que fez o processo de Nuremberga, Robert Brasillach, o grande poeta que foi fuzilado participando de certo modo no destino de Ezra Pound, o grande poeta estado-unidense, que eles mesmo encerraram numa gaiola como insano. Pound viu longe demais e escreveu poemas conta a usura.
A concepção de Nação, que já tinha sido estratificada como numa comunidade de mortos, vivos e por nascer, todos ligados por um elo, à maneira da marca céltica, deveria vir a ser assumida por Salazar, como documenta o autor francês da sua biografia, Ploncard d’Assac. Todavia André Malraux, autor de La Tentatation de L’Occident, ministro de De Gaulle, escreveu também a este respeito que a sua interpretação da Nação era a “comunidade de sonhos”, aquilo que se estava a fazer empenhadamente e o que se queria fazer no futuro. Apontava aqui para os vivos com herança, mas para o futuro nos sonhos sonhados por todos.
Então que Nação é esta. Um projecto de engenheiros, um acontecimento estratégico dos monges de Cluny, uma ambição de altos barões e Riba Minho, uma solução encontrada pelos homens de extrema Durii que mobilizaram os grandes senhores? Serão possibilidades deste leque de perguntas, mas o certo é que ratificações posteriores vieram dar consistência às escolhas iniciais por quem morreu muita gente, entre senhores e homens comuns. Mas quem não morreu na Batalha de Alfarrobeira, onde o cadáver de Dom Pedro ficou a apodrecer por causa do vigorar de intrigas na Corte que levaram ao confronto armado? E depois, em guerra contra Castela, quem se levanta? Lembro-me de Dom Nuno, de um Dom João, rapazes com poucas possibilidades que podiam cair num poço, como diz Fernão Lopes. Mas arriscaram. E o País está aí, dado por homens que morreriam e triunfaram.
Mas o Primeiro de Dezembro, hoje tão incómodo, é um desafio melhor: ao Império castelhano espalhado por toda a parte. Sabiam que com o povo estavam dispostos a oferecer a vida pela sua nação. Já se identificavam com a bandeira, com a Intenção, com o projecto de nos governarmos.
Depois disso só houve outro desafio à nossa fronteira e perdêmo-lo em 1975, depois de uma guerra em que o Exército, parece segundo P. Cann, fez o que lhe competia.
Remetidos ao nosso solo original, a tal nação de mortos-vivos, crianças e não nascidos, quem se atreve a falar hoje em nome da Nação?
Quem a traiu fortemente, quem pretende vendê-la depois de tudo?
Quem quer parecer o que não é? Quem não entende que a nação se modificou no processo de descolonização ao perder território, população e recursos?
Será que isso não se percebe?
Bom. É altura de devolver a elite a umas boas aulas de poder dos grandes poderes para perceberem onde estão: na posição de criados. Dispensáveis.
Segunda-feira, 19 de Julho de 2010
Quarta-feira, 14 de Julho de 2010
Terça-feira, 13 de Julho de 2010
QUINTA COLUNA: por Fra Diavolo
Princípios
Goste-se ou não se goste dele, há em Paulo Portas um sentido da dignidade política que é familiar aos grandes "partidos de princípios" da Europa Central e do Norte – os sólidos Partidos Conservadores que atravessaram o século XX e a primeira década do século XXI ancorados nas suas ideias, mesmo que para isso fossem forçados a menosprezar, por vezes, as lógicas eleitoralistas tão caras às sociais-democracias e aos socialismos. Essas ideias conservadoras são bem simples de resumir: reconhecimento do princípio natural da propriedade, Estado de Direito, ordem na vida social, seriedade orçamental, patrocínio da classe média, consciência de que o património que herdámos há-de ser transmitido (intacto ou melhorado) aos nossos herdeiros. É certo que no coração do líder do CDS/PP bate uma pulsão liberal, frequentemente ligada à pobre e gasta mitologia político-ideológica norte-americana. Mas este é um pecadilho conjuntural que não prejudica uma ética e uma estética conservadora, desde que considerado sob uma óptica "oportunista" de sobrevivência. No seu melhor e no seu pior, Paulo Portas é hoje, no espectro político parlamentar, o mais aceitável representante de uma perspectiva nacional. Isso mesmo acaba de ser provado com a revelação de que, nas vésperas da eleição de Passos Coelho para a liderança do PSD, Portas recusou ceder a uma proposta de "aliança" com Sócrates, tentada por este num encontro semi-clandestino em casa de Basílio Horta. Ofereciam a Paulo Portas um acordo de Governo, davam-lhe de bandeja o confortável lugar de ministro dos Negócios Estrangeiros. Tudo o que tinha a fazer era minar o território político, comprometendo a Direita numa cedência aos socialistas. Mas Portas não caiu na esparrela, invocando questões de princípios na política fiscal e social. Entretanto, com o avanço de Passos nas sondagens, sobem as vozes no PS favoráveis a alianças e a cedências à direita. Isto quer dizer que, se tivesse cedido aos desejos de Sócrates, o CDS/PP estaria hoje espaldado na classe política e protegido na opinião pública. Mas não cedeu, ainda que a custo de manter-se como terceira força política indexada à sinuosa política social-democrata. Fez mal? Do ponto de vista do acesso ao poder, fez. Fez bem? Do ponto de vista dos princípios, fez. E são os princípios, não a praxis, que distingue a Direita da Esquerda.
FOGO AMIGO: por António Marques Bessa
Os problemas da Madeira e as suas respostas
A Madeira e a sua Região, ao contrário dos Açores, fizeram uma mudança rápida, notável e cheia de promessas para um povo triste e pouco feliz. E a autonomia, pelas condições que criou, nomeadamente a estabilidade governativa que tanto engulho provoca, a gestão de recursos próprios, um governo inteligente e uma forte aposta em obras públicas, deram origem a uma dinâmica económica que a todos beneficiou.
Como tive oportunidade de dizer, nestes dias, no Arquipélago da Madeira, onde vim por convite directo do Senhor Presidente da Assembleia Regional da Região Autónoma, dei-me conta de novos desenvolvimentos no seu tecido económico.
Depois de muitos anos de abandono, a Madeira teve sorte. As ilhas vergavam sob o peso de uma política que restringia as sãs capacidades e o seu desenvolvimento social. Depois de um abandono absurdo pela Monarquia e pela República, que a retiveram como fornecedora de matérias primas, desde madeira, carne a cereais, desde açúcar a vinho fortificado, tal qual a política que se aplicou ao Brasil e espoletou a sua independência, despontou um sector de serviços novo em que já era forte e que se tornou decisivo para a economia portuguesa, por causa da entrada de divisas estrangeiras. O turismo fazia o seu aparecimento real como elemento essencial da economia local. Ele também afectou o Continente nos anos 70 a 90 com uma força insuspeita e foi tido como grande fonte de divisas para equilibrar as contas do Estado, juntamente com as remessas dos emigrantes, porque nessa altura Portugal não exportava quase nada e importava quase tudo, excepto os produtos básicos que vinham do Ultramar.
Mas o povo inventivo que se aventurou nos cumes da Atlântida conseguiu responder, apesar dos seus meios fracos e dos desafios sucessivos que teve de enfrentar para sobreviver como sociedade organizada. Não se pode dizer que não tivessem sido inventivos, que não encontrassem respostas entre cereais e gado, entre açúcar e vinho. O povo foi capaz de dar respostas a tempo, fazer o que tinha de fazer, e inventar soluções para a magreza da terra. As Américas foram o canal de escoamento, desde a Venezuela à África do Sul, para o excesso da forte demografia; e hoje a Região Autónoma da Madeira conta com uma comunidade sensível e forte desde Caracas ao Brasil, desde a África do Sul a áreas geográficas insuspeitas. Só falando com os descendentes nos damos conta das origens remotas donde vieram com tanta boa vontade até à Serra de Água, onde se comemorou o Dia da Autonomia e das Comunidades madeirenses (1 de Julho).
Por isso o povo da ilha da Madeira desde cedo começou a sair para buscar oportunidades nas Américas, que estavam do lado lá do Oceano, e a Sul para buscar um sul, no seu porto de acolhimento na África do Sul, e partindo depois para outros destinos mais convidativos ou regressando com o saco cheio. Os pontos que lhe pareceram favoráveis foram o seu atractivo, e isto mostra que raramente procuraram a Europa que todos encanta, descortinando horizontes de maior oportunidade..
Isto demonstra a existência na Ilha de gente aventureira e capaz de correr riscos, enquanto no Continente só viam a França nesse tempo e a Alemanha mais tarde. Podem-se comparar as oportunidades num lado e noutro e concluir pela superioridade da resposta madeirense, que viu em outras áreas um ponto de implantação fora da Europa dentro do triângulo atlântico, com facilidades para os seus saberes.
A Madeira e a sua Região, ao contrário dos Açores, fizeram uma mudança rápida, notável e cheia de promessas para um povo triste e pouco feliz. E a autonomia, pelas condições que criou, nomeadamente a estabilidade governativa que tanto engulho provoca, a gestão de recursos próprios, um governo inteligente e uma forte aposta em obras públicas, deram origem a uma dinâmica económica que a todos beneficiou.
Como tive oportunidade de dizer, nestes dias, no Arquipélago da Madeira, onde vim por convite directo do Senhor Presidente da Assembleia Regional da Região Autónoma, dei-me conta de novos desenvolvimentos no seu tecido económico.
Depois de muitos anos de abandono, a Madeira teve sorte. As ilhas vergavam sob o peso de uma política que restringia as sãs capacidades e o seu desenvolvimento social. Depois de um abandono absurdo pela Monarquia e pela República, que a retiveram como fornecedora de matérias primas, desde madeira, carne a cereais, desde açúcar a vinho fortificado, tal qual a política que se aplicou ao Brasil e espoletou a sua independência, despontou um sector de serviços novo em que já era forte e que se tornou decisivo para a economia portuguesa, por causa da entrada de divisas estrangeiras. O turismo fazia o seu aparecimento real como elemento essencial da economia local. Ele também afectou o Continente nos anos 70 a 90 com uma força insuspeita e foi tido como grande fonte de divisas para equilibrar as contas do Estado, juntamente com as remessas dos emigrantes, porque nessa altura Portugal não exportava quase nada e importava quase tudo, excepto os produtos básicos que vinham do Ultramar.
Mas o povo inventivo que se aventurou nos cumes da Atlântida conseguiu responder, apesar dos seus meios fracos e dos desafios sucessivos que teve de enfrentar para sobreviver como sociedade organizada. Não se pode dizer que não tivessem sido inventivos, que não encontrassem respostas entre cereais e gado, entre açúcar e vinho. O povo foi capaz de dar respostas a tempo, fazer o que tinha de fazer, e inventar soluções para a magreza da terra. As Américas foram o canal de escoamento, desde a Venezuela à África do Sul, para o excesso da forte demografia; e hoje a Região Autónoma da Madeira conta com uma comunidade sensível e forte desde Caracas ao Brasil, desde a África do Sul a áreas geográficas insuspeitas. Só falando com os descendentes nos damos conta das origens remotas donde vieram com tanta boa vontade até à Serra de Água, onde se comemorou o Dia da Autonomia e das Comunidades madeirenses (1 de Julho).
Por isso o povo da ilha da Madeira desde cedo começou a sair para buscar oportunidades nas Américas, que estavam do lado lá do Oceano, e a Sul para buscar um sul, no seu porto de acolhimento na África do Sul, e partindo depois para outros destinos mais convidativos ou regressando com o saco cheio. Os pontos que lhe pareceram favoráveis foram o seu atractivo, e isto mostra que raramente procuraram a Europa que todos encanta, descortinando horizontes de maior oportunidade..
Isto demonstra a existência na Ilha de gente aventureira e capaz de correr riscos, enquanto no Continente só viam a França nesse tempo e a Alemanha mais tarde. Podem-se comparar as oportunidades num lado e noutro e concluir pela superioridade da resposta madeirense, que viu em outras áreas um ponto de implantação fora da Europa dentro do triângulo atlântico, com facilidades para os seus saberes.
Portanto, não só os habitantes responderam em conjunturas variáveis com produções estratégicas, mas foram capazes de identificar novas oportunidades para a sua sobrevivência e o progresso das suas famílias.
A autonomia
Entretanto, a IV República reconheceu que os Arquipélagos tinham as suas reais capacidades e não podiam ser governados exclusivamente de Lisboa. Com todas as actuais dificuldades e legislação insuficiente para que haja uma real autonomia, o facto é que com a autonomia restringida que o Arquipélago conheceu foi possível criar um novo tipo de desenvolvimento com os factores já conhecidos (e eram aqueles que lhe travavam o seu desenvolvimento). O nível de vida subiu? A resposta só poder ser: sim. O rendimento per capita subiu? Sim. A qualidade de vida no quotidiano melhorou? Melhorou.
A Madeira e a sua Região, ao contrário dos Açores, fizeram uma mudança rápida, notável e cheia de promessas para um povo triste e pouco feliz.
E a autonomia, pelas condições que criou, nomeadamente a estabilidade governativa que tanto engulho provoca, a gestão de recursos próprios, um governo inteligente e uma forte aposta em obras públicas, deram origem a uma dinâmica económica que a todos beneficiou.
Desenvolvimento
E o que é que mudou, actualmente, na Madeira?
A classe política mudou substancialmente as condições em que a sociedade passou a desenvolver-se social, educativa e civicamente. A estabilidade da classe governativa é uma das razões pelas quais se verificou este progresso, porque a instabilidade pode provocar fortes abalos na linha de desenvolvimento das comunidades e das sociedades em desenvolvimento, que carecem de linhas claras de acção. O que se verificou foi que as principais linhas promovidas pelo Governo Regional foram desenvolvidas e aplicadas com rigor e, na realidade, corresponderam a melhoramentos na vida do povo comum com impacto directo na sua maneira de viver o quotidiano. A melhoria qualitativa da classe política provada por estudos académicos (Albertina Henriques) deu azo a que essa classe política se aproximasse do povo e auscultasse as suas aspirações e o pudesse satisfazer na medida em que lhe foi possível. Não há dúvida alguma de que, numa história alternativa, sem Alberto João Jardim, a história seria outra. Provavelmente estariam como ilhas adjacentes dos Açores, onde não havia acesso a bens continentais e as pessoas viveriam com algumas dificuldade como se sente em certas ilhas extremamente ruralizadas.
O que é que mudou tudo isso?
O que mudou as condições económicas desenvolvimentistas foi francamente a autonomia da Região Autónoma da Madeira, que passou a controlar um conjunto de instrumentos com que pôde gerir o seu património com parcimónia e inteligência. Uma elite estável apoiada pelo povo é sempre um instrumento essencial para a mudança social e económica da sua região. Estudos feitos sobre essa matéria mostraram que a elite política se qualificou academicamente, não havendo nada que se possa citar sobre a elite económica dessa mesma ilha, o que é de lamentar, porque mereceria um estudo próprio.
Obras públicas
Maynard Keynes sempre disse que, em momentos de crise com desemprego e inflação (dinheiro caro e subida de preços), torna-se necessário (Robert Skidelsky, “Keynes, O Regresso do Mestre”, 2010) investir em obras de interesse público. E ele é hoje talvez um dos economistas mais actuais do nosso tempo sem que para isso tenha feito nada. E que obras nesta perspectiva se fizeram na Madeira?
Na Madeira vimos como os investimentos públicos foram efectuados antes da grande enxurrada e, depois disso, voltamos a verificar o que se está a realizar. Não há dúvida de que uma política keynesiana cautelosa, novamente na moda, é um ponto de referência para o Presidente da Madeira e que a entende como uma política a seguir na Europa que apenas se preocupa com problemas financeiros como se a contenção resolvesse os problemas económicos sentidos e a política de retenção de despesas e forte penalização nos impostos fosse capaz de deter a decadência. Cipolla tratou disso e mostrou de forma irrefutável que isso só gera mais decadência. A economia, efectivamente, não é um problema estritamente financeiro. Depende de variadíssimos factores. O financeiro é um deles, mas não é o essencial.
Na realidade, as obras inscritas no programa madeirense criaram um mercado único, criaram um sistema de transportes rápidos e eficazes, que é prévio ao desenvolvimento do mercado entre norte e sul, mas que também foi um factor de desenvolvimento para a rede viária, os transportes, o consumo de combustíveis e de compra de veículos. Para lá disso, as empresas construtoras puderam testar esquemas de engenharia voltados para a construção de túneis e pontes que hoje tornam uma viagem entre localidades, que consumiam longas horas por estradas rurais, em verdadeiros desfrutes de paisagem.
Como sempre se disse desde Gonzalo Cellorigo: “Los que pueden no quieren e los que quieren no pueden”. Este é um epitáfio que se pode começar a inscrever na lápide de qualquer país a agonizar. Não será isto mesmo aquilo que não se fez na Região Autónoma da Madeira? Os que podem querem e os que não podem continuam a querer. Não será isso uma lição para o Continente, tão orgulhoso dos seus contactos com um bando de adiantados mentais que se passeiam na Europa a dizer mentiras aos Povos? “Los que pueden no quieren e los que quieren no pueden”. Mas não há nada como a resposta de Keynes, no leito de morte, a quem lhe perguntou o que faria de diverso na vida. Simplesmente respondeu: “Teria bebido mais champanhe”. Aprendamos, entretanto, alguma coisa com ele para lá desta charla: é saber como uma teoria em que a moeda é importante se transformou numa teoria em que a moeda não é muito importante.
E isso devia ser compreendido agora na Europa. Enquanto há tempo.
Segunda-feira, 12 de Julho de 2010
Exemplo de sensatez e coragem
O protagonista é sobejamente conhecido. Foi eleito deputado em 1985, fez parte do governo de Cavaco Silva, foi vereador em Lisboa, presidente da Câmara de Tavira e actualmente é presidente da edilidade de Faro. Em comunicado recente, Macário Correia, justificando a razão de restringir o tempo para café dos funcionários, refere: "Os serviços municipais têm milhares de processos atrasados. Cidadãos e empresas esperam ansiosamente por respostas. Entretanto, dezenas de funcionários passam horas do tempo de serviço pago pelos contribuintes em amena conversa nos bares.". E conclui: "uma ética e um sentido de responsabilidade elementares não permitem estas situações".
Sexta-feira, 9 de Julho de 2010
Quarta-feira, 7 de Julho de 2010
Terça-feira, 6 de Julho de 2010
QUINTA COLUNA: por Fra Diavolo
A bola
Estreou no último fim-de-semana uma nova telenovela nacional: o palpitante mistério do filho de Cristiano Ronaldo. Num país que atravessa as dificuldades e as angústias que todos conhecemos, o caso imediatamente se tornou o principal tema dos noticiários. Compreende-se: a Comunicação Social está cá para nos anestesiar, não para nos apoquentar com pequenas maçadas da vida real como o desemprego, o colapso da economia ou os impostos retroactivos. O caso do futebolista Cristiano Ronaldo merece uma reflexão aprofundada, pelo triste papel que desempenha hoje em dia na sociedade portuguesa. O relevo desmesurado, empolado, constante e insistente que é dado às habilidades pedícolas de um jogador da bola retrata, por si só, o pobre nível a que tudo isto chegou – incluindo neste "tudo" o próprio Estado, que dá ao circo uma importância que ele não tem e se aproveita habilmente da demência geral. Visto em profundidade, contudo, o fenómeno é ainda mais grave. Um catedrático da Universidade do Minho, com um longo historial académico de análise da alta competição, disse há dias numa entrevista que, no imaginário mítico português, "Ronaldo começa a ser o D. Sebastião". Podem faltar o pão, a justiça, a família e o lar, a educação, a segurança – desde que não nos falte um Ronaldo, símbolo daquilo que se quer alcançar sem mexer um dedo. Só isto explica que, num país onde o patriotismo foi encafuado na gaveta da vergonha, um jogo de bola faça sairem à rua as bandeiras da República e aflorar às bocas, em vão, o nome de Portugal. Onde quereremos chegar? À insanidade total? Ao modelo perfeito da alienação? É, temos de admiti-lo, uma forte possibilidade. Nem de outra maneira se compreende que o treinador de futebol da chamada Selecção ganhe de ordenado, num só mês, aquilo que o Presidente da República ganha num ano inteiro. E que toda a gente ache "normal".
FOGO AMIGO: por António Marques Bessa
O mito do estrangeiro
Definitivamente, aqui não se prospera: definha-se. Porque a elite política nunca soube despertar para criar aqui uma pequena Bélgica, ou uma Holanda maior. A elite soube roubar, atafulhar-se em lixo, manter a população analfabetizada e, com alguma sorte, deixar sair umas quantas cabeças para o estrangeiro quando a fome apertava.
Conta o economista checo Radolav Selucky no seu livro “O modelo Checoslovaco de Socialismo” que, depois da queda do comunismo, o povo checo descobriu que se encontrava arruinado e pobre. A segunda evidência era que tinha de fazer esforços extraordinários para alcançar de novo a antiga prosperidade e levantar a economia nacional. E a economia, que assentava na indústria ligeira, fora obrigada pelas imposições soviéticas a orientar-se para a indústria pesada, o que se revelou desastroso. Mas mais: os minérios, como o carvão e o urânio, deveriam ser vendidos a preço mais baixo que o praticado no mercado.
Selucky escreve: “não é por acaso que a evolução a partir de 1968 se tenha caracterizado, não pela mera negação do passado, mas sim por um programa positivo. Também não é uma casualidade que o povo checo, ao inteirar-se das fortes perdas morais e materiais, cuja responsabilidade cabia à velha direcção comunista, estivesse disposto a sacrificar-se voluntariamente”. Na verdade, o povo apoiou Dubcek e estes acontecimentos naqueles tempos não servem apenas para nós tecermos louvores à persistência checa. Servem sobretudo para verificar como um povo bom, operoso, cumpridor da lei e muito culto, pode ser enganado por uma máfia de comunistas e ser iludido na sua boa fé. O entusiasmo daquela primavera de Praga foi de curta duração, porque os tanques soviéticos repuseram a velha ordem retrógrada que o povo queria sacudir.
Interessa, no entanto, recordar estas experiências de socialismo de rosto humano para lembrar que também os checos contaram muito com o estrangeiro para os ajudar a manter o seu modelo revolucionário e ainda para os livrar das pressões de Moscovo. A esperança dos checos também morre aqui. Os tais estrangeiros para quem apelavam chegaram com bandeiras vermelhas, não para lhes dar o que queriam, mas para lhes impor o que não queriam.
É curioso notar que, depois de um tempo em que se manteve que tudo o que vinha de fora era mau, passou-se ao oposto: só o que vem de fora é bom. Das teses de Doutoramento às invenções, às modas, à alimentação, às máquinas, às ideias. É no estrangeiro que se evolui, é o estrangeiro que nos pode salvar da ruína, é o estrangeiro que encerra a esperança de ter uma vida melhor, enfim, é no estrangeiro que é o paraíso. Desconfiando que não é preciso viver num vale de lágrimas, os portugueses, seguindo uma via utópica muito sua, identificam o lugar das suas delícias em vários pontos do globo, conforme a propaganda que os atingiu ou o sonho em que embarcaram. Definitivamente, aqui não se prospera: definha-se. Porque a elite política nunca soube despertar para criar aqui uma pequena Bélgica, ou uma Holanda maior. A elite soube roubar, atafulhar-se em lixo, manter a população analfabetizada e, com alguma sorte, deixar sair umas quantas cabeças para o estrangeiro quando a fome apertava.
O resto do pessoal ficou agarrado ao Pai Natal; à espera de que aparecesse uma solução, porque não lhes passava pela cabeça que não havia solução com a gente que aqui estava. A geografia que produziu os Gamas também produziu gente perversa e má. Esta gente, por não haver mais sítio, resolveu que a salvação era a Europa. Daí vinham todos os bens e as soluções que nos tornariam ricos. Erro trágico, de novo. O estrangeiro não dá nada aos pobretanas. Tira-lhes o que eles têm. E é falsa a ideia de que devem ser os europeus a alimentar-nos, a pagar as nossas contas, a manter-nos com um arremedo de soberania.
Bons guias para uma excursão às fontes das nossas fraquezas e manias são, certamente, Lima de Freitas, Eduardo Lourenço, Agostinho da Silva e mesmo Jorge Dias. A interpretação que Jorge Dias oferece dos portugueses, que é difícil de contrariar, é de facto pouco louvável. Veja-se: “O português gosta de fazer projectos vagos, castelos no ar, que não pensa realizar. Mas no seu íntimo alberga uma certa esperança de que as coisas aconteçam milagrosamente”. Estas palavras do antropólogo experimentado e sabedor do carácter nacional vêm ao encontro daqueles que nos descreveram como preguiçosos, esperistas, sem veia. Como escreveu Pessoa a nosso respeito: “Como é bom esperar por Dom Sebastião, quer ele venha ou não”. Como não sabem hoje em dia quem faz milagres, os portugueses esperam-nos dos feirantes que vendem banha de cobra, dos propagandistas da pomada indiana, dos estrangeiros que vêm criar empresas e dos políticos que lhes mentem todos os dias com quantos dentes têm.
Perdemos seguramente qualidades, porque a melhor genética foi-se embora em ”guerras esforçadas”, esgotou-se no povoamento de terras distantes, ficando para trás os timoratos que se reproduziram como coelhos. E hoje temos os que ficámos, um grupo com fraca dotação. Mas não é ainda esta a opinião do antropólogo. Ele quer dizer-nos que, “ao contrário do que muitos disseram, o português não degenerou. As virtudes e os defeitos mantiveram-se os mesmos através de séculos, simplesmente as suas reacções é que variam conforme as circunstâncias históricas. Se estas são favoráveis, ele actua e explora. Se são difíceis ele desanima, “esmorece e só caminha na medida em que a conservação da existência o impele”.
Seria bom que acabássemos com o mito do estrangeiro e passássemos a acreditar no mito Portugal.
Definitivamente, aqui não se prospera: definha-se. Porque a elite política nunca soube despertar para criar aqui uma pequena Bélgica, ou uma Holanda maior. A elite soube roubar, atafulhar-se em lixo, manter a população analfabetizada e, com alguma sorte, deixar sair umas quantas cabeças para o estrangeiro quando a fome apertava.
Conta o economista checo Radolav Selucky no seu livro “O modelo Checoslovaco de Socialismo” que, depois da queda do comunismo, o povo checo descobriu que se encontrava arruinado e pobre. A segunda evidência era que tinha de fazer esforços extraordinários para alcançar de novo a antiga prosperidade e levantar a economia nacional. E a economia, que assentava na indústria ligeira, fora obrigada pelas imposições soviéticas a orientar-se para a indústria pesada, o que se revelou desastroso. Mas mais: os minérios, como o carvão e o urânio, deveriam ser vendidos a preço mais baixo que o praticado no mercado.
Selucky escreve: “não é por acaso que a evolução a partir de 1968 se tenha caracterizado, não pela mera negação do passado, mas sim por um programa positivo. Também não é uma casualidade que o povo checo, ao inteirar-se das fortes perdas morais e materiais, cuja responsabilidade cabia à velha direcção comunista, estivesse disposto a sacrificar-se voluntariamente”. Na verdade, o povo apoiou Dubcek e estes acontecimentos naqueles tempos não servem apenas para nós tecermos louvores à persistência checa. Servem sobretudo para verificar como um povo bom, operoso, cumpridor da lei e muito culto, pode ser enganado por uma máfia de comunistas e ser iludido na sua boa fé. O entusiasmo daquela primavera de Praga foi de curta duração, porque os tanques soviéticos repuseram a velha ordem retrógrada que o povo queria sacudir.
Interessa, no entanto, recordar estas experiências de socialismo de rosto humano para lembrar que também os checos contaram muito com o estrangeiro para os ajudar a manter o seu modelo revolucionário e ainda para os livrar das pressões de Moscovo. A esperança dos checos também morre aqui. Os tais estrangeiros para quem apelavam chegaram com bandeiras vermelhas, não para lhes dar o que queriam, mas para lhes impor o que não queriam.
O estrangeiro de Portugal
É curioso notar que, depois de um tempo em que se manteve que tudo o que vinha de fora era mau, passou-se ao oposto: só o que vem de fora é bom. Das teses de Doutoramento às invenções, às modas, à alimentação, às máquinas, às ideias. É no estrangeiro que se evolui, é o estrangeiro que nos pode salvar da ruína, é o estrangeiro que encerra a esperança de ter uma vida melhor, enfim, é no estrangeiro que é o paraíso. Desconfiando que não é preciso viver num vale de lágrimas, os portugueses, seguindo uma via utópica muito sua, identificam o lugar das suas delícias em vários pontos do globo, conforme a propaganda que os atingiu ou o sonho em que embarcaram. Definitivamente, aqui não se prospera: definha-se. Porque a elite política nunca soube despertar para criar aqui uma pequena Bélgica, ou uma Holanda maior. A elite soube roubar, atafulhar-se em lixo, manter a população analfabetizada e, com alguma sorte, deixar sair umas quantas cabeças para o estrangeiro quando a fome apertava.
O resto do pessoal ficou agarrado ao Pai Natal; à espera de que aparecesse uma solução, porque não lhes passava pela cabeça que não havia solução com a gente que aqui estava. A geografia que produziu os Gamas também produziu gente perversa e má. Esta gente, por não haver mais sítio, resolveu que a salvação era a Europa. Daí vinham todos os bens e as soluções que nos tornariam ricos. Erro trágico, de novo. O estrangeiro não dá nada aos pobretanas. Tira-lhes o que eles têm. E é falsa a ideia de que devem ser os europeus a alimentar-nos, a pagar as nossas contas, a manter-nos com um arremedo de soberania.
Uma interpretação
Bons guias para uma excursão às fontes das nossas fraquezas e manias são, certamente, Lima de Freitas, Eduardo Lourenço, Agostinho da Silva e mesmo Jorge Dias. A interpretação que Jorge Dias oferece dos portugueses, que é difícil de contrariar, é de facto pouco louvável. Veja-se: “O português gosta de fazer projectos vagos, castelos no ar, que não pensa realizar. Mas no seu íntimo alberga uma certa esperança de que as coisas aconteçam milagrosamente”. Estas palavras do antropólogo experimentado e sabedor do carácter nacional vêm ao encontro daqueles que nos descreveram como preguiçosos, esperistas, sem veia. Como escreveu Pessoa a nosso respeito: “Como é bom esperar por Dom Sebastião, quer ele venha ou não”. Como não sabem hoje em dia quem faz milagres, os portugueses esperam-nos dos feirantes que vendem banha de cobra, dos propagandistas da pomada indiana, dos estrangeiros que vêm criar empresas e dos políticos que lhes mentem todos os dias com quantos dentes têm.
Perdemos seguramente qualidades, porque a melhor genética foi-se embora em ”guerras esforçadas”, esgotou-se no povoamento de terras distantes, ficando para trás os timoratos que se reproduziram como coelhos. E hoje temos os que ficámos, um grupo com fraca dotação. Mas não é ainda esta a opinião do antropólogo. Ele quer dizer-nos que, “ao contrário do que muitos disseram, o português não degenerou. As virtudes e os defeitos mantiveram-se os mesmos através de séculos, simplesmente as suas reacções é que variam conforme as circunstâncias históricas. Se estas são favoráveis, ele actua e explora. Se são difíceis ele desanima, “esmorece e só caminha na medida em que a conservação da existência o impele”.
Seria bom que acabássemos com o mito do estrangeiro e passássemos a acreditar no mito Portugal.
Segunda-feira, 5 de Julho de 2010
Sexta-feira, 2 de Julho de 2010
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