Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010

PRIMEIRA PÁGINA, edição de 30 de Novembro

Última Página, edição de 30 de Novembro

Quando a História de um País também é a de um Jornal

O Primeiro "Primeiro de Dezembro"


A história conta-se ao longo das páginas de um Jornal. Os que participaram recordarão certamente com saudade de um momento inolvidável em que, contra ventos e marés políticas de um tempo politicamente bastante conturbado e inseguro, o Povo saiu outra vez à Rua para reclamar Liberdade.
Mas também um pouco mais de sanidade de quem governava este País à beira mar plantado.
Curiosidades:
Em 1977 Mário Soares era Primeiro-Ministro e Henrique Medina Carreira ocupava o cargo de Ministro das Finanças. (http://www.portugal.gov.pt/pt/GC01/Governo/Composicao/Pages/Composicao.aspx?r=1977-10-12)
1977 é ainda o ano em que Portugal pede formalmente a adesão às Comunidades. Europeias.
Capa de um suplemento especial publicado em 26 de Dezembro
 com os momentos mais marcantes dessa grande marcha.

Crónica semanal de Alberto João Jardim, presidente do Governo Regional da Madeira

Terça-feira, 23 de Novembro de 2010

QUINTA COLUNA: por Fra Diavolo

Blindados

A trapalhada em que se transformou a compra de material de segurança para a cimeira da Nato mostra bem o estado de desorientação a que chegámos. Argumentando que era necessário adquirir, “com carácter de urgência”, equipamento que garantisse que os chamados “líderes mundiais” não seriam molestados pela populaça, o ministro da Administração Interna agarrou em cinco milhões de euros dos contribuintes e mandou vir dois carros blindados, 45 viaturas anti-motim e sete para remoção de obstáculos, carrinhas para transporte de detidos e um canhão de água, para além de uma vasta parafernália de “segurança electrónica”. Vieram os “líderes”, fez-se a cimeira, voltaram todos a suas casas – e, de toda a encomenda, só os 'gadgets' electrónicos chegaram a tempo. Os dois blindados 'Cougar' americanos, por exemplo, estiveram a ser calmamente decorados com as cores da PSP na fábrica de origem (sem esquecer bonequinhos “smile” nos faróis, para ficarem mais giraços), depois voaram para Espanha, onde se fizeram à estrada a caminho de Lisboa, tendo finalmente chegado, extenuados mas contentinhos, de domingo para segunda. A oposição fala em “irresponsabilidade”, “incompetência” e “fiasco monumental”. Mas é ainda mais grave do que tudo isso: é que, pelos vistos, nenhum daquele material era realmente necessário. O ministro Rui Pereira invocou a “urgência” para justificar a compra por adjudicação directa, sem concurso. Urgência? Mas há quantos meses estava a cimeira programada? Sem dúvida, o Parlamento irá ocupar-se deste estranho caso de incúria e negligência, desta incapacidade para organizar alguma coisa que não seja em cima do joelho. Mas o parlapatês parlamentar não conseguirá, já se sabe, resolver a questão de fundo. E a questão de fundo é a facilidade, e a impunidade, com que os governantes socialistas dispõem do nosso dinheiro a seu bel-prazer para fazerem figuras tristes. Tão tristes, aliás, como as da esmagadora maioria dos órgãos de Comunicação, que centraram toda a sua atenção nos seguranças, nos gorilas, nos carros e nos hotéis, deixando o povo na ignorância sobre o verdadeiro significado da cimeira de Lisboa.

FOGO AMIGO: por António Marques Bessa

Os Imperativos Geoestratégicos
Está visto que Thomas Schelling tinha razão: uma Coligação vencedora tem que sofrer alteração por causa dos pagamentos compensatórios. Em tempo de paz, depois de alcançada a almejada vitória, distribuem-se os despojos e pensa-se no tempo seguinte.

Os países, como afirmava Therezinha de Castro, uma eminente geopolítica brasileira, dividem-se em três categorias: ricos, emergentes e pobres. Os ricos apoderam-se das riquezas do mundo e criam normas geopolíticas para o Orbe; os emergentes podem perturbar essa ordem desejada, mas só têm alcance regional para agir; os pobres são explorados e têm uma geopolítica infantil.
Na sua classificação, tão simples, Therezinha de Castro, da Escola Brasileira de Geopolítica, enunciava uma realidade difícil de compreender mas fácil de observar. Os poderosos querem mais poder e esse poder é ganho através do domínio de esferas de influência cada vez maiores. Foi para isso que Nelson Nye inventou três conceitos: “Hard power”, “Soft power” e “Inteligent power”. Trata-se de ensinar ao Império deste Século que deve resolver as coisas, preferivelmente com “Soft power”, ou seja, com poder cultural e domínio tecnológico.
Assente neste pilar está toda a indústria dos divertimentos, da alimentação, da língua e da cultura, mais o sonho americano, que faz parte do pacote. Se este poder não chegar, deve-se utilizar o poder Inteligente, que é uma combinação, em doses adequadas, dos outros dois: “Soft” e “Hard”. Com esta massa o pão terá que levedar forçosamente. Todavia, se houver ainda resquícios de resistência, então não há mais remédio para o Império, senão o de mostrar o que vale: colocar em acção os meios Duros que se encontram disponíveis desde o princípio da contenda.
Teoricamente, o que é mais caro é o “Hard power” e recorrer a ele desgasta os cofres da República Imperial, como lhe chamou Raymond Aron. O momento americano também não é totalmente bom, com a dívida a dar mostras de se encontrar pouco controlada. O grande credor do Mundo, a China, também só tem isso: a dívida dos outros, não possuindo ainda os meios para a cobrar no caso de falência.

Que se trata na Nato

É entender o papel de cada Estado director com a consequente aprovação de todos. Está visto que Thomas Schelling tinha razão: uma Coligação vencedora tem que sofrer alteração por causa dos pagamentos compensatórios. Em tempo de paz, depois de alcançada a almejada vitória, distribuem-se os despojos e pensa-se no tempo seguinte. Esse será um tempo mau se não houver trabalho para a Aliança. O Estado Director (USA) terá que continuar a pagar a aliados ineficazes e sem objectivo. Será urgente encontrar novos objectivos, novas tarefas, motivar os aliados para outras directivas porque isso permite a manutenção dos desígnios geoestratégicos da grande potência.
A Nato ficou feliz por ter encontrado um novo conceito estratégico e os militares também, e isso via-se na cara do General Loureiro dos Santos na noite dos comentadores. Há sempre ameaças, das climatéricas ao terrorismo, do terrorismo aos conflitos localizados, das crises humanitárias à fome. Mas a Nato criou-se para isso, ou não passará de tentativa da organização sobreviver para lá do seu prazo de validade. Vejamos que as alianças contra Napoleão variaram muito até o derrotarem. Será mesmo que esta Aliança é útil para pacificar o Afeganistão (um território tribal que vive na Idade Média Islâmica) e construir o estado no Iraque?

Fraca e debilitada

Nada indica que seja.
Tudo indica que se precisa de uma nova aliança interventiva e daí, e dela, ninguém poderia excluir a China, a Índia, o Brasil, a Federação Russa, porque, quer se queira quer não, a Nato é pouco para tanto.
De tão habituados a ter o chapéu-de-chuva Nato, os europeus esquecem-se dos multilateralismos úteis, embora a organização já seja a expressão de um multilateralismo militar e económico. Mas também ninguém se habituou a pensar no que seria um mundo sem Nato e sem americanos, ou um mundo com uma coligação diferente da Nato e do Pacto de Varsóvia. Schelling afirmou que é inevitável que as coligações mudem, até porque os interesses geoestratégicos também mudam. É um facto que os países da Nato controlam uma enorme rede de pontos estratégicos definitivos se a Terra não mudar, mas há outros, no Índico e no Pacífico, e, mais que tudo, no Ártico (ver: Géoestratégie de l’Artique, Admiral Bernault, Economica, Paris).
Em política internacional, que foi do que se tratou em Lisboa, o que parece não é. Se na notável reunião se tratou de ver os perigos futuros para os enfrentar em conjunto, não creio que se tenha chegado com o novo conceito a nada de concreto para a Organização. E a Organização mostrou-se fraca, debilitada e pronta a ceder lugar a uma nova organização com outros países.

Primeira Página 23 de Novembro

Última Página, 23 de Novembro

Terça-feira, 16 de Novembro de 2010

FOGO AMIGO: por António Marques Bessa

Os três cavaleiros do Apocalipse

O que aqui acontece é que estamos sempre atrasados, na cauda do cão, apegados como a última pulga. Não nos informamos do que é importante e só queremos um consumo fácil de inconscientes. Nem contas sabemos fazer. Por isso a fome apareceu.


São conhecidas as suas marcas: fome, peste e guerra. Quando cavalgam juntos, a terra transforma-se numa paisagem desértica semeada de esqueletos mirrados, sobre os quais esvoaçam os corvos.
Por muito que falem os senhores ministros e o senhor Cavaco, o Primeiro Cavaleiro já chegou às nossas terras, que supúnhamos fartas e abastadas. A fome fez a sua horrenda aparição e ninguém gosta de a reconhecer nas faces amareladas das crianças ou nos dentes descarnados dos velhos. São visões dantescas que se devem excluir de todo porque a vida é que é a grande engrenagem. Os indigentes sempre estiveram presentes na Cidade e por isso não valem um segundo olhar, uma segunda reflexão mais detalhada sobre as causas e efeitos deste mal primordial.
A terra foi abandonada às silvas, as montanhas estão desertas de pastores, as planícies alentejanas não produzem o que deviam e os montes da Beira Interior e de Trás-os-Montes não oferecem já o agasalho de outrora.
O êxodo rural era de prever, o engrossamento das cidades até à gordura extrema era de esperar, as periferias miseráveis eram conhecidas antes de acontecerem aqui.
O que aqui acontece é que estamos sempre atrasados, na cauda do cão, apegados como a última pulga. Não nos informamos do que é importante e só queremos um consumo fácil de inconscientes. Nem contas sabemos fazer. Por isso a fome apareceu. Por causa do Povo que temos e por causa dos governantes que existem e que acontece não governarem nada, a não ser pirâmides no Egipto.
Josué de Castro, que escreveu uma magnífica Geopolítica da Fome, com prefácios múltiplos de autores, como Max Sorre, Pearl S. Buck e Lord John Boyd Orr, avisava nesse livro profético que a fome começa pelo abandono do agro. Pensa-se, erradamente, que se pode dispensar a terra, trocando-a pelo trabalho mais limpo e fácil nos serviços. Mas os serviços não dão para tudo e menos para comer quando há falta de dinheiro para comprar comida. A terra é que dá, de graça, o seu produto de sustento, coisa que os suíços sempre entenderam tendo uma forte agropecuária, já que não podem ter uma pesca.
Para África, René Dumond já tinha escrito epitáfio há alguns anos: a emigração selvagem para as cidades, com o abandono do campo, só traria miséria e fome, coisa em que acertou. Um grupo nutrido de bandidos mantém os seus semelhantes em condições infra-humanas, enquanto eles se banqueteiam na festa da vida. A visão patrimonial do Estado conduz a estes desmandos e desequilíbrios que são fortemente mortais para as sociedades humanas. “L’Afrique est mal partie” e o requisitório “Afrique, j’accuse” tornaram-se solenes declarações de um observador próximo e independente da génese da fome, nessas sociedades de tradicional riqueza e abundância. Pois Portugal está a caminho dessa catástrofe, precisamente pela mesma razão, uma coisa que a Suíça está longe de experimentar.


Como moderar o inevitável

Só há duas maneiras de evitar a catástrofe alimentar. A primeira é aumentar a superfície em exploração, dotando-a com todas as facilidades de produção. Isso significa um êxodo de sentido inverso. Ou seja, uma colonização interna. As aldeias beirãs, transmontanas, alentejanas, esperam braços activos e inventivos para humanizar a geografia portuguesa. Em vez de esperarmos a morte do campo, devemos, como os suíços, activar a vida do campo e evitar a concentração nefasta nas cidades daqueles que nada fazem ou tudo fazem por mal. Estes dois eixos, o da produção de mais bens alimentares, sem entraves de um Ministério que não tem razão para existir (o da Agricultura, uma anormalidade total), e uma recolocação interna poderia alimentar os que têm fome e produzir excedentes, para lá do círculo do auto consumo a que nos habituámos.
Claro que, no domínio da produção, não se pode esquecer o nosso mar, rico em peixe que é pescado por outros. O auxílio à modernização da frota de pesca, para uma coisa a sério, poderia ser o começo de uma indústria, como chegámos a ter e desperdiçámos nas aras dos deuses de Bruxelas, para agora comprar peixe congelado aos espanhóis.
Torna-se evidente que sem a solidariedade social de todos, numa tarefa desta grandeza, também nada estaria dado por certo. Socorrer quem tem fome é sem dúvida um grande acto, mas ensiná-lo a pescar é um acto ainda maior. Há muita gente que, com casas e quintas disponíveis, estariam dispostas a experimentar outra vida mais saudável do que a de encostar-se às paredes. Produzir.
Se a meta em 1974 estava nos 50 por cento de produção do total daquilo que se consumia, não era mau ser mais ambicioso e ir até uns 60 por cento de produção consumível, visto que o País tem essas capacidades no Continente e nas Ilhas, sendo irrelevante importar peixe.
O que é certo é que o Primeiro Cavaleiro não pode ser derrotado com discursos de aparvalhados mentais, com declarações optimistas sobre o futuro: pode ser derrotado com regresso calculado, estudado, aprofundado às fontes da produção: a terra. A fome na Europa não é uma figura estranha, mas foi esquecida durante muito tempo; e num país fragilizado como o nosso é um flagelo que nunca pode estar longe do horizonte dos decisores políticos inteligentes. Como não os temos, não nos admiremos com os resultados catastróficos que se vão somar à fome: a doença em corpos debilitados.

QUINTA COLUNA: por Fra Diavolo


Regresso à verdade

Com a profundidade e a acutilância a que habituou gerações de alunos e os seus muitos leitores, o Professor Marques Bessa explica na página 2 desta edição uma coisa aparentemente simples: temos de voltar ao campo e ao mar, reduzindo o ofício das mangas de alpaca à sua real dimensão. Há dias, falando sobre a reunião do G20, o Papa Bento XVI pediu aos governantes deste mundo louco em que vivemos que promovam “um novo equilíbrio entre a agricultura, a indústria e os serviços”, única forma de alcançar “um desenvolvimento durável” e de combater “a crise económica e a pobreza, o escândalo da fome, o problema ambiental e o desemprego”. Quem, em seu perfeito juízo, não estará de acordo? A doença da civilização actual tem origem no mito do progresso – uma “utopia” com a qual a esquerda vem embaciando o olhar dos povos desde há 300 anos. Ao confundir o avanço tecnológico com a felicidade, os mitómanos citadinos têm provocado um desenraizamento progressivo do Homem, afastando-o da verdade da Terra, da sequência natural da sementeira e da colheita. Se este afastamento é grave entre as economias desenvolvidas (que sempre podem comprar o que não produzem), mais grave se torna nas sociedades que a si mesmas se reduziram à dependência. Aqui, espreita já a doença de que fala Bessa. O caso de Portugal, país tornado pobre e periférico pela demência colectiva e pela perfídia dos dirigentes, ganha contornos chocantes. Um recente estudo da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa concluiu que cerca de 23 por cento dos portugueses sofrem de perturbações psiquiátricas – uma média bem superior à dos outros países da Europa do Sul e perigosamente próxima da dos Estados Unidos da América, o país com maior prevalência de anomalias do foro psíquico em todo o mundo (26 por cento). É urgente travar a loucura nacional. É urgente regressar à economia natural. À verdade.

Terça-feira, 9 de Novembro de 2010

QUINTA COLUNA: por Fra Diavolo


Responsabilidade

A sugestão de Pedro Passos Coelho, de responsabilizar civil e criminalmente os políticos pelos seus actos de gestão, tem de ser levada a sério – não porque constitua um bom ponto de ataque episódico a este ou àquele Governo, mas porque é uma medida moralizadora que se impõe, para o presente e para o futuro. A argumentação de Coelho é simples: "Se nós temos um Orçamento e não o cumprimos, se dissemos que a despesa devia ser de 100 e ela foi de 300, aqueles que são responsáveis pelo resvalar da despesa também têm de ser civil e criminalmente responsáveis pelos seus actos e pelas suas acções". Qualquer pessoa entende que assim deve ser. Toda a gente – menos os políticos, claro, que ou fingiram que não ouviram ou se apressaram a dizer que "o momento não é oportuno". A "oportunidade", em política partidária, mede-se apenas pelo grau de incómodo provocado, e não pela justeza do que se propõe. E, neste caso, o incómodo é grande. A actual legislação já responsabiliza, parcialmente, os responsáveis do Estado pelos actos administrativos que praticam, mas não abrange ainda os "políticos" e os "actos políticos" – o que coloca a actividade desta estranha classe profissional acima da lei e ao abrigo de qualquer punição. Isto é: podem "enganar-se" à vontade, pois sabem que o único castigo que os espera é, na pior das hipóteses, uma redução do número de votos na próxima eleição. Ora, os erros em "actos políticos" (como o Orçamento do Estado) têm consequências não-políticas directas: "buracos" financeiros que todos temos de pagar, juros inflacionados, desemprego, desestruturação económica. Ninguém pagar pelos seus enganos é algo de tão extraordinário que só lembraria, de facto, aos políticos, a única classe à qual não é exigida prova de competência profissional para o exercício de funções. A ideia de Coelho é boa. Se houver sanidade mental e uma réstea de vergonha, há-de vingar.

FOGO AMIGO: por António Marques Bessa

O Orçamento e a Economia Portuguesa


Todos concordam que os homens políticos mentem com quantos dentes têm e a mentira se tornou o seu haxixe quotidiano. Uns mentem mais, outros mentem menos, mas de facto não há isentos.

Nunca assisti a tanta discussão sobre o Orçamento de Estado. As televisões massacraram-nos com comentadores irrelevantes, os jornais exibiram a habitual desordem que revela o alinhamento político. As pessoas à mesa quase não falavam em outra coisa. E isto dias após dias, como se se aproximasse o Juízo Final sobre a empobrecida República Portuguesa.
Analisaram-se as vantagens de uma mudança de Governo, disse-se que o PSD é menos voraz que o PS, que talvez fosse capaz de manobrar a barca para enfrentar o mostrengo que está no fim do mar.
Todos concordam que os homens políticos mentem com quantos dentes têm e a mentira se tornou o seu haxixe quotidiano. Uns mentem mais, outros mentem menos, mas de facto não há isentos. Por outro lado, disse-se frequentemente, de todos os lados das facções políticas, que o Orçamento era mau, que estava cheio de erros de palmatória e que os homens políticos eram do pior que já se viu desde o princípio da República.
Adicionou-se ainda a ideia de os “mercados capitalistas” estarem a explorar o país e que os juros da dívida são exagerados. Sensatos chamaram a atenção para que os juros sobem sempre perante a suspeita fundamentada de que o País pode ser incapaz de cobrar e ter-se que ir para tribunais e gastar dinheiro para obter o que se emprestou. Na realidade, as discussões sobre este assunto chegaram ao momento parlamentar particularmente épico onde se lavou a roupa suja dos portugueses, que por entre névoas da memória devem ter começado a perceber que isto está mau. Entre os PIGS (Portugal, Itália, Grécia e Espanha) a coisa não está para festanças. Os juros para a Grécia e a Irlanda do milagre já nos dizem alguma coisa.
Insiste-se incisivamente em que as instituições financeiras credíveis não têm confiança em nós, nem no governo atolado em mentiras. Que isso piora a situação. Mas a posição de Ferreira Leite, que se remeteria e esconder uma parte da podridão para que se não soubesse lá fora, não tem ponto por onde pegar. É com a verdade que o pó assenta.
No fim vem a greve geral, o mito de Sorel, de Marx e dos trabalhadores. É um facto que só vai piorar as coisas. Não se pode dar o que já foi gasto.

E a Economia?

Mais importante que o Orçamento é a Economia do País. Se ela fosse forte, aguentava os desmandos de “promovidos” de partidos, de pacóvios das aldeias. Mas aí é que reside o segredo do que vai mal e não tem emenda.
A economia portuguesa aguentava-se numa base que dependia do exterior e de uma conjuntura muito favorável até 1974. O Produto Interno Bruto cresceu 3,8 por cento (1969), 6 por cento (1970) e 2,4 por cento (1972). Ao mesmo tempo, o investimento público revelava um crescimento anual com estes números para o mesmo período: 7,9 por cento, 12,2 por cento, 1,9 por cento e 9,7 por cento. Sem dúvida, fazer crescer o Produto Nacional e o investimento em infra-estruturas é um desempenho notável em anos de guerra, quer se goste, quer não.
Mas a base era fraca. O edifício que se ia construindo repousava nas “remessas monetárias dos emigrantes”, do turismo de qualidade e em menor grau do investimento estrangeiro. Eram estes factores essenciais que asseguravam as divisas para importar maquinaria e alimentos que a agro-pecuária nacional não produzia. Vejam-se os números para 1973: remessas dos emigrantes, 27 milhões de contos; turismo, 13 milhões de contos; investimento directo estrangeiro, 2 087 milhões de contos.
Torna-se evidente que não era a produção que sustentava o sistema económico. A balança comercial era negativa em 40 por cento, mas também não importávamos muito, de modo que havia dinheiro para pagar.
Sucede que já há alguns decénios dispararam as importações, dispararam as prestações sociais, destruiu-se a produção. Aumentou brutalmente o consumo da Economia e a resposta interna foi produzir menos. As remessas dos emigrantes quase desapareceram, o investimento estrangeiro desloca-se, o turismo é um factor exógeno de difícil gestão e as exportações não dão para a cova de um dente desta Administração. E isto é que é preocupante e nos obriga a fazer uma pergunta inevitável: o país ainda é viável?

Terça-feira, 2 de Novembro de 2010

QUINTA COLUNA: por Fra Diavolo


Quem é o emplastro?

“Merkel perseguida por um louco!”, anuncia com sensação, na primeira página, o jornal alemão ‘Bild’. E o caso não é para menos: a Chanceler da Europa, a Dona omnipresente das finanças globais, a Dama dos nossos destinos e Patroa das nossas casas, a Mulher mais poderosa do Velho Continente, passa a vida atormentada pela perseguição implacável, tenaz, doentia – de um insignificante bajulador, um ridículo “melga”, um pobre “emplastro” que não lhe dá um minuto de descanso. Parece tratar-se de um indivíduo com perturbações mentais: convenceu-se de que Angela Merkel o adora e confessa-se inconformado por ela não corresponder às suas cartas apaixonadas. O certo é que a Chanceler alemã, por mais que o enxote, não pode dar um passo sem que o emplastro lhe saia ao caminho. Se Angela está em Berlim, o desgraçado ora lhe pede audiências no gabinete, ora vai rondar-lhe o apartamento particular, espreitá-la como um baboso e acenar-lhe num desespero patético. Aos fins-de-semana, quando Angela se refugia na sua casa de campo em Uckermark, é certo e sabido o intruso a infernizá-la. Por artes mágicas, consegue sempre iludir os cordões de polícia que cercam a quinta e aparece a tocar à campainha da porta, com o beicinho a tremer, pedindo à fria Angela um momento pequenino da sua atenção, um simples laivo de compaixão. Muito se tem especulado na Europa, na última semana, sobre a verdadeira identidade deste idiota. Estou hoje em condições de revelá-la ao mundo. Trata-se, de facto, de um sujeito com perturbações mentais, cujas glórias passadas parece não bastarem para lhe pôr vergonha na cara. Tem 867 anos de idade. O seu nome é Portugal.

FOGO AMIGO: por António Marques Bessa


Pouco mais que Cinco Máximas para uma Estratégia Estruturalmente Portuguesa (conclusão)



Ninguém pensa uma geopolítica do português porque essa tarefa recai nesses institutos fantasmáticos e de índole literária dedicados ao tema da cultura como o Instituto Camões e quejandas criações sem dinheiro, sem projecto, sem indicação e sem fundos. Pois bem: assim não há pais que aguente.

A perspectiva das classes dirigentes é necessariamente curta e limitada, porque sabem pouco. As posições adquiridas pela política externa portuguesa indiciam as estratégias seguidas e mostram que a primeira linha de atenção diz respeito à União Europeia. É nesse espaço que nos movemos e onde nos quis colocar a actual elite governante. Não quiseram seguir a Inglaterra, que tem integrado aos poucos e com muita cautela nos seus interesses de Ilha Coroada.
A União Europeia não existe para nos sustentar mais os vícios da classe dirigente, pois os interesses reais dos países continuam a existir. Cada membro desta múltipla construção é crítico em relação a ela e estuda o modo de a aproveitar nas suas próprias políticas internas. Ora, em vez de aproveitar, de início, em profundidade, as oportunidades oferecidas pela União e o seu mercado alargado, tomou-se tudo com ligeireza e colocámo-nos logo na fila dos estudiosos para merecer o epíteto de “melhor aluno”, sem perceber que ficámos reduzidos a um lugar vigiado de “orelhas de burro”, quase último na escala, destacado pelos índices de horror, que nos caracterizam melhor que os estudos sociológicos muito aprofundados.
A Alemanha, a França, a Itália e o Benelux com a Holanda, sempre no centro da teia da construção de um espaço avançado e tecnologicamente válido, foram e são os verdadeiros vencedores desta aposta espacial de cuidadosa geometria. Portugal, numa periferia, por muito que queira parecer uma zona da West European Coast, uma nova Califórnia, não pode fazer nada quanto ao facto de ser dispensável e não ter massa crítica. A Grã-Bretanha, que tem população e território, optou claramente pelo seu estatuto de ilha privilegiada face ao Continente e gere os seus interesses sem os confundir com alinhamentos dúbios e projectos utópicos. A sua elite política, trabalhista ou conservadora, defende interesses que são interesses ingleses. Portanto, não seria mau esfriar o entusiasmo europeizante de “estarmos na Europa”, coisa que sempre se passou por acaso geográfico, para optarmos também para definir os nossos interesses e defendê-los, que é justamente o que os outros andam a fazer.
A União, seja dito de uma vez por todas, reforça os poderosos e debilita os fracos. E esta lei é indubitavelmente uma das leis de concorrência das sociedades pelo poder. Todos os Estados estão no jogo da sobrevivência e uns com cartas mais fortes que os pequeninos, como ensinou Karl Deutsch. As elites políticas são uma carta do jogo, mas o território, a população, a riqueza, a força militar, a vontade política, a estratégia, a diplomacia, são outras igualmente poderosas, e aí estamos muito mal mesmo. Portanto, a primeira regra aconselharia a fortificar a longo prazo essas capacidades e não andar a brincar fazendo acordos com coisas inexistentes como tratados com Palau, Vanuatu, Ilhas Virgens, não lugares, etc. Não têm sentido.
A segunda regra diz respeito ao Império dos Estados Unidos como força hegemónica mundial. Foi política externa assente que o País alinhava pela Aliança Atlântica e que na Guerra Fria era um aliado dos Estados Unidos na luta contra o domínio da União Soviética. Porém, tudo mudou neste cenário depois da implosão da URSS; e também algo mudou nas ambições dos Estados Unidos e, logo, na inclinação da sua Aliança. A nova Geoestratégia da Nato tornou-se perigosa para os pequeninos que queiram brincar às guerras.
Tudo indica que o poder de Washington quer montar um cerco à Rússia e incomodar Moscovo onde pode, avançando com uma frente de alianças nos países continentais do antigo Império soviético. Essa política não interessa a Portugal porque os seus interesses são atlânticos e não continentais. Por outro lado, o excesso de intervencionismo americano onde não é preciso e é acolhido desfavoravelmente pelas populações não pode interessar Lisboa, pois vai imiscuir-se em problemas que ultrapassam as suas capacidades de defesa e segurança internas. Na realidade, o Iraque foi um falhanço completo e o Afeganistão vai ser uma derrota clara para a Aliança.
Isto significa que só a multilateralidade pode interessar a Portugal, que não deve ficar encurralado na bilateralidade que a Nato propicia.


A terceira orientação é o Mar, explorando o triângulo estratégico, em matéria de pescas e em assuntos estratégicos. Se Lisboa fosse forte, o mar até aos Açores daria trabalho, peixe e uma frota francamente a não desprezar. Mas essa parece que ainda não é a via compreendida pela tal elite política que se vende regularmente a interesses que nós não percebemos desde que as suas contas não sejam vistoriadas e a sua vida vigiada como se vigiam os ladrões. Na realidade, trata-se de um espaço marítimo desguarnecido que vale várias vezes o território emerso aqui deste lado e nas ilhas. O peixe passa por baixo das nossas redes não existentes, mas cai nas dos outros. É bom abater navios. Recebe-se algum dinheiro. Mas depois quem pesca? Não é bom pensar a curto prazo, porque os países e as gerações têm uma vida longa e os países vivem a longo prazo.
Sem o aproveitamento das costas e das ilhas, acontece que a vida marítima fica desguarnecida e os empregos ligados aos armazéns e à construção, as actividades ligadas ao tráfego, à manutenção das docas e à vida portuária descaem para o grau zero da escrita. E de um país talhado de há muito pela geopolítica para a vida marítima faz-se uma nação contra a geografia, um país de opção continental.
A quarta orientação inclinar-se-ia para onde o país conta com o peso linguístico: o Brasil. Isso significa passar das palavras aos actos. Iniciar e desenvolver negócios úteis para ambos os lados. O Brasil não nos vai dar nada e nós não devemos dar nada ao Brasil. Negócios devem interessar a ambos: ao Planalto e a Lisboa. Mas teremos gente que compreenda isto? Que não se trata de festa do linguarejar em português, mas de fazer negócios reais, em tempo útil, para ambos? É difícil perceber que os homens do poder entendam o que são e o que representam Brasília e São Paulo. Estão habituados a ir ao Rio de Janeiro e isso não é nada para o Planalto. Torna-se necessário perceber a questão. Porque é que a Universidade de Salamanca tem o melhor Centro de Estudos Hispano-Brasileiros? Porque é que, paulatinamente, o castelhano se está a transformar na segunda língua no Brasil, depois de ter tomado os territórios do sul dos Estados Unidos? Ninguém pensa uma geopolítica do português porque essa tarefa recai nesses institutos fantasmáticos e de índole literária dedicados ao tema da cultura como o Instituto Camões e quejandas criações sem dinheiro, sem projecto, sem indicação e sem fundos. Pois bem: assim não há pais que aguente.
É possível que as empresas portuguesas e brasileiras, tendo descoberto recentemente estes filões, possam criar estruturas bilaterais de cooperação e emprego que os governos até agora passaram por alto entre as múltiplas declarações de amizade e compreensão e as festas de aniversários históricos comuns aos dois Estados.
E os PALOP? Eles enquadrariam uma quinta linha estratégica, mas nunca uma política externa baseada na compreensão, nunca como se carregássemos os remorsos do homem branco. A história aconteceu em Portugal, massacrado com invasões, e a história aconteceu igualmente em África, no Brasil e na Índia onde tivémos presença efectiva e guerras, como os outros países europeus que desempenharam funções colonizadoras.
Uma relação adulta, descomplexada, é útil e desejável, mas nunca uma relação dependente e conformista. Por isso, a estratégia devia assentar na cooperação económica com vantagens para ambos lados. O Brasil é perito nessas matérias: costuma abrir linhas de crédito para fazer compras de equipamento e bens alimentares no Brasil. Pela nossa parte, há excessiva inclinação para ceder empréstimos financeiros de livre uso e abuso, para logo depois perdoar dívidas. Perceba-se que o Brasil, quando perdoa, são as compras feitas no Brasil.
Entretanto, também nesta área de interesses, as aplicações quase desinteressadas ficam para os contribuintes portugueses. Os interesses reais que existem nesses território, minerais, produtos florestais, pescas, obras públicas, ficam para companhias não portuguesas.
Quando é que vamos aprender na diplomacia que não há ajudas desinteressadas e cada país cuida dos seus interesses? Quem vai aprender com as experiências de Afonso de Albuquerque? As melhores relações conseguem-se na conjugação de interesses num jogo de cooperação soma mais. Nem todas as relações têm que ser um jogo de soma fixa, ou seja, o que uns ganham os outros perdem. O que ganha um foi o que o outro perdeu. Na realidade, é preciso perceber que uns ganham mais e outros ganham menos. Mas podem ganhar todos.