Terça-feira, 28 de Setembro de 2010

QUINTA COLUNA: por Fra Diavolo



Maioria silenciosa

Completam-se hoje 36 anos sobre a golpada comunista de 28 de Setembro. O caso, há muito enterrado na má memória do país político, continua a constituir uma lição. Portugal saíra havia cinco meses de um golpe de Estado e caminhava a passos largos para o caos que haveria de dar lugar a uma ditadura controlada, a partir da Rua António Serpa, pelo Comité Central de Cunhal. Depois de se enaltecer numa falsa Presidência, em Belém, Spínola caía em si e percebia que em nada mandava, nem mesmo nos miríficos planos de “descolonização faseada” com que se insinuara no Movimento dos Capitães. À esquerda, ansiava-se pelo abandono imediato das províncias do Ultramar: uns por obediência ao patronato soviético, outros por fidelidade ideológica, outros por indicação dos Estados Unidos, outros porque sim. Atada, porém, à incómoda “democracia” (que ainda ia permitindo que se ouvissem vozes discordantes), a esquerda perdera a paciência. Chegara a hora da verdade. Spínola deu-lhe o pretexto, ao reclamar para si a condução da “descolonização”. Confrontado com o 'não' rotundo da Comissão Coordenadora do MFA, voltou-se finalmente para o povo, para a “maioria silenciosa”, cuja manifestação pública se agendou para 28 de Setembro de 1974. Sabemos o que sucedeu: Lisboa foi cercada por “barricadas”, Spínola teve de demitir-se, o Copcon do camarada Otelo aproveitou para calar e prender intelectuais, militares inconformados, empresários e outros “fascistas” em geral – e os próprios socialistas começaram a saborear o travo amargo destas “amplas liberdades”. Outras golpadas se seguiriam, até à “normalização democrática” de Novembro de 1975. Mas algo se fixou ali no código genético do regime, para não mais o abandonar: o desprezo real da “maioria silenciosa”, a desconsideração da voz profunda da Nação, enredada a partir de então nas teias de um sistema que conduziu ao Portugal amordaçado, com lenço de fina seda, em que hoje ainda vivemos.

FOGO AMIGO: por António Marques Bessa

As guerras inúteis

É ilusório pensar que há um modo americano de fazer a guerra. Se houvesse, jamais se teriam metido no atoleiro do Sudeste Asiático, perdendo a guerra para o Vietname do Norte. Não se teriam metido no vespeiro do Iraque. Evitariam cair no caos tribal do Afeganistão. Mas mais: não desafiariam um Irão teocrático, porque a guerra em nome de Deus é a mais terrível que se pode travar, justamente porque carece de racionalidade ou limites

Desde há séculos que se fazem guerras inúteis, se praticam morticínios sem sentido, se corre ao armamento, sem descanso.
Pensa-se que é uma actividade inerente ao ser humano e a todas as sociedades, civilizadas ou não. Num afã ainda em grande parte envolto em mistério, os homens organizados desenvolveram técnicas de matança à distância. E, enquanto uns se concentravam em melhorar as carapaças de defesa, os outros estudavam afincadamente um método de as penetrar.
Este irracionalismo que caracteriza a guerra e todos os fenómenos desagradáveis associados a ela é difícil de compreender, a não ser que se invoque uma desconfiança primordial entre vizinhos, entre sociedades próximas e distantes.

A inutilidade da expansão

Parece haver uma tendência amplamente territorial que explica em parte o afã de controlo e de defesa e mesmo de ataque preventivo. O território que uma sociedade detém é onde vive a população, onde se constrói a cultura e se enterram os mortos. Quando o território ascende ao notável significado de Pátria, ganha uma dimensão mítica e passa a justificar acções expeditas para o defender ou alargar.
Compreende-se que o território é essencial, até aos animais que o defendem de intrusões abusivas, e que os animais como o homem são claramente territoriais. E existe a possibilidade de que se localize aqui a origem de todos os males: na natureza dos animais e dos homens.
Se há alguma coisa que possamos aprender na História é que todas as expansões acabaram mal. Tiveram um epílogo que pôs fim à sua dinâmica inicial.
Verifica-se que os romanos tinham pouco que fazer na Grã-Bretanha, a não ser a muralha de Adriano, mas a guerra naquela fronteira nova foi dura. O limes germânico só trouxe aborrecimentos para o Império e ditou a sua sentença de morte. A fronteira do Médio Oriente com que andavam obcecados, ocupando a Judeia, a Síria e a Mesopotâmia, foi outra frente de derrotas. Por fim tudo acabou e os bárbaros venceram.

Os erros dos americanos

Tem importância notar estes pontos, por eles parecerem ilustrar a ilusão americana. O poder político dos USA convenceu-se de que tem o governo do Mundo e que existem fronteiras de contenção que é necessário defender. Para lá disso, sabem que os bárbaros existem e que não são uma ficção. Ora, se há uma coisa que deveríamos ter aprendido é que não se acordam os bárbaros, não se contratam bárbaros para o Exército. E o proletariado externo tem ficar para lá do limes. Os americanos cometeram todos erros que vêm no catálogo daquilo que não se deve fazer.
Assim se envolveram em guerras inúteis, provando a sua fraqueza e revelando as suas debilidades. É ilusório pensar que há um modo americano de fazer a guerra, porque o que existe é apenas um modo americano de pensar o poder no mundo. É que se houvesse esse modo americano de fazer a guerra, jamais se teriam metido no atoleiro do Sudeste Asiático, perdendo a guerra para o Vietname do Norte. Não se teriam metido no vespeiro do Iraque, convocando aliados forçados, só para evitar um mal menor. É claro que criaram a desorganização no território e a chacina desorganizada, que é pior que a chacina organizada. Evitariam cair no caos tribal do Afeganistão, donde saíram derrotados os Ingleses e depois os Russos, fazendo fé que seriam eles os únicos cavaleiros imaculados a levar a ordem onde sempre reinou a desordem. Mas mais: não desafiariam um Irão teocrático, porque a guerra em nome de Deus é a mais terrível que se pode travar, justamente porque carece de racionalidade ou limites.

Brincadeira antiga

O império entrou na fase das guerras e fronteiras inúteis. O último erro foi andar atrás do Cáucaso a brincar a uma brincadeira muito antiga chamada Great Game (o grande jogo) que o Império Britânico jogou e perdeu. Para espreitar a Rússia das alturas do Cáucaso e impedir-lhe o caminho para mares quentes não é preciso imiscuir-se nas guerrinhas do Cáucaso, retalhado em pseudo-Estados, restos de províncias do Império Soviético.
São demasiados erros nestas últimas Administrações norte-americanas para se aceitar a tese do Império: que devemos colaborar com ele para assegurar a Ordem Mundial. O mais grave de tudo é que os europeus fingem acreditar na receita. E há os entusiastas saudosos, como a Alemanha e a Grã-Bretanha. E os palermas como Portugal e outros pequenos e falidos Estados europeus. E isso é que é realmente grave, porque representa o cúmulo da inutilidade: perder as suas guerras para ir participar nas dos outros.

Terça-feira, 21 de Setembro de 2010

QUINTA COLUNA: por Fra Diavolo

Respeitar a terra

Os fogos florestais dizem tudo sobre a capacidade governativa dos políticos que há décadas mandam em Portugal. Há zonas do País onde, nos últimos 34 anos, os incêndios se repetem e repetem, sem que uma palha seja mexida para que não voltem a repetir-se. Algumas já arderam 14 vezes ao longo desse período – isto é, são ciclicamente dizimadas a intervalos de dois anos e meio. Temos a Autoridade Florestal Nacional para planear, a Protecção Civil para precaver, a GNR para policiar, a PJ para investigar, mas tudo continua a cair no regaço dos bombeiros, que não podem fazer mais do que proceder ao rescaldo. Há nisto algo mais do que desmazelo e incúria: há desprezo pelo valor facial da terra, pelo seu sentido patrimonial e cultural, pelo seu carácter nacional e simbólico. Há nisto o sinal da indiferença perante a Nação que herdámos, da falta de responsabilidade perante o curso da História. E há, já todos percebemos, um imenso preconceito em relação à faina dos campos, faina que os socialismos diabolizaram como inimiga do “progresso” e do “desenvolvimento”. Só esta estreita visão pequeno-burguesa e citadina da terra explica, de resto, os crimes que têm sido cometidos contra a agricultura – pagando-se aos lavradores para arrancarem vinha e árvores seculares, para abandonarem culturas ancestrais e, tendencialmente, para abandonarem de todo o amanho das terras e a produção do pão de cada dia. Também só esta cegueira explica que o actual Governo tenha desperdiçado 140 milhões de euros comunitários destinados aos agricultores e que, por omissão e desleixo burocrático, não mais poderemos reclamar. Terras ao abandono, florestas em chamas, tudo advém da mesma óptica mesquinha e da mesma falta de respeito pelo Portugal que nos foi deixado pelos antepassados. Tudo resulta da falta de perspectiva histórica, da ignorância e da incapacidade desta “classe política” que ofende a palavra “classe” e desonra a palavra “política”. Essa mesma que nós, na nossa cumplicidade, vamos entronizando de quatro em quatro anos.

FOGO AMIGO: por António Marques Bessa

Sempre a Dívida e o Resto

Desde a descolonização os governantes dos portugueses esqueceram-se cuidadosamente que deixaram de ter poder sobre imensos territórios cheios de recursos, que passaram de mão. E continuaram a governar como se representassem um País com importância, gastando sem medir.

Tudo indica que regressámos a um tempo perdido nos escassos cem anos da Velha Senhora. Ou seja: à Dívida. Foi disso que os sucessivos governos da República burguesa se ocuparam e discutiram arduamente. Na realidade não tinham sítios para ir buscar dinheiro, os funcionários públicos recebiam quando recebiam, os ministérios arfavam sobre o peso da falta de cacau. E logo argumentavam que não podiam fazer nada porque não existiam meios. A dívida afogava a Governação, a burocracia nomeada pelos ministros, a pequena burocracia das vilas pacóvias. Não havia liquidez. Fomos para a I Guerra quase desarmados, com um exército miserável de rotos e espoliados, que quase lá deixaram todos os ossos. Nem sequer, nessa miserabilidade, se pensou que não podíamos ir para as trincheiras da Bélgica para travar alemães.

O intervalo

A Ditadura fez a diferença. Começou por se preocupar em equilibrar as contas do Estado, mas a verdade é que os militares de bigodinhos estavam fartos dos autopromovidos deputados, ministros e toda a corja humana que trepou pela escada do poleiro. Sidónio Pais tinha dado uma pequena mostra de enfado para pagar com a vida o atrevimento de tentar corrigir as coisas desmanteladas. Os outros militares perceberam e agiram escorraçando a escumalha que se tinha acumulado por toda a parte, com palavra suave e cacete forte.
A Ditadura sofria do problema que Finner diagnosticou aos militares. O complexo da incompetência. Foram preparados para receber ordens de cima e não para dá-las, mas, mais que isso, não tinham noção de como lidar com os civis. É aí que aparece a equipa do CADC de Coimbra, uma elite política nova e decidida, campónia, pobre mas rica em ideias de como fazer o conserto daquilo que tinha descarrilado.
Erros sobre erros foram cometidos, mas a dívida foi estancada e, na altura devida, uma moeda em prata de 20 Escudos foi cunhada inserindo o termo “Ressurgimento”, com o complemento que se pode ainda hoje ler “Renovação Financeira”. Ano: 1953. Quem mandou a fazer a Moeda sabia que o saneamento estava feito e duraria, acumulando na linha do Haver o suficiente para pagar tudo e não Dever nada a ninguém. A República foi perita a despender somas de um País pobre e atrasado, colocando-o atrás de todos os europeus e dando origem a uma palavra que ameaça regressar – “portugaliser” –, que é horrível e diz tudo de mau sobre o País em que nascemos. Hoje pertencemos aos PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia, Espanha), o que não é melhor, nem ninguém pode festejar, embora a Irlanda seja um País superiormente governado e dotado de um povo educado e limpo.

Mais do mesmo

Desde a descolonização os governantes dos portugueses esqueceram-se cuidadosamente que deixaram de ter poder sobre imensos territórios cheios de recursos, que passaram de mão. E continuaram a governar como se representassem um País com importância, gastando sem medir. Na verdade não conseguirão convencer qualquer cidadão inteligente que é preciso tanto dinheiro para administrar 10 milhões de pessoas, que cabiam numa Cidade como São Paulo ou Singapura.
A elite também piorou de qualidade, o que veio a gerar uma despesa pública brutal e a reivindicação assustadora de direitos e mais direitos, ninguém contando que para garantir direitos sociais se torna necessário ter meios financeiros. É fácil falar; mas o difícil é tornar as promessas coisas reais, palpáveis. Os portugueses deviam perceber que estão a regressar aos primeiros anos da República: a mentira tornou-se banal, a violência subiu em flecha, a insegurança aumentou, o número de tascas supera o número de escolas. Só faltam os pelotões independentes de execução de pessoas em casa, pela calada da noite.
O que acontece de desagradável é que Portugal está a chamar a atenção dos europeus pelas piores razões: não cumprimento de metas acordadas, incapacidade de compromisso, camadas de privilégios nos altos funcionários a partir do minúsculo e invisível director-geral, obras faraónicas de imbecilidade máxima por pressão de “lobbies”, justiça lenta e incapaz de punir drasticamente o prevaricante, o bandido, lei nervosa e incompreensível, mania de legisferar sem modelo de forma nabábica e sem considerar um caso resolvido, escola e ensino a desfazerem-se.
Com apenas cem anos desta Senhora o País parece ter trezentos, está velho, sem memória, desdentado, cospe ópio e morfina, adoece e morre. Já disse que as sociedades tal como os Estados, tal como os países, podem morrer. Temo que com este fracasso total de diagnosticar o que está mal e corrigir rapidamente, caminhemos inconscientemente para a barroca, ao som das bandas sonoras que a juventude gosta de ouvir: os sons metálicos que anunciam “The Road to Hell”, como costumavam cantar os Rolling Stones.

Terça-feira, 14 de Setembro de 2010

QUINTA COLUNA: por Fra Diavolo

Caos

Reabriram as escolas e as universidades, começou o ano lectivo. E começou à maneira socialista: caótico e desgovernado, patético nos objectivos e imbecil na organização – tudo envolto pela capa e batina do folclore académico e pelo sorriso seráfico da ministra da “Educação” o salvam. O método “em cima do joelho” está tão nacionalizado que ao longo do último fim-de-semana, a escassas horas do início das aulas, muitos candidatos a um lugar no Ensino Superior estavam ainda a receber 'e-mails' e 'SMSs' com a indicação de terem (ou não) sido admitidos. Mas não nos aflijamos: todos hão-de sê-lo, ou quase todos, pois o grandiosíssimo negócio das universidades não vive sem freguesia. Há hoje em Portugal uma oferta de 1.152 cursos superiores – número manifestamente desproporcionado em relação aos nossos 10 milhões de habitantes, aos nossos 92 mil quilómetros quadrados e (sobretudo) aos nossos 700 mil desempregados oficiais. Alguns desses cursos são meros exercícios de delírio, “licenciaturas” e “mestrados” em ciências tão ocultas que nem os papalvos os querem. Não admira que em 303 de tais cursos não haja sequer 20 alunos inscritos! De todo o modo, o Governo prevê que este ano lectivo sejam admitidos quase 120 mil alunos no ensino superior público (um aumento de 20 mil em relação ao ano passado). Que importa que em 38 das licenciaturas em oferta se possa ingressar com nota negativa? Vale tudo. As primeiras vítimas, está bem de ver, são as famílias que se endividam para dar aos filhos um canudo; e as vítimas seguintes são os próprios licenciados, para quem o canudo de nada servirá. O maior número de inscritos incide, precisamente, nos cursos que dão acesso às profissões onde se regista maior índice de desemprego: nas áreas de Ciências Empresariais, Engenharias, Direito e Ciências Sociais e do Comportamento, o número de desempregados com licenciatura chega a atingir os 40 por cento. Nesta miragem se consome o dinheiro dos portugueses e se esvai o dinheiro público. Entretanto, no Ensino Secundário, mais de 200 mil alunos continuam à espera de que sejam nomeados professores para se dar início ao ano lectivo. Está conforme: o caos, para ser completo, deve começar logo no 1º ciclo...

FOGO AMIGO: por António Marques Bessa

Que Castro temos em Cuba?

Os terceiro-mundistas exacerbavam a importância de Cuba, enquanto terra do sol socialista. Vi isso no 25 de Abril de 1974, em Portugal, em que os imbecis que governavam pela força não viam outra coisa que não a ideia de ajudar Cuba, a sanguessuga das Caraíbas, e entre eles cumpre destacar imbecis governamentais da dimensão miserável do Almirante Rosa Coutinho, do austero mas estúpido Cunhal, do intrigante tenente-coronel Melo e mesmo, em certa altura, do Eanes.

Creio que a notícia mais espectacular que recebemos nestes últimos tempos foi a que nos deu Fidel Castro, tornada pública pelos meios habituais. Castro, vacilante, apoia a oligarquia familiar na ilha das desgraças do povo coitado, na ilha das férias dos venturosos turistas.
Mas que é Castro fez? Não produziu doutrina política que o caracterizasse, mas apenas se mostrou camaleão capaz de mudar da democracia radical para um marxismo-leninismo igualmente radical. Mas produzir teoria estava para lá suas capacidades de galego exportado, pese embora os elogios que lhe teceram todos os hipócritas deste mundo apodrecido.
Ele limitou-se a aproveitar o que havia no mercado das ideologias, numa sopa de marxismo. Meteu no saco o jacobinismo afrancesado, o pragmatismo, o ecletismo, o caudilhismo típico, o empirismo e o terrorismo como terapia geral. Regis Debray bem dizia que o castrismo era uma revolucionarismo empírico que se encontrou face a face com o marxismo. O castrismo não existe porque só serviu de modelo quando entrou em crise a teoria do Estado-Guia, e é feito de peculiarismos e pequenas ideias do guia da revolução.
Os terceiro-mundistas, ao contrário, exacerbavam a importância de Cuba, enquanto terra do sol socialista. Vi isso no 25 de Abril de 1974, em Portugal, em que os imbecis que governavam pela força não viam outra coisa que não a ideia de ajudar Cuba, a sanguessuga das Caraíbas, e entre eles cumpre destacar imbecis governamentais da dimensão miserável do Almirante Rosa Coutinho, do austero mas estúpido Cunhal, do intrigante tenente-coronel Melo e mesmo, em certa altura, do Eanes. Cuba era o futuro de Portugal, daí uma importação maciça de Cuba de imbecilidades, desde máquinas a rum, desde açúcar acima do preço do mercado, até produtos medicinais. Uma história posta de lado, mas tão engraçada, hoje. Será que a quem lá foi nestes tempos tratar das cataratas, tratar do corpo ao sol tropical, às meninas baratas, comer nas salas reservadas e ver a miséria, não lhes tocou numa corda vital?

O Castrismo

E em que se decifra essa herança castrista vinda da Serra? Bom. Os grandes cientistas parecem ter chegado acordo no que significava:

1) uma forma de luta revolucionária e nova,
2) um modelo de construção do socialismo,
3) um regime político.

Não há mais nada a não ser o isolacionismo a que votaram os ilhéus. Antiga colónia da Espanha. O que interessa notar é que como forma de luta falhou. Che Guevara, que pretendeu accionar uma luta nos mesmos passos, foi morto e sepultado e tudo o que podia suportar que essa luta teria um triunfo local morreu na América e no Congo, onde os Kabilas não gostaram do Che, tanto como os propagandistas americanos e europeus de um bandido comum. Essa via para a luta era uma brincadeira de mau gosto, de modo que os talibãs têm coisas melhores para oferecer que os atrasados métodos do argentino tuberculoso.
Quanto à construção do socialismo estamos falados. É isso mesmo que Castro veio dizer. É um insucesso e ele faz bem em apoiar o irmão nas reformas. Ao menos ficam os Castros da Galiza ao mesmo nível que os Ceaucescu na Roménia. Veremos quem os enforca na ilha utópica de Hemingway, antes de fugirem para a Florida sob escolta americana. Falhou o modelo? Mas que pena, porque todos sabíamos há muito tempo que a ilha estava falida com o governo do Estado, como qualquer país que se entrega excessivamente à elite dirigente, formada por famílias ideológicas e não de sangue.
Falhou o Regime político. Muda apenas sob o novo Ulisses, navega para outro lado, procura soluções de investimento e propriedade privada, busca que o Estado saia a recuar e pelo bom caminho que lhe salve as cabeças. Evitam o Thermidor que há muito os esperava. Penso que procuram a suave transição da Praga, mas não são capazes, já neste tempo de raivas e campos eriçados, de chegar a esse desiderato europeu. É demais. Cairão como os outros, rapidamente, de um momento para o outro, perante o clamor das multidões de deserdados. Que pena não haver mais Castros na Galiza, porque sempre haveria a hipótese de estabelecer um jovem governador-geral Castro em Havana.
Os Castro enganaram Dom Pedro I, mas não enganaram o pai experiente, Dom Afonso IV. De Castros sabemos nós. Até de Castros-Laboreiros. E Max Weber continua a acenar com a sua teoria do poder carismático. Se Castro tinha, evaporou-se ao confessar os erros.
De Havana, e do Nosso Agente em Havana, ainda havemos de saber notícias, se Deus quiser. Agora, é certo, os seus produtos mais famosos são manuais: o rum cubano velho e o cigarro bem enrolado na coxa da fabricante final.
É pena que as coisas não se tenham composto, porque diversificavam o planeta. Agora ficamos só com aquele chato pequenino da Coreia do Norte, a fingir que é gente, mas que é um rato raivoso nas mãos dos chineses. O mundo com estes factos torna-se menos rico na sua diversidade de experiências, de modo que os eruditos esperavam uma máquina temporal para os colocar no tempo das Cidades da Grécia, onde a diferença era maior que hoje e não havia estas pequenas tretas de discussão dos tiranos.
Só imagino a falta que nos vai fazer este Castro e seus irmãos nas Caraíbas. Até por causa das férias. É recomendável a importação de jovens Castro da Galiza, que podiam tornar a ilha numa paraíso de traficantes de drogas duras para combater as forças do Satã estado-unidense.

Terça-feira, 7 de Setembro de 2010

QUINTA COLUNA: por Fra Diavolo

Bonzinhos

A comunidade política portuguesa vive no mito do “acordo” - uma espécie de metáfora do “bom selvagem” de Rousseau aplicada à engrenagem parlamentar e partidária. Neste mito, o “bom político” é aquele que “chega sempre a acordo”, aquele que se empenha em “negociar”, aquele que procura “consensos”. Trata-se, evidentemente, de um vício de raciocínio, que ataca em particular as sociedades periféricas e pouco viajadas, onde se pensa que “ser bonzinho” é bem visto pelos grandes, lá fora. E é um vício de raciocínio porque, em última análise, desmente a essência dialética da democracia de onde provém: se, afinal, estar “de acordo” é que é bom, porque não simplificar tudo e instituir o partido único? Esta contradição essencial do sistema foi escalpelizada por Marx, mas os marxistas portugueses só gostam de ler o que lhes convém. Sinais da mitologia do “acordo” surgem, em Portugal, todos os dias, especialmente nos momentos em que está em causa aquilo com que se compram os melões. Agora, a propósito do Orçamento do Estado, todos se esforçam por parecer “bonzinhos”, “dialogantes” e “abrangentes”, como se um Orçamento fosse uma categoria teológica. O Presidente da República, dando o exemplo, já fez o apelo da praxe. Palavras de Cavaco: “A aprovação do Orçamento passa pela negociação com todos os cinco partidos do Parlamento”, pois “um chumbo do Orçamento é coisa que não me passa pela cabeça”. E porque não?, perguntamos nós. Responde o Chefe do Estado: “Porque um Orçamento é um documento que se negoceia”. Nesta lógica do “sim porque sim”, todos alinham. Até o antigo dirigente do CDS, Basílio Horta, que acha que “seria uma desgraça total não haver consenso político no Orçamento do Estado”. Bom ou mau, justo ou injusto, verdadeiro ou mistificador, o Orçamento teria de ser aprovado. Porque sim. Porque Sócrates se limitou a apresentá-lo. Porque é preciso fazer-lhe a vontade, ou então “teríamos o caos”. Porque é preciso sermos “bonzinhos” e “portar-nos bem”. Porque, neste sistema, é assim que funciona a engrenagem. A engrenagem da mentira.

FOGO AMIGO: por António Marques Bessa

No impasse


Portugal vive assim há muitos anos. Num impasse, num tempo que não é o seu tempo, com uma elite política que não o entende, como aliás sucedeu já com muitas que se sucederam no tempo curto da História vivida.

Estar no impasse parece ser um modo de estar que se instalou como uma forma de vida. Uma doença da coluna vertebral que se adequou a andar curvada em zumbaias, a baixar a cabeça com hábito arraigado. Fomos ensinados assim e pouca culpa temos das coisas que se deixaram de fazer ou se fizeram mal. Também o impasse nunca foi afastado da nossa nuca na sucessão de tempo rápido que se desenrolou desde a queda de Salazar até este momento exacto em que o país se afunda em dívidas e em contradições estruturais. Herdou-as de classes políticas inábeis e estúpidas que nunca as resolveram e manteve-as até hoje porque nunca ninguém foi capaz de meter mãos à obra com seriedade, com coragem e sobretudo com isenção.
O impasse em que hoje nos encontramos é semelhante a outros que passaram sem deixar rasto. Mas ao passarem empobreceram-nos mais um pouco, liquidando bons bocados da identidade nacional, e tornando-nos cada vez mais envergonhados de sermos o que somos: os últimos da fila dos miseráveis, sempre a apregoar mentiras como se fossem verdades como punhos. Enganando-nos como experientes faladores e contadores de histórias de cujo exemplo matriz ficou a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto.
Porém, o impasse actual desenvolve-se num quadro global que é muito diferente dos outros em que as potências hegemónicas não eram tão poderosas e a vontade de poder não tinha a expressão da voracidade actual, em que os poderes nulificados se dulcificarão ao derreter-se num todo maior a uma velocidade alucinante. As sociedades nem terão um momento para reflectir naquilo que lhes está a acontecer, porque antes de perceberem já os efeitos se começaram a fazer sentir.
Lembremo-nos só do efeito de adesão ao euro e do que se disse a esse respeito na altura. Que benefícios não se enunciaram? O que viu: a perda de soberania monetária, a inflação galopante, a devastação da produção e o aparecimento da inutilidade total do Banco de Portugal que não sabemos para que existe, a não ser para manter tachos.

A diferença

O desafio depois da época filipina, a partir de 1640, consistiu em aguentar os castelhanos na fronteira e, na área vasta em que tínhamos interesses, estabelecer uma estratégia realista para conter potências ambiciosas como a Holanda, a Inglaterra e a França.
Neste impasse houve engenho e arte para ficar com a melhor parte e resolver os desafios com perdas mínimas. O país tinha muito território, um inimigo claramente identificado e fortemente desafiado na cena internacional. Pôde por isso adestrar-se para pequenas escaramuças fronteiriças e levar a cabo uma política externa visando a conservação dos territórios ultramarinos. O desafio foi entendido e resolvido, mas os hábitos antigos continuaram a cavar sub-repticiamente as estruturas. A produção interna continuou na sua curva habitual e especializando-se em coisas que já não interessavam. Empresas e Banca não apareciam, construção naval não era matéria de discussão, enquanto as actividades marítimas não arrancavam da mediania conhecida.
Portanto, mesmo vencido o desafio, o facto é que o impasse estrutural permanecia, de modo que se pode ver o problema real aquando das invasões francesas. Estas tiveram o cuidado de mostrar que um exército de esfarrapados podia pôr e dispor de um país sem defesa credível, sem povo organizado, sem autoridades competentes. E a autoridade que havia, imediatamente, de espinha curvada, foi saudar os invasores de que se tornaria subserviente: a burguesia lisboeta sempre foi assim na história recente e dela nada se pode esperar senão a mesma curvatura, seja o dono do Estado quem for. Se o cheiro da pimenta despovoava o Reino, como se queixou Sá de Miranda, o cheiro dos negócios chorudos tem este efeito especial típico da corte chinesa: a burguesia faz o 'know tow', ou seja, deita-se no chão em sinal de alta reverência, com o cifrão nos olhos.

E agora?

Não é certamente a hora de esperar por Dom Sebastião, como os saudosistas ou os supra realistas começam a dizer. Neste impasse joga-se outra vez o país, mas com menos possibilidades de êxito. O enfraquecimento e destruição vergonhosa de todas as estruturas produtivas, a favor de uma máquina Estatal que ninguém sabe ao certo para que serve a não ser fazer favores ao Estrangeiro, preparou o caminho para a atroz debilidade com que nos debatemos. A classe política é manifestamente mal orientada nos seus desígnios e voa em piloto automático. Encontra-se no tempo do “salve-se quem puder” com outros a gritar “o último a sair, apague a luz”. A fome mostra sua cara feia, fome à terceiro mundo. A ignorância dos pretendidos sábios faz o seu aparecimento e puxa dos galões de marechal para produzir prosa que, se cair num caixote de lixo, ninguém dará pela sua falta. É também um tempo em que os homens se tornaram mentirosos, gananciosos, doidos varridos entregues a vícios inumeráveis. Não são homenzinhos: são garotos apinocados a piscar o olho ao amor grego e à ilha de Lesbos.
Não parece que sejam as mentes capazes de resolver este impasse estrutural e muito menos o desafio que hoje se coloca com total evidência a Portugal.
Também é certo que os países não duram para sempre. Tudo o que começa tem um fim. E um renascimento. Que o digam a Letónia, a Estónia, a Lituânia, a Polónia, a Chéquia, a Sérvia, a Ucrânia, a Alemanha, só para lembrar alguns países que apareceram e desapareceram.
Torna-se urgentemente necessário compreender que há desafios e impasses que liquidam os países. Seria triste ter de migrar para o Brasil para falar português. Mas é preciso perceber que, com esta gente inqualificável na política, à frente dos designados “destinos” do país, o funeral está quase assegurado num mercado gerido por Metabarões do Mundo, onde dez milhões de almas mortiças não fazem qualquer diferença. Só nós é que nos achamos importantes. Torna-se necessário pensar que não somos importantes para ninguém. E trabalhar a partir daí, desta incontornável verdade.