Quinta-feira, 28 de Abril de 2011

Trabalhar para aquecer?

"(...)investigar os acidentes e incidentes com aeronaves"
Era uma vez um órgão do Estado. Neste particular o Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves (GPIAA), assim chamado.

O GPIAA, herdeiro de outros órgãos semelhantes que o antecederam, foi criado pelo DL318/99. As suas funções são as de investigar os acidentes e incidentes com aeronaves ocorridos no território nacional – e colaborar, quando necessário, nas investigações de acidentes/incidentes com aeronaves nacionais ocorridos no estrangeiro – e, também, o de elaborar recomendações que possam prevenir futuras ocorrências.

Tudo isto representa uma “obrigação” do Estado Português desde que assinou a Convenção Aérea de Chicago, em 1944, a que se junta toda a legislação europeia mais recente, existente no mesmo âmbito e de que Portugal é subscritor.

Depois de vicissitudes várias o GPIAA chegou a 2010 com nove funcionários (um director, dois administrativos, um técnico superior, um motorista e três investigadores, mais um equiparado), o que para uma estrutura do Estado, normalmente “assaltadas” pela partidocracia inferne e dominante, se pode considerar um oásis de contenção, em termos de pessoal, parafernália e custos.

O GPIAA é um órgão independente e depende directamente do Secretário de Estado dos Transportes, e assim deve ficar para se poder garantir a isenção da investigação, a qual visa determinar, frisa-se, causas e não culpados. Para isso existe o âmbito disciplinar e criminal.

Este organismo tem investigado uma média de 36 processos/ano o que dá uma média de 10 a 12, por investigador, o que é um número aceitável em termos de países civilizados (embora haja processos e processos…). 

Até há cerca de quatro anos, pelas vicissitudes aludidas, os processos encontravam-se com cinco anos de atraso, tendo esse lapso de tempo sido, entretanto, encurtado para um ano, o que parece ser também aceitável (lembra-se a grande complexidade que, por vezes, existe na investigação e a necessidade de exames periciais complexos e caros).

Estando as coisas neste pé terminou, em Novembro do ano passado, o contrato a dois dos investigadores, caducando um terceiro no inicio do ano em que agora estamos. Ora trabalhando o GPIAA com o mínimo de investigadores possível e prevendo ficar-se a curto prazo reduzidos apenas a um, estabeleceram-se contactos com a tutela para se desbloquear esta questão, que põe em causa a própria existência do serviço – para os menos correntes nestas matérias deve acrescentar-se que uma verdadeira equipa de investigação de acidentes com aeronaves deve dispor de, pelo menos, meia dúzia de técnicos de várias especialidades e poder recorrer a outros, quando necessário.

Sem embargo a resposta demorava.

Eis senão quando ocorreu o acidente com o B777 da TAAG (6/2/10), que largou peças sobre Almada. Na emergência foram chamar os investigadores cujo contrato tinha terminado e estes, na sua boa fé e na esperança de que a sua situação fosse rapidamente esclarecida, apresentaram-se ao serviço e começaram a tratar do caso.
Texto completo na edição de 26 de Abril de 2011
Brandão Ferreira

Quarta-feira, 27 de Abril de 2011

Do Director: Dourados

Esses rectângulos plásticos que hoje substituem as notas
Em períodos de crise há sempre quem traga à baila a memória das reservas de ouro. É como quem lembra os ensinamentos de outrora para enfrentar o futuro. Um bom princípio que devia continuar a nortear-nos.
Mas as coisas mudaram muito. Passámos do ouro, que é como quem diz de um hábito de poupança, para o dourado, ou seja os cartões de crédito e toda uma facilidade generalizada de endividamento.

Esses rectângulos plásticos que hoje substituem as notas nas carteiras dos portugueses internacionalizaram-se nos anos 80 do século passado, mas foi na década seguinte que a sua utilização se generalizou. Com a massificação do consumo e o acesso cada vez mais facilitado a empréstimos para tudo o que se possa imaginar. Desde a casa ou o carro ao telemóvel de último modelo, passando pelas férias nos destinos paradisíacos em voga. No mundo materialista de hoje mais vale ter que ser. 

Vi há tempos noticiado que muitos portugueses, vendo a sua vida num aperto financeiro, preferiam cortar nos medicamentos e na alimentação do que na televisão por cabo ou no telemóvel. Parece que preferimos continuar a ser dourados do que voltar a ser ouro. Ainda por cima numa altura em que tudo começa a ruir. Em que a festa acabou e alguém pôs a conta – dolorosa – na mesa. Tudo se paga e quanto mais tarde, mais caro.

Presos às nossas dívidas, aos nossos caprichos materiais que agora servem de afirmação social, que se tornaram verdadeiras “necessidades” de primeira, vivemos presos numa gaiola, também ela dourada.
Duarte Branquinho
dbranquinho@textoprincipal.com

Terça-feira, 26 de Abril de 2011

Segunda-feira, 25 de Abril de 2011

Sábado, 23 de Abril de 2011

Quinta Coluna: O país dos outros

"(...)triste estado a que se chegou"
No dia em que era anunciado o pedido de ajuda financeira, os telejornais abriam com... futebol. O País celebrava o sucesso dos clubes portugueses nas competições europeias. Pouco interessa se as equipas são maioritariamente constituídas por estrangeiros e que as empresas que agora representam estejam exageradamente endividadas. É uma imagem clara do triste estado a que se chegou.

Perante o descalabro que se vive hoje em Portugal, a reacção da populaça não é a da necessidade de agir para evitar a catástrofe. É por isso que os recorrentes apelos a um “governo de salvação nacional” não colhem muito mais que a indiferença generalizada. Também a repetida descredibilização da política transmite, na realidade, um desinteresse na condução do nosso destino enquanto Nação.

Neste tempo em que voltámos a ser um protectorado, vemos como cada vez há menos vontade de retomar Portugal.

Os “melhores” partem, numa das maiores vagas de emigração de sempre. Os que ficam nos lugares de topo tentam rapar o que ainda há no tacho. A grande maioria vive completamente alheada da real situação, enchendo restaurantes e celebrando banalidades de copo em riste.

O País não é deles, aparentemente. É dos outros... Haverá ainda uma centelha dos que expulsaram os Felipes ou contrariaram as invasões francesas? É que, como sempre, mais do que com o ocupante, precisamos de contrariar os colaboradores, passivos ou activos. O inimigo interno.

Muitos portugueses, pelos vistos, acham que alguém tratará das coisas. Que ‘isto’ não lhes diz respeito. Há portugueses que, pura e simplesmente, não merecem Portugal. Os bem conhecidos Miguéis de Vasconcelos. Felizmente, não são os únicos que ainda cá estão. 
 Fra Diavolo

Quarta-feira, 20 de Abril de 2011

Coluna Truncada: Boa gente

"O Homem vale mais do que a obra"
Hoje não me apetece falar concretamente de política nem de políticos. No passado sábado Fátima Campos Ferreira fez mais uma entrevista. Quer dizer, foi igual a si própria. Fez perguntas e tentou dar as respostas, interrompeu sistematicamente o entrevistado, cortou-lhe repetidamente a linha do discurso. 

Do que consegui apreender fiquei com uma imagem dum homem empreendedor, um empresário eficaz, um técnico perfeitamente integrado num sistema de mercado livre, um peixe graúdo que se move com completo à vontade no aquário capitalista em que o mundo se transformou, sem alternativa à vista para o futuro próximo. Nada disto seria novidade não fora o que foi transmitido pelas palavras e pelos actos do convidado. Um criador de riqueza, um impulsionador de trabalho, que se preocupa em partilhar os êxitos e assumir os fracassos, que tem a noção da vertente social das empresas, das responsabilidades dos que mais têm em relação aos que mais precisam, um homem que, nesta época de estatísticas desumanizadas, não esquece os princípios éticos que devem sempre acompanhar o exercício do poder. 

Um gestor que conhece os seus funcionários pelo nome e pelas feições, aberto aos problemas pessoais desses mesmos funcionários, que os motiva, que lhes faz sentir que são peças essenciais duma máquina bem oleada e bem afinada, que lhes dá a ideia de que todos são úteis e não apenas material sem nome e sem alma que se pode substituir ao sabor do lucro. Que fala de soluções para Portugal e fala do seu Pais utilizando palavras como Nação e Pátria. E que, nesta época de crise que serve de desculpa às acções mais torpes do ultra liberalismo e do capitalismo selvagem, consegue resultados brilhantes no grupo a que preside sem medidas draconianas, sem despedimentos repetidos, sem passar sistematicamente o ónus da crise para os que menos para ela contribuíram. 

Neste lodaçal em que nos mergulharam sabe bem, de vez em quando, ouvir estas vozes, mais reconfortantes porque cada vez mais raras. Mesmo quando nos chegam por escolha de entrevistadores como Fátima de Campos Ferreira. Falta, a terminar, dizer o nome do entrevistado. Chama-se Alexandre Soares dos Santos e é presidente do grupo Jerónimo Martins. Passe a publicidade. O que aqui interessa, ao contrário do que dizia Flaubert, é que o Homem vale mais do que a obra.

Terça-feira, 19 de Abril de 2011

Entrevista a Adelino Maltez - parte I

Adelino Maltez, professor universitário, é arrasador: ou há uma revolução liberal, uma refundação, ou não vamos sair da cepa torta. Entrevista escrita na edição de 19 de Abril de 2011.

A hora do FIM

Cartoon da edição de 19 de Abril de 2011, por Nuno Tuna.

Sexta-feira, 15 de Abril de 2011

Finis Mundi: A arte de João Sousa

A Galeria João Sousa encontra-se na Av. São João de Deus
Tão habituados estamos aos plásticos industriais que nos surpreendemos quando nos deparamos com peças de artesanato tradicionais e de uso comum, tanto nos habituamos a relegar o artesanato para as lojas de turistas onde se exibem imensas peças de olaria aparentemente local e que os turistas mais incautos levam na bagagem como sendo uma recordação das férias, os mais cautelosos acabam por notar na incontornável etiqueta “Made in China”.

Felizmente ainda existem algumas excepções, uma delas é a arte de João Sousa, um dos poucos jovens portugueses que decidiu dedicar a sua vida à perpetuação de uma ancestral tradição portuguesa que, como muitas outras, desaparece ao mesmo ritmo que os seus idosos mestres: a olaria tradicional.

Tijelinhas, canecas, vasos, louças e canecos não faltam na sua galeria, mas a sua arte é mais notável nos incontornáveis objectos decorativos, no modo como esculpe o barro, além de o modelar, unindo os seus dotes de oleiro aos de escultor, e à originalidade e ousadia de ser o único oleiro português, que se saiba, a pesquisar e a recuperar objectos musicais em barro! Essa pesquisa já deu os primeiros frutos e a colecção de 2011 inclui já vários modelos de ocarina que têm sido alvo de encomendas tanto no território nacional, normalmente por parte de músicos, como oriundas do estrangeiro.

Crê-se que este instrumento de sopro exista há mais de 12.000 anos na China, no Japão e na América pré-colombiana, embora só no Séc. XIX se tenha tornado popular na Europa, graças ao oleiro italiano Giuseppe Donati, criador daquela que actualmente é apodada de “ocarina clássica”.

A particularidade na recuperação deste tradicional instrumento de sopro é que, embora utilize o mesmo material ancestral (o barro vermelho) e a mesma técnica de fabrico, o jovem 'mestre' Sousa modernizou o desenho, tornando-o mais contemporâneo, e afinou os sons tornando-os mais apelativos aos intérpretes actuais, embora o mais provável seja que grande parte dos compradores relegue o instrumento para a prateleira dos bibelots lá da sala, indiferente ao esforço investido na recuperação deste como instrumento musical de direito próprio.

Esperemos que esta seja apenas a primeira recuperação “arqueofuturista” de João Sousa, uma vez que as tradições passadas, caso da olaria, podem e devem renascer e perpetuar-se, assimilando-se hoje naqueles que recusam deixar que estas morram com os mestres de outrora. A Galeria João Sousa encontra-se na Av. São João de Deus (Areeiro), nº 71. Um lugar de Tradição que merece, certamente, a sua visita.

Flávio Gonçalves

Quinta-feira, 14 de Abril de 2011

Hora de Ponta: FMI?

"Não ouvi José Sócrates assumir a responsabilidade"
Todos recordamos as declarações solenes de José Sócrates de que não governaria com o FMI. E eis que ele aí está!

É licito perguntar ao secretário-geral do PS se mantém o que disse ou se, ao invés, vai invocar que “o mundo mudou” e ao contrário do que disse, vai governar com ele. É licito saber se, uma vez mais, vai ignorar o que diz num dia e fazer o seu contrário no dia a seguir.

Ouvi com atenção o discurso de José Sócrates no Congresso do PS deste fim-de-semana, na sua qualidade de Secretário-Geral. 

Pese embora toda a encenação, toda a envolvência emocional criada com recurso à musica que o acompanha quando intervêm e ao clímax gerado no final quando pergunta, empolgado e empolgantemente, se o PS está com ele, não vislumbrei o assumir de uma única responsabilidade por 6 anos de governação, uma única responsabilidade por em 2009 – em plena campanha eleitoral – acusar de “botabaixismo” Manuela Ferreira Leite e todos os que alertavam para o nível de endividamento do país, pela necessidade de mudarmos de vida e de não vivermos mais acima das nossas possibilidades, leia-se acima do que produzimos ou do que crescemos, pelo clamor de que a crise era para os outros e nós, heróis da consolidação das contas públicas (“está para nascer um PM que reduza o deficit como eu”) podíamos aumentar salários da forma eleitoralista como o fez e anunciar grandes obras publicas de discutível criação de riqueza e até de emprego.

Não ouvi José Sócrates assumir a responsabilidade por nos ter criado a ilusão de que cada PEC era o último e resolvia os nossos problemas de financiamento externo, de que a austeridade imposta, o desemprego criado, os impostos aumentados, a descrença gerado eram e são o resultado da sua acção ou da sua inacção.

José Sócrates falou e resumiu a situação do país com uma simples conclusão: a culpa é da Oposição, leia-se do PSD. 

Os congressistas e mais tarde os comentadores enalteceram o discurso guerreiro, a força, a determinação e o profissionalismo político do PM demissionário. De repente, toda a sua acção foi branqueada e num ápice eis o nosso líder, aquele que todos conhecemos, aquele que nos conduzirá à senda do progresso e do bem-estar!? Ao lado de Sócrates todos os líderes da Oposição são pequeninos, mesquinhos, egoístas e que pensam apenas nos seus interesses pessoais e partidários. Passos Coelho em particular é o inexperiente, o sôfrego pelo poder, o ansioso candidato que se atira ao pote sem cuidar da defesa do país…

Ao contrário de Zapatero, que anunciou que não se recandidata pelas mesmas razões que Sócrates e o PS deveriam assumir as suas responsabilidades, em Portugal tudo acontece numa lógica mais semelhante a um país do terceiro mundo em que se age mais pelo medo do que pela genuína vontade de mudar e fazer com que voltemos a ter orgulho no nosso passado ancestral de construtores do humanismo e da universalidade.
A hora é de clarificação. Eu, por mim, não me resigno.
José Serrão

Da Trincheira: A tragicomédia

O senhor Pinto de Sousa e os seus muitos assessores
Poderia falar-vos do FMI, ou FEEF para não irritar o Presidente, mas creio que já muito se disse sobre o assunto pelo que, por muitas “flores” que me ocorressem, correria o risco de ser redundante. Basta apenas dizer que, como sempre disse, desde que meteram a CEE - e depois a UE por nós adentro - deixámos verdadeiramente de ser autónomos. Com ainda maior eloquência veremos o resultado em breve.

Todavia, à margem do assunto resolvi escrever esta crónica, acompanhado de ilustrações, do ainda primeiro-ministro desta cada vez mais pobre (em duplo sentido) república. A propósito da dita república – conviria que, atribuindo-se o valor que se quiser à dita – se respeitassem os seus símbolos, que a representam e identificam. Ora acontece que, demonstrado fotograficamente, o senhor Pinto de Sousa e os seus muitos assessores, chefes de gabinete, secretários e quejandos não cuidam de “pormenores tão irrelevantes” como a dignidade, respeito e deferência à Bandeira Nacional. Parecem mesmo desconhecer (“em casa de ferreiro espeto de pau”) o Decreto-Lei n.º 150/87, 30 de Março, da Presidência do Conselho de Ministros,que estabelece as regras sobre o uso da Bandeira Nacional, diploma que, no seu artigo 1.º dispõe que a mesmas deve ser “respeitada por todos os cidadãos, sob pena de sujeição à cominação prevista na lei penal” (o que se verifica no artigo 332.º. do Código Penal) e que esclarece sobre a sua utilização no artigo 8.º, n.º 1 alínea a): “Havendo dois mastros, o do lado direito de quem está voltado para o exterior será reservado à Bandeira Nacional;”. Ora vejam as fotografias e ficarão esclarecidos sobre o aprumo naquela sala de S. Bento, pelo menos entre 23 de Março e o passado dia 6 em que o referido Decreto-Lei deve ter estado abolido…

É certo que na última imagem já impera a correcção na Bandeira – o que saudando-se, era o mínimo exigível na circunstância. Acontece porém, que este vosso escriba ao assistir ao “ensaio” de imediato mandou um “e-mail” insurgindo-se com tal afronta e quando da actuação posterior reinava já a normalidade. Se foi tal que determinou a correcção, não sei, que foi recebido e respondido: “Exmo. Senhor / Cumpre-me acusar a recepção do e-mail de V. Exa., dirigido ao Senhor Primeiro Ministro. / Com os melhores cumprimentos/ Fernando Soto Almeida /Assessor Administrativo”, sobre isso não tenho dúvidas… Que tenham aprendido é o que se espera!
Humberto Nuno de Oliveira

Quarta-feira, 13 de Abril de 2011

Coluna Truncada: Já? Tão cedo?

"Surgiu um candidato independente, supra partidário(...)"
Há vários anos, depois da sua breve passagem como deputado pelo CDS à Assembleia da República, o ex director de O Independente, Paulo Portas, dizia-me em conversa informal:
- Depois de ter visto por dentro o que é a Política, os meandros sujos e os interesses mesquinhos que lá imperam, cheguei à conclusão que o que eu sou é mesmo jornalista. Para mim, chega! 

Pouco tempo depois, Manuel Monteiro não era mais que uma recordação vaga e Portas era, ad aeternum, presidente do CDS, Ministro recorrente e o mais que ainda está para vir.

Alguns anos depois, estando José Sócrates na pasta do Ambiente de Freeport memória, afirmava ele em entrevista:
-Primeiro Ministro, eu? Nunca. Faltam-me as qualidades e o talento para tal!

O resultado está à vista. Primeiro-ministro, agarrado ao cargo como cão ao osso, possuindo, na sua opinião, todas as qualidades e talentos para o cargo. 

Nas últimas Presidenciais, surgiu um candidato independente, supra partidário, representando, nas suas palavras, a sociedade civil que já não se revê nos jogos de bastidores da Assembleia da República e nas forças ali representadas. Teve alguma votação, que não chegou para ser eleito. Agora, oh surpresa, Fernando Nobre aparece nas eleições de 5 de Junho como cabeça de lista do PSD por Lisboa e, mais ainda, como candidato do mesmo partido à presidência da Assembleia da República. Os votos independentes não chegaram para Belém? Talvez os do detestado PSD cheguem para S. Bento e para o segundo cargo da hierarquia da República. A Política, pelos vistos, é uma droga mais forte do que o “crack” Não experimente, nem com assistência médica. Veja o que está a acontecer ao mon A.M.I. Fernando Nobre… 
Cândido Mota

Cachafrito

A caminho do trono gastronómico...
O coelho ficava horas a pingar, a passar do estado vivo ao exangue, pendurado por uma corda que lhe atava as patas e ia agarrar-se à chaminé baixa da alentejana cozinha. Pensar no processo, hoje, é bárbaro, aos olhos urbanos dos costumes coarctados. Mas tudo começava por ir à casa de campo e escolher o mais robusto animal. Animada pela invasão da coelheira, fugia a coelhada a sete pés. Vinha a aturada perseguição. Arrebanhado por caçador manhoso, lá sucumbia enfim ao seu destino - depois de um esticão bem dado por mãos experientes. Começava assim a fase de glória do coelho: a caminho do trono gastronómico, era esfolado em repentes, como se ainda estivesse o mamífero vivaz e lhe fosse doer mais o arranque da pele feito aos bochechos. Depurado da penugem, ficava então de cabeça para baixo, a pingar, noite inteira, do pêndulo de corda para o alguidar no chão.

No dia seguinte, pela manhã, era só a carne que se via, os robustos músculos, o olhar mal morto, até se adivinhava a mioleira debaixo daquela cabeça bem formada. “Come-lhe a mioleira, filho, para ficares ainda mais esperto”, diziam as avós. Na imaginação daqueles anos, comer o cérebro de coelho era meio caminho andado para a virtude, a sagacidade, a liderança das massas. Era uma espécie de tesouro gastronómico. Mioleira de coelho equivalia a uns dez anos de escola.

Pobre animal, acabava em saboroso cachafrito, enrolado em azeite, aos pedaços, mastigado em simultâneo com puré de batata feito em passe-vitte. Na hora da nobreza, na hora em que esse coelho encorpado e cheio de força chegava ao prato, já coelho não era. E nenhum de nós se lembrava da sua forma inicial - apenas de um triste e condimentado fim. Era a vida do campo. Quando os coelhos andavam à solta e eram felizes.
João Vasco Almeida

Terça-feira, 12 de Abril de 2011

Fogo Amigo: O tempo dos demagogos

É o pântano, nem há mar, nem montanha, nem terra firme
A ditadura carece de Demagogia no discurso porque suprime as oposições sociais e políticas, enquanto a Democracia as cultiva e incentiva

Não é só de hoje que o país encontra demagogos. A experiência histórica portuguesa do final da monarquia e durante toda a República parece mais uma parada de pavões que uma ordeiro formigueiro de atarefados trabalhadores e soldados.

Portanto, os regimes demagógicos são a especialidade portuguesa, que contrastam só com ditaduras famosas e que têm nome: a ditadura de João Franco, ministro do Rei Dom Carlos, a Ditadura de Sidónio Pais, a Ditadura de Salazar. Esta experiência de Ditaduras também é portuguesa e em geral partilhada com outros países do globo, embora a análise do tipo de regime caiba por inteiro a Carl Schmmit, no seu ensaio de Doutoramento, A Ditadura.

De facto a ditadura carece de Demagogia no discurso porque suprime as oposições sociais e políticas, enquanto a Democracia as cultiva e incentiva. A democracia não representa qualquer ameaça à demagogia, por esta é apenas a sua degenerescência,

Um regime que a própria democracia pode engendrar quando não encontra limites aceitáveis para a mentira razoável. A mentira torna-se a textura da vida política e social, demagogos e povo mentem, não há palavra, há apenas promessas vãs e inúteis e um multiplicar de palavras marteladas, prejudiciais ao entendimento do que se está a passar.

São tempos baixos, assolados por um primarismo atroz na linguagem, acossado por iniciativas necessariamente curtas de vista, devastado por leis iníquas e mentirosas. É o pântano, nem há mar, nem montanha, nem terra firme. E no pântano só prosperam aqueles que pertencem ao núcleo predador das criatura ao pântano: crocodilos, jacarés, lagartos, abutres comedores de carne podre. A mentira gera o seu ciclo de desgraças e quer se queira, quer não, é sempre uma mentira. O pior é que as mentiras tornam-se cada vez mais graves, mais caras, mais hediondas. A experiência em Demagogia das cidades gregas saldou-se pelo apagamento das suas culturas, do seu poder e finalmente do seu nome. As que sobreviveram tiveram de mudar de regime por força dos cidadãos que entendiam ao tempo mais de política que o português médio.

Texto completo na edição de 12 de Abril de 2011
António Marques Bessa

Primeira Página, edição de 12 de Abril de 2011

"Com um Rei o País não estava assim", D. Duarte.

Lápis e borracha

Cartoon da edição de 12 de Abril de 2011, por Nuno Tuna.

Sábado, 9 de Abril de 2011

Sala vazia no recomeço dos trabalhos

Foram vários os congressistas a faltar à chamada
Almeida Santos, presidente do Partido Socialista, bem que foi dizendo o nome dos inscritos para discursar, mas muitos faltaram à chamada.

Foi com uma casa praticamente vazia que  recomeçaram os trabalhos no XVII Congresso do PS.

Destaca-se a intervenção de Ana Gomes, que pediu aos socialistas para "assumirem" que "nem tudo foram rosas na Governação", frisando "que nem sempre as rosas cheiram bem".
*foto de António Coelho

Sócrates comove-se com Assis (foto)

"Está bom, pá", agradeceu o secretário-geral do PS
Depois de anunciar Francisco Assis como cabeça-de-lista do PS pelo Porto, José Sócrates voltou a pedir a palavra a Almeida Santos para anunciar ao congresso socialista o nome de Ferro Rodrigues como cabeça-de-lista pelo círculo de Lisboa, que regressa assim à luta política nacional sete anos depois. 

José Sócrates emocionou-se a ouvir as palavras de apreço e apoio de Francisco Assis e de Ferro Rodrigues.

*foto António Coelho

Hora de Ponta: Tsunami económico

"A seguir teremos a Espanha como alvo [do FMI]"
A política subordina-se cobardemente à economia – diga-se: ao capitalismo selvagem e sem rosto – transformando os governantes nacionais em meros mandatários das ordens terceiras que não dos seus eleitores, subvertendo-se as democracias e os estados de direito.

O pedido de ajuda externa está eminente e até pode já ter acontecido na hora em que o leitor estiver a ler esta minha crónica.

Portugal será, certamente, o terceiro país da Zona Euro a ter que socorrer-se de tal medida.
A seguir teremos a Espanha como alvo e, a seguir à Espanha uma outra vitima virá, também, a ser trucidada neste tsunami especulativo, voraz, sanguinário e insaciável.

É verdade que cada país terá a sua história e a sua quota-parte de responsabilidade (nós sabemos bem qual é a nossa! – infelizmente) mas é de pasmar a inacção e “o assobiar para o lado” que a Europa no seu todo e cada um dos países em particular têm pautado os seus comportamentos.

A Europa – leia-se a Alemanha – tem sido incapaz de adoptar medidas firmes e incisivas contra os “mercados”, assumindo, como deveria, uma posição única e a uma só voz que não permitisse segundas interpretações ou segundos sentidos. 

Minada pelos interesses nacionais a Europa revela-se frágil, desagregada, sem rumo e sem liderança e extremamente vulnerável aos usurpadores da soberania alheia, movidos pelo lucro fácil e sabemos lá porque outros razões, quiçá ainda mais graves.

A política subordina-se cobardemente à economia – diga-se: ao capitalismo selvagem e sem rosto – transformando os governantes nacionais em meros mandatários das ordens terceiras que não dos seus eleitores, subvertendo-se as democracias e os estados de direito.

Lula da Silva exortava à necessidade de uma nova Ordem Mundial como reacção a esta “desordem” para onde nos atiraram aqueles que originaram esta crise que encontrou terreno fértil no consumismo e financiamento fácil do mundo ocidental.

Mário Soares questionava a razão de ser do monopólio despótico das agências de rating e a evidência de nenhuma delas ser europeia. Clamava ainda, no seu estilo peculiar, contra os senhores que controlam estas instituições e através delas os países e a própria Europa.

Parece claro que um novo paradigma civilizacional terá que emergir desta crise profunda para onde nos deixámos conduzir, como pessoas, como países e como Europa.

Em Portugal a hora é de clarificação e desejavelmente de verdade – como pedia Cavaco Silva – e, sendo partidário daqueles que imputam a José Sócrates e ao seu governo a responsabilidade maior, mas não única e exclusiva, entendo que a hora não é de avaliar culpas mas sim de “arregaçar as mangas” e enfrentar com coragem, determinação e firmeza a realidade e construir, no presente, um futuro que honre a nossa história já quase milenar e todos os que com grandeza nos antecederam.

Como dizia o Marquês de Pombal: a hora é de cuidar dos vivos e de enterrar os mortos.
Só é pena que alguns destes ainda não saibam do seu fim…
José Serrão

Sexta-feira, 8 de Abril de 2011

Um Mundo Triste III

"Todos os serviços ligados à cultura tiveram um acréscimo"
O valor multiplicativo do investimento em cultura está bem calculado na Europa Central: este investimento tem um efeito multiplicativo de mais de duas vezes o investimento, exactamente 2.4. Se compararmos este valor com o dinheiro aplicado em estradas o valor multiplicativo deste último investimento é de apenas 1.4, o que fica muitíssimo abaixo, cada euro investido nas estradas rende a longo prazo um euro e quarenta cêntimos.

Um destes dias pus-me a ler o estudo sobre o Ano Mozart de 2006 em Viena encomendado por Franz Patay o director administrativo do projecto no final do mesmo. É uma leitura que recomendo aos políticos portugueses.
A notícia é que a Áustria gastou vinte milhões de euros no projecto em apoio directo e gastou mais trinta e seis milhões em outros custos, como no aumento dos funcionários necessários durante o acréscimo de visitantes à Áustria ou, por exemplo, no maior esforço na recolha e tratamento de lixos, maior número de visitas aos hospitais públicos, maior utilização dos sistemas de transporte, entre muitos outros gastos. O custo total directo para a Áustria foi de cinquenta e seis milhões. No entanto, este gasto foi compensado, a Áustria arrecadou nesse ano, devido às comemorações Mozart, mais setenta e dois milhões em impostos. Como setenta e dois menos cinquenta e seis são dezasseis milhões o Estado austríaco ganhou directamente dezasseis milhões de euros. Uma rendibilidade a um ano de cerca de trinta por cento!
Seria já uma história de sucesso se outros efeitos não existissem, o aumento na ocupação de camas foi de três por cento. Todos os serviços ligados ao turismo e à cultura tiveram um acréscimo de funcionários empregados na ordem dos dois mil e quinhentos. Tendo havido investimento privado associado e co-financiamento por outras entidades, que não o Estado da Áustria, pode-se calcular um acréscimo no PIB austríaco de quase duzentos milhões de euros em 2006. Os lucros continuaram depois com os direitos dos filmes, discos e visitas à Casa de Mozart em Viena, entretanto restaurada em 2006, ainda hoje o projecto rende dinheiro.
O valor multiplicativo do investimento em cultura está bem calculado na Europa Central: este investimento tem um efeito multiplicativo de mais de duas vezes o investimento, exactamente 2.4. Se compararmos este valor com o dinheiro aplicado em estradas o valor multiplicativo deste último investimento é de apenas 1.4, o que fica muitíssimo abaixo, cada euro investido nas estradas rende a longo prazo um euro e quarenta cêntimos. O investimento no ambiente, com repercussões também no turismo é comparável ao da cultura e vale 2.3. A vantagem da cultura é um retorno muito rápido do dinheiro gasto na economia global do país e lucros directos para o Estado.

Texto completo na edição de 05 de Abril de 2011
Manuel Silveira da Cunha

Quinta-feira, 7 de Abril de 2011

Coluna Truncada: Ó sócio

"Que a economia não pode substituir a política"
Nós somos latinos e temos, como já disse Eça, a loquacidade do Fórum Romano. Fala – se de tudo e diz – se quase nada. O momento é difícil e os tribunos vêem constantemente à liça, debitando prosa sábia. Mário Soares conferenciou, no Porto, sobre o estado da Nação. Ouvi, maravilhado. Que não se admite a precariedade dos trabalhadores, sobretudo os mais jovens, sem garantias de futuro. Isto dito por quem inventou os recibos verdes. Que esta submissão aos ditames da Europa mais rica é inadmissível. Palavras de quem foi o catalisador da nossa entrada na U.E. nos termos em que foi feita. 

Que a economia não pode substituir a política, sob pena de deixarmos de ser cidadãos para nos tornarmos meros dados estatísticos. Afirmações de quem pretende ser a consciência viva dum Partido que, sob Sócrates “y sus muchachos”, tudo tem feito para acabar com o Serviço Nacional de Saúde tendencialmente gratuito e com o Ensino gratuito e obrigatório. Depois falou Freitas do Amaral. Mesmas preocupações, mesmos cuidados. Que afligem o discípulo dilecto de Marcello Caetano, o fundador do CDS, o ex ministro do PS e o mais que adiante se verá. Depois, a toda a hora do dia e da noite, José Sócrates a deixar para Passos Coelho a perfídia de chamar o FMI. E Passos Coelho a dizer que FMI nunca – mas que, se Sócrates se render à ajuda externa, pode contar com o seu apoio. Que não apoiou o PEC, não pelo que ele tem de gravoso, mas porque não ia suficientemente longe. Porque será que me sinto sistematicamente gozado por estes políticos de entremez? Ai é isso? Isto afinal é uma brincadeira, um texto inédito das Produções Fictícias para a nova intervenção do Gato Fedorento ou um “sketch” do Herman José? Então aqui vai a minha modesta contribuição para a farsa em que transformou tudo isto. 

Vamos a votos como deve ser, com discernimento, em consciência, depois de pensar maduramente. Para Primeiro Ministro, um independente, fora das lides partidárias, com a vida organizada, com um pé de meia que o coloca à parte das tentações do vil metal. Um nome se destaca a millhas de distância: Paulo Futre. Primeira medida a tomar por essa personagem incontornável: chamar para Ministro das Finanças – um Chinês. Pode muito bem ser o Stanley Ho. Transformar Portugal num enorme Casino, substituir o cozido e o caldo verde por chao min e pato à Pequinês. Fazer dos Hipermercados enormes lojas de utilidades a preço de saldo. Reformular a agricultura Portuguesa com grandes plantações de rebentos de bambú. Aplicar molho de soja em tudo, da linguiça ao arroz doce. E cobrar percentagem do turismo que, inevitavelmente, acompanhará estas e outras medidas que, em devido tempo, se seguirão. 

Só a família do Ministro das Finanças deve ser, dadas as dimensões do Pais de origem, alguns milhares. E os amigos? Meu Deus, a minha cabeça não chega para tanto. Tais perspectivas só se aguentam com anestesia. Estou no lugar certo para tratar deste assunto: o Café do Paço. Antunes, meu “ barman” preferido, dá-me mais um Whisky, bem servido. Que este, por enquanto, ainda é para gente de trabalho...

Olhares: Crise provoca violência dentro das famílias

"A família é como a fruta, só apodrece quando já está tocada"
As grandes crises trazem novos e, por vezes, difíceis desafios às famílias. É em momentos de crise que vem ao de cima o melhor e o pior das relações familiares e humanas. Há famílias que se estavam a perder e conseguem unir-se em torno do problema, encontrando estratégias e um plano para o superar. Saem com laços mais fortes e seguros, verdadeiros alicerces para o que possa vir ai. 

Infelizmente, outras há que se construíram em cima de dúvidas, mágoas e incertezas e são, muitas vezes estas, que cedem à violência doméstica, como resposta à situação de angústia e medo. Claro que não resolvem nenhum dos seus problemas, antes os aumentam, contribuindo para estatísticas muito tristes e reveladoras de grande sofrimento familiar.

Quase sempre, este homem sente-se menos homem e descartável porque está desempregado e ganha pouco e acha que “resolve” o seu conflito interno, batendo na mulher física e/ou psicologicamente. Muitas destas mulheres, sem amor, sem trabalho, sem comida para responder aos filhos, com auto estima a menos e maus tratos a mais, perdem a paciência, batendo e ralhando com a sua descendência, muito mais do que a situação pede.

Quando falamos do aumento da agressividade familiar em situações de crise financeira ou outra, não podemos esquecer que a família é como a fruta, só apodrece quando já estava “tocada”. Se estiver sã tem a capacidade de se reorganizar e cimentar laços saudáveis.

Cristina Freire

Quarta-feira, 6 de Abril de 2011

Contrasistema: O XIII Congresso do Partido Social Democrata da Madeira

"Pretende-se recolher contributos de fora do próprio PSD"
Nos termos estatutários do Partido Social Democrata nacional, o PSD da Madeira realiza o seu XIII Congresso Regional de 8 a 10 de Abril, sendo o primeiro destes dias reservado a doze painéis sectoriais abertos à participação da sociedade civil, pessoas sem qualquer filiação partidária.

Pretende-se, assim, recolher contributos de fora do próprio PSD, a fim de melhor permitirem a elaboração de um Programa de Governo para a Legislatura 2011-2015 da Assembleia Legislativa da Madeira, a eleger em Outubro próximo.

Convém esclarecer que o facto de estas datas abrilinas coincidirem com o Congresso Nacional do Partido Socialista, se deve a marcação posterior por parte do PS.

A nova Comissão Política Regional da Madeira dos autonomistas sociais-democratas, foi já eleita em sufrágio universal de todos os militantes madeirenses, sendo aliás o PSD/Madeira o primeiro partido a praticar este tipo de eleições internas no nosso País, após a Constituição de 1976. Pelo que os seus membros tomarão posse durante o Congresso, assim como o Secretariado Regional, igualmente já eleito pelo mesmo processo. Este órgão peculiar do PSD/Madeira destina-se a deixar para a Comissão Política apenas as decisões políticas, ficando para ele tudo quanto financeiro, logístico e administrativo, ainda que tomando parte nas reuniões do Executivo político, porém sem direito a voto.

Texto completo na edição de 05 de Abril de 2011
Alberto João Jardim

A Líbia e a hipocrisia das relações internacionais

"Países ocidentais puseram-se logo ao lado dos revoltosos"
Esquecendo-se que a realidade social na Líbia não era idêntica ao Egipto e Tunísia, os principais lideres dos países ocidentais puseram-se logo ao lado dos revoltosos excomungando liminarmente o “louco” Kadhafi com quem aliás, almoçavam na véspera.

O que se passa na Líbia e a reacção da “comunidade internacional” (alguém sabe o que isso é?), é a prova acabada da refinada hipocrisia que preside às relações entre as entidades políticas sejam elas quais forem.
E, outrossim, da desorientação que grassa no chamado mundo ocidental, nomeadamente entre os países que fazem parte da NATO e da UE.

Os cerca de milhão e setecentos mil Km2, de pedra e areia, com uma orla marítima mediterrânica de 1770 km, onde se amontoam 90% dos seus 6 milhões de habitantes (cerca de 25% de emigrantes), não apresenta qualquer estrutura que possa permitir constituir um país. A Nação é inexistente e o Estado uma espécie de estado-maior de poder unipessoal, espraiado por uma rede tentacular de nepotismo familiar e étnica. O país é tribal, isto é, constituído por descendentes de 140 tribos árabes e outras berberes, hoje os Tuaregues.
Kadhafi está no poder há 40 anos, data assinalada com pompa e circunstância em tendas luxuosas visitadas pelos grandes do mundo. Quando jovem oficial, Kadafi liderou um golpe de estado, em 1969, que se impôs a uma anquilosada monarquia liderada pelo Rei Idris I. No poder, substituiu os sucessores de Beis e Califas por uma ditadura pessoal de contornos difusos que procurou sustentar com uma doutrina excêntrica saída de uma noite de insónia e colorida a verde.

Não lhe chegando o palco mediático e a acção político – diplomática, o que estaria no seu direito, decidiu apoiar, de motu próprio, a acção de outras organizações empenhadas em acções de terrorismo internacional.
Fartos de aturar as diatribes de tão original personagem, dois estadistas de rara coragem política – Reagan e Tatcher, decidiram bombardear pelo ar, vários alvos na Líbia, a começar no alvo número um que era o próprio Kadhafi. Corria o ano de 1986. Morreram umas quantas pessoas, mas não o dito cujo. 

O desenvolvimento lento da indústria extractiva (iniciada em 1961) e o cada vez maior apetite que os mercados internacionais têm por petróleo e gás natural, não eram compatíveis com a quarentena líbia. 

Quando Saddam caiu no Iraque, em 2003, Kadhafi desistiu do seu programa de armas de destruição maciça e pagou três biliões de dólares às famílias dos que morreram no voo da Pan Am e de um outro (UTA Flight).

O namoro começou, então, de todos os lados. O embargo foi levantado, Kadhafi admitiu a responsabilidade nalgumas vilanias que cometeu e os negócios floresceram. Portugal foi na onda.
As visitas sucediam-se e eram só sorrisos e abraços.

Mas, na sequência da revolta popular na Tunísia e Egipto, elementos de uma das “tribos” estranhas ao clã Kadhafi, revoltaram-se em Bengasi (bem longe de Tripoli!) e revelaram o seu desejo de o afastar.

Texto completo na edição de 05 de Abril de 2011
João José Brandão Ferreira
TCor/Pilav (Ref.)

Terça-feira, 5 de Abril de 2011

Sexta-feira, 1 de Abril de 2011

O 15 DE MARÇO DE 1961 A 50 ANOS DE DISTÂNCIA

"O início do terrorismo em larga escala"
Não se compreende até, que o senhor, como Bispo das FAs e de Segurança, não exige o imediato regresso dos militares que temos espalhados por esse mundo fora a correrem, como Mouzinho dizia, “perigos, fomes e sedes…” E queira fazer o favor de notar que nenhum deles está a defender as suas fronteiras físicas ou a segurança da população a que pertence. Como, “de facto”, e “de jure”, estiveram as centenas de milhares de jovens portugueses que lutaram na refrega que ora invocamos – como, aliás, muitos mais o tinham feito nos últimos cinco séculos.

A data de 15 de Março de 1961 representa para os portugueses, o início do terrorismo em larga escala, que se abateu sobre a então província de Angola, território português onde Diogo Cão pela 1ª vez colocou um padrão, em 1483. Este ataque configurou um verdadeiro genocídio, que em nada fica atrás à gravidade do que ocorreu no atentado às torres gémeas em Nova Iorque.

Os responsáveis por (alguns) genocídios passaram a ser julgados em tribunais internacionais e esses crimes não prescrevem… Este ataque traiçoeiro, engendrado fora de portas e com apoios vários, deu origem a uma luta de guerrilha e de contra guerrilha que durou 14 anos, estendendo-se à Guiné (1963) e Moçambique (1964). Foi, sem dúvida, pela sua grandiosidade e consequências, a ocorrência mais marcante de todo o século XX da nação lusa.

À Liga dos Combatentes, a que se associou o governo, através do Ministro da Defesa, e a Presidência da República, pela figura do mais alto magistrado político, coube organizar os eventos de modo a não deixar passar os 50 anos da efeméride, no olvido.

Chamou-se às cerimónias uma “Evocação do Esforço da Nação Portuguesa e das suas Forças Armadas na guerra do Ultramar (sublinhados nossos), o que parece uma designação feliz. Dividiram-se os eventos entre uma missa nos Jerónimos; uma cerimónia junto ao monumento dos Combatentes, em Pedrouços e uma sessão solene na Sociedade de Geografia de Lisboa que, em boa hora, se associou ao acto.

À parte o escasso público e deficiente cobertura mediática tudo correu bem. Tudo, com uma excepção: a homilia, deslocada, incongruente, acre e historicamente falsa, do Bispo D. Januário, que presidiu à Eucaristia.

O Sr. Bispo é bem conhecido, pelo que pensa, diz e faz, logo a responsabilidade do insucesso deve ser partilhada por quem o convidou.

Sua Eminência foi convidado para invocar o esforço da Nação e das Forças Armadas (estas fazem parte daquela), se não concordava com tal não devia ter aceite o encargo.

Ao invés disso, resolveu agredir a Nação e as FAs, ao condenar sub-liminarmente o seu esforço; ao fazer um julgamento político do Estado e lançando sobre todos o anátema da guerra injusta. A ele bem se pode aplicar a célebre frase de Jesus no Gólgota: “Pai, perdoa-lhes que eles não sabem o que fazem”.

Não podemos no espaço de umas linhas, analisar toda a penosa homilia que à excepção, talvez, do ministro Santos Silva, já libertou os presentes das penitências da Quaresma. Mas vamos tentar embaciar o brilho de alguns das mais nacaradas pérolas com que S. Ex.ª nos brindou.
Texto completo na edição de 29 de Março de 2011
Brandão Ferreira